5 de junho de 2026

Méritos do ex-capitão. Pra não dizer que não falei das joias, por Armando Coelho Neto

Que o fato novo, filmado, gravado, confessado representado no “roubo” das joias (R$ 16,5 milhões) não tenha o melancólico final dos crimes cometidos durante a pandemia.

Méritos do ex-capitão. Pra não dizer que não falei das joias

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por Armando Coelho Neto

O ex-capitão não garantiu sequer sua própria segurança. No passado, mesmo armado foi assaltado e ficou com cara de tacho. O episódio da “facada” está mais para Chicó e João Grilo (obrigado, Ariano Suassuna!) ou a farsa que deu errado e matou Odorico Paraguaçu (obrigado Dias Gomes!). Uma falha de segurança, e o que seria um susto terminou com um atestado de insanidade para o Adélio.

O mérito do roteiro foi o ex-capitão ser eleito. Ao mesmo tempo acabou por desmascarar a podridão de expressiva parte dos militares que secularmente apoiam a corrupção no Brasil. Militares de novo? Claro, por que não? Não foram eles que deram carta branca para o corrupto genocida foragido? Não foram eles que recentemente ocuparam mais cargos do que durante a ditadura militar?

Quer mais? No caso das joias tem-se um sargento, um almirante-mula, um coronel, um tenente, ironizou Eduardo Moreira (empresário, apresentador do ICL Notícias). A palavra mula é por nossa conta, já que, convenhamos, o almirante serviu de mula para o ex-capitão e por pouco não saiu de Chicó e Odorico para entrar no reino de Mazzaropi. Mas, nada é comédia, estamos falando de crime, ora pois.

De qualquer forma, o ex-capitão acabou com o mito da honestidade e da eficiência militar. Nesse espaço e até na mídia hereditária e corporativa, as cretinices dos quarteis foram apontadas: das tramoias na compra de cloroquina, Viagra com sobrepreço de 143%, próteses penianas, criação de empresas fantasmas (uma das quais contratada 57 vezes sem licitação)…

Uma sociedade honesta não sobrevive à corrupção e nem a corrupção sobrevive numa sociedade honesta. Haja frase feita, mas “Tudo mais é estúpido como um Dostoievski ou um Gorki” (Álvaro de Campos). Sim, maus exemplos não representam militares nem instituições democráticas. Mas, foi o ex-capitão que usou a ignorância histórica de incautos para vender a imagem hoje arruinada, enlameada.

Na festa do sigilo de cem anos, enquanto o ex-capitão comia pão com leite condensado, sabujos tomavam whisky de primeira linha, armas saíram do controle para alegria de traficantes, rolavam vistas grossas para o superfaturando e sabotagem das vacinas. Foi um militar que recebeu o ministério da Saúde com menos de 15 mil mortos e o entregou com quase 280 mil vítimas da Covid.

O selo militar cai por terra, por mérito do ex-capitão. O avião da comitiva presidencial do ex-capitão chegou a levar 39 quilos de cocaína para a Espanha, e nessas horas a pergunta óbvia é: só aquela vez? Aliás e a propósito, quem foi preso na Espanha? Um miliar. Cocaína na ida e joias na volta, seria isso? Que fique definitavamente claro que militar não significa atestado de lisura, eficiência ou honestidade.

O meliante homiziado na Flórida tem o mérito de desmascarar o falso moralismo dele próprio e de seus apoiadores. Está na mídia impressa, livros, documentários – nas vozes de políticos, filósofos, sociólogos, cientistas, antropólogos, arqueólogos tudo está às claras…. Restou a contradição nas vítimas da desinformação, a realidade nos supermercados, na fila do osso ou no nome sujo no Serasa.

O discurso da moralidade, de combate à corrupção foi para o brejo. Aliás, ficou claro desde quando o ex-capitão trocou (“comprou? ”) uma sentença condenatória contra Lula. Negócio fechado, o juiz corrupto logo abrigou-se na camarilha, e sua providência zero foi perdoar corruptos de estimação do genocida e fazer vistas grossas para a mais próspera loja de chocolates do mundo.

Aliás, o que o ex-juiz tem a dizer sobre as joias apreendidas pela Receita Federal? E o ex-procurador almofadinha sem escrúpulos, que ganhou dinheiro a rodo com diárias e palestras, nas quais ensinava espertalhões trapaças para não serem apanhados pela lei? E a grana vinda do exterior para ele e o meliante de toga gerenciarem? A fossa foi aberta? Mérito do ex-capitão, ora pois.

O ex-capitão cometeu quase 30 crimes de responsabilidade que estão fatalmente impunes. Só responderia se o Congresso e a Procuradoria da República agissem. Foram omissas no processo de modulação das instituições. Que diacho é isso? São formas por meio das quais mãos invisíveis ajustam e aceitam as anomalias, tribunais decidem contra a lei, ajustando o jurídico ao político, tipo golpe contra Dilma.

