Redução da jornada de trabalho: a realidade que vi in loco
por Luís Antônio Waack Bambace
Morei na Alemanha no período da discussão e implementação da escala de 35 horas. A choradeira falava de quebradeira de pequenas e médias empresas, desemprego, aumento de custos e tudo o mais. Só que a realidade foi outra, setores como salão de beleza, produção de material esportivo, bares e restaurantes, barbeiros, academias esportivas e vários outros tiveram aumento explosivo de atividade. Sem tempo face a jornada anterior, o sujeito não ia no barbeiro, a mocinha não ia no salão. Afinal, não valia a pena o gasto no salão de beleza para não ir a lugar nenhum. E lá a redução foi de 40 para 35 horas.
O barbeiro do meu bairro aqui no interior abre 56 horas por semana. Sábado opera com 4 pessoas cortando o cabelo, durante a semana com um ou dois. Motivo, o freguês não aparece. Quem precisa de fato de um serviço, vai comprá-lo. Quando se tem mais tempo de atendimento, o fluxo se espalha em um tempo maior, e aí, ou se opera com quadro reduzido de funcionários ou eles ficam ociosos. O dono da tornearia fundo de quintal com seus tornos Sanches Blanes de mais de 30 anos, pode reduzir a jornada de seus peões e produzir mais se um FINAME ajudar na troca, passando talvez a financiar também máquinas usadas.
Assim, a redução de jornada não implica em manter o tempo atual de funcionamento de qualquer negócio, mas sim de reajustar horários de abertura, e pode ter aumento de custo nulo, ou até redução de custo, afinal para abrir tem que se preparar o estabelecimento para atender fregueses, e ao fechar tem que se limpar o estabelecimento. Se deixa de abrir um dia, como os clubes esportivos deixavam de abrir na segunda-feira, pode haver redução de custos. A mágica, vem do aumento do fluxo de fregueses no menor horário de abertura. Tem gente que diz que um feriado é prejuízo, sem ver que o freguês simplesmente vai aparecer outro dia.
Toda decisão depende de modelo, e modelo errado gera decisão errada. O que falo do barbeiro da esquina aqui no interior não é hipótese, é baseado nas mudanças de fluxo do barbeiro também da esquina do bairro de Porz em Colônia. A única diferença entre o Brasil e o que vi lá, é o nível de endividamento da população e taxa de desemprego. Lá a população não estava endividada como a daqui, e nem se tinha juros reais tão altos como aqui. Quando a demanda por lazer cresceu, tinha como se investir para ampliar negócios no setor, aqui, com os juros estratosféricos será que isto é possível? Aqui a taxa de desemprego é de uns 5%, mais baixa que a de lá na época. Tem gente que diz que é impossível se ter taxas de desemprego abaixo de 3%, o chamado nível de atrito. Afinal se o ambiente é tóxico, as pessoas mudam de emprego, e há gente problemática do lado dos trabalhadores. Só que esta estimativa é de locais de bom amparo ao desemprego. Se o amparo é ruim, talvez este nível de atrito seja mais baixo.
O bar e restaurante, fica ocioso em vários horários. Tem fluxo matinal, na hora do almoço e à noite. Tem preparação de refeições, limpeza e outras atividades. Parte da preparação de refeição, fritar o bife, é na hora, parte como fazer o feijão, não. Mas sempre dá para se ajustar para diferentes situações legais a escala de cada funcionário. O que não pode é deixar sempre tudo como está, sem olhar a chance de aproveitar soluções ganha-ganha, afinal se o fluxo subir, face a mais tempo livre, será que a adaptação a nova escala não melhora o ganho do dono do restaurante?
Cientificamente, tem de se olhar as curvas de fluxo, e fazer pesquisa por amostragem do que o cliente pretende fazer em caso de mudança de escala. Aí vai se poder entender como será a adaptação a mudança de escala.
Há setores que já operam com menor tempo de trabalho semanal de seus empregados, face a acordos sindicais. Há também a questão de cansaço e produtividade. Em especial na área de tecnologia da informação, computação, e afins, cansaço gera mais erros de codificação. Aí, as vezes a redução de jornada gera mais eficiência na geração de códigos. Cabe uma campanha de esclarecimento de quem quer a mudança, com uso de informações de pesquisas de opinião pública do que as pessoas farão em termos de ida as compras ou unidades de serviços se a mudança vier, o que vai mostrar claramente efeitos de concentração de fluxo e possibilidade de redução de horários de funcionamento, análise de ganhos de produtividade, e tantos outros fatores que vão permitir uma modelagem clara dos efeitos da mudança. Junta com as análises dos ganhos astronômicos que ocorreram nas reduções de jornada europeia, e aí dá para fazer um planejamento detalhado de medidas complementares, afinal é melhor financiar expansão de negócios do que usar políticas monetárias restritivas para conter aumento de preços em áreas que com a mudança terão aumento expressivo de demanda.
Luís Antônio Waack Bambace. Engenheiro Mecânico. PhD em Aerodinâmica Propulsão e Energia.
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