21 de maio de 2026

Quando o Centro se Move, por Maria Luiza Falcão

A globalização baseada em cadeias produtivas altamente integradas cede espaço a uma geoeconomia de blocos.

A economia global enfrenta transição estrutural com baixo crescimento, foco no Indo-Pacífico e rivalidade geopolítica entre potências.
Mais de 60% do crescimento mundial ocorre na Ásia, com China e Índia liderando e deslocando o centro econômico para o Indo-Pacífico.
Estados Unidos adotam contenção econômica e militar, especialmente no Golfo, aumentando riscos globais e fragmentando cadeias produtivas.

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Quando o Centro se Move

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por Maria Luiza Falcão Silva

Quando o centro da economia mundial se desloca, não mudam apenas estatísticas — muda a própria arquitetura do poder. O que o sistema internacional atravessa hoje não é uma desaceleração cíclica, mas uma transição estrutural marcada por três vetores que se reforçam mutuamente: crescimento persistentemente baixo, deslocamento do dinamismo econômico para o Indo-Pacífico e intensificação da rivalidade geopolítica entre grandes potências.

As projeções globais continuam girando em torno de 2,5% a 3% ao ano — um patamar que, comparado às décadas do pós-guerra, revela uma economia em marcha lenta. O crescimento que antes absorvia tensões políticas e redistribuía influência tornou-se insuficiente para acomodar rivalidades. Em um mundo que cresce pouco, conflitos pesam mais.

O ponto decisivo não é apenas o ritmo da expansão, mas sua geografia.

Mais de 60% do crescimento do Produto Interno Bruto mundial (PIB) concentra-se hoje na Ásia. Em termos de paridade de poder de compra, o espaço indo-pacífico responde por parcela majoritária da produção global. China e Índia consolidam-se como motores centrais da expansão, enquanto economias do Sudeste Asiático ampliam sua inserção industrial e tecnológica. O centro dinâmico da economia desloca-se gradualmente das margens atlânticas para o Indo-Pacífico.

Durante dois séculos, a economia internacional foi organizada a partir do Atlântico — primeiro sob hegemonia britânica, depois sob liderança norte-americana. O comércio transatlântico, o dólar como moeda de reserva e as instituições multilaterais construídas após 1945 consolidaram essa arquitetura. Hoje, essa centralidade é tensionada por uma redistribuição silenciosa, mas consistente, de capacidade produtiva, tecnológica e comercial.

Redistribuições de poder raramente ocorrem sem fricção.

O retorno de Donald Trump à Casa Branca intensificou uma estratégia de contenção baseada em instrumentos econômicos. Tarifas elevadas, restrições tecnológicas e pressão sobre cadeias produtivas tornaram-se ferramentas explícitas de política externa. Paralelamente, a escalada retórica e estratégica em relação ao Irã, combinada ao reforço da presença militar no Golfo, amplia o risco sistêmico.

O Irã ocupa posição estratégica crucial na arquitetura energética global. Qualquer instabilidade prolongada no Estreito de Ormuz repercute sobre preços de petróleo, inflação e cadeias logísticas. Em um ambiente de crescimento frágil, choques energéticos produzem efeitos desproporcionais. A investida norte-americana não é apenas um episódio regional; é uma variável macroeconômica de alcance global.

Baixo crescimento e competição estratégica passam a se retroalimentar. Economias que expandem pouco se tornam mais suscetíveis ao protecionismo e ao nacionalismo econômico. A fragmentação comercial, por sua vez, reduz eficiência, encarece transações e comprime ainda mais o dinamismo global.

A globalização baseada em cadeias produtivas altamente integradas cede espaço a uma geoeconomia de blocos. “Friend-shoring” e “near-shoring” substituem a lógica da eficiência irrestrita.

 Empresas reorganizam produção não apenas por custo, mas por segurança estratégica. A realocação de cadeias produtivas se dá na direção de países próximos, reduzindo dependência de rotas longas e vulneráveis.

A produção se desloca para nações consideradas politicamente “confiáveis” ou alinhadas estrategicamente. Nos dois casos, a lógica da eficiência global — baseada na busca pelo menor custo em qualquer parte do mundo — é substituída por critérios de segurança, proximidade e afinidade política. O resultado é uma reconfiguração das cadeias de valor que tende a encarecer processos produtivos, fragmentar mercados e consolidar blocos econômicos mais fechados.

O sistema financeiro por sua vez opera sob crescente incerteza — no sentido keynesiano. Não se trata apenas de risco calculável, mas de instabilidade institucional. Regras comerciais são revistas, alianças são reconfiguradas e regimes tecnológicos tornam-se mais restritivos. Investidores não projetam apenas juros ou inflação; projetam cenários geopolíticos.

A disputa em torno do Irã reintroduz um elemento clássico nas transições históricas de poder: energia e rotas estratégicas. Sempre que a ordem internacional foi redesenhada — do Império Britânico aos Estados Unidos — a reorganização do acesso a recursos energéticos esteve no centro. A diferença agora é que essa transição ocorre sob crescimento moderado, elevado endividamento e intensa interdependência financeira.

Enquanto o Indo-Pacífico consolida-se como núcleo dinâmico da produção e do comércio, o Atlântico responde com instrumentos de contenção. A questão central não é apenas econômica, mas estrutural: saber se a transição para uma ordem multipolar será administrada por mecanismos cooperativos ou atravessada por fricções prolongadas.

A transição em curso não ocorre em terreno neutro. O crescimento baixo reduz margens de acomodação, e a competição estratégica amplia incentivos à disrupção. Quando a arquitetura institucional não acompanha o deslocamento do centro econômico, tensões acumulam-se nas fissuras do sistema.

A história sugere que momentos assim definem décadas. O desfecho dependerá menos da velocidade do crescimento e mais da capacidade das grandes potências de reconhecer que, em um mundo interdependente, contenção permanente não substitui governança. Ignorar essa premissa não produzirá estabilidade — apenas prolongará a instabilidade.

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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Maria Luiza Falcão Silva

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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