Modulação é cogitar anistia, é ministro do STF dizer que prender o ex-capitão pode gerar instabilidade, é o presidente Lula ter que conviver com os Juscelinos Filhos e Josés Múcios da vida … é a democracia aceitar tralhas e penduricalhos. Na Lei, seria o tal juízo de ponderação ou proporcionalidade e na política é arrumadinho. E assim o que seriam, em tese exceções, aos poucos se consolidam como regra.

Crimes de responsabilidade sepultados, restam os crimes comuns, resta o “roubo” das joias, o contrabando, prevaricação, tráfico de influência, estelionato, peculato, entre outros, sem contar os crimes eleitorais por uso da máquina pública. Que o fato novo, filmado, gravado, confessado representado no “roubo” das joias (R$ 16,5 milhões) não tenha o melancólico final dos crimes cometidos durante a pandemia.

É preciso chamar de “roubo” e propina o caso das joias. Parte do Brasil quer ver o ex-capitão na cadeia. Falar de descaminho e “presente” é falácia. O povo que nunca soube o que foi pedalada e nunca entendeu bem o que é rachadinha, precisa entender a dimensão dos fatos, antes que a lua de mel dos cem dias termine. Já se sabe que dessa lua obscura pode sair lobisomem e que nesse mel tem vinagre.

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Armando Coelho Neto

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

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  1. josé Oliveira de Araújo

    13 de março de 2023 8:17 am

    O EX-CAPITÃO E FUTURO PRESIDIÁRIO, QUE REMEMOREMOS, SÓ CHEGOU A CAPITÃO, POR CONTA DE DEMÉRITO, ACRESCENTA AO SEU EXTENSO CURRÍCULO DE BANDIDAGEM, MAIS ALGUNS ITENS. QUANTO AOS MILITARES É IMPORTANTE TER EM MENTE, QUE NOS PRIMÓRDIOS DAS DISPUTAS TRIBAIS, ALGUMAS TRIBOS COMEÇARAM A FORMAR GRUPOS DE GUERREIROS, QUE SE ESPECIALIZARAM EM ATACAR OUTRAS TRIBOS E PROMOVEREM SAQUES E LEVAR PRISIONEIROS PARA TORNÁ-LOS ESCRAVOS. FORAM ESSES GRUPOS QUE VIRIAM SE CONSTITUIR NOS EXÉRCITOS QUE DESEMBOCARAM NO QUE CHAMAMOS DE CIVILIZAÇÃO. COMO A HISTÓRIA NOS ENSINA, UMA ORIGEM NADA MERITÓRIA.
    QUANTO AO FIM DA CORRUPÇÃO, ELA SÓ SERÁ POSSÍVEL QUANDO HOUVER CONSENSO, QUE A MESMA É IRMÃ XIFÓPAGA DA PROPRIEDADE PRIVADA E SÓ PODERÁ DESAPARECER QUANDO ESTA FOR EXTINTA. POIS É A PROPRIEDADE PRIVADA QUE DAR MATERIALIDADE AO PRODUTO DA CORRUPÇÃO.

  2. josé Oliveira de Araújo

    13 de março de 2023 8:22 am

    OBS.: NO COMENTÁRIO ENVIADO HOJE, ONDE ESTÁ ESCRITO DAR, LEI-SE DÁ.

  3. Rui

    13 de março de 2023 8:24 am

    “Aliás, o que o ex-juiz tem a dizer sobre as joias apreendidas pela Receita Federal? E o ex-procurador almofadinha sem escrúpulos, que ganhou dinheiro a rodo com diárias e palestras, nas quais ensinava espertalhões trapaças para não serem apanhados pela lei?’ – Armando Coelho Neto. O ex-juiz só fala sobre corrupção. Já o ex-procurador disse: “Muita gente me perguntando em todas as redes sobre o caso das joias recebidas pelo governo Bolsonaro da Arábia $audita. Passei a semana estudando o caso, que é extremamente complexo, com novos fatos surgindo todos os dias. Esse será o tema da minha coluna na @gazetadopovo amanhã”.

  4. Rui

    13 de março de 2023 8:32 am

    “Aliás, o que o ex-juiz tem a dizer sobre as joias apreendidas pela Receita Federal? E o ex-procurador almofadinha sem escrúpulos, que ganhou dinheiro a rodo com diárias e palestras, nas quais ensinava espertalhões trapaças para não serem apanhados pela lei?” – Armando Coelho Neto. De acordo com o Dallagnol, “em relação a Bolsonaro, o episódio das jóias depende ainda de uma investigação para que os fatos restem completamente esclarecidos”. Enquanto os fatos estiverem apenas parcialmente esclarecidos, o Dallagnol continuará a atacar o Lula e a Dilma e a denunciar a hipocrisia dos petistas.

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