Relações binárias, que preguiça!, por Mariana Nassif

Relações binárias, que preguiça!, por Mariana Nassif

Nestes tempos de submersão para extravasar, tenho sido presenteada com conversas e trocas riquíssimas e, esta semana, o papo foi sobre relacionamentos. Algo que, de saída, pinta um quadro que fatalmente termina com o “felizes para sempre” – cada vez menos, que seja, com as experiências de ouros modelos de relação já vivida pelos adultos e mais ainda experimentada pela nova geração, mas ainda assim presente provavelmente como primeira opção quando a linha do papo segue pelo caminho de “conheci uma pessoa”.

Às mulheres, normalmente, reserva-se o lugar de sonhadora, aquela que não pode ser “muito” para dar o espaço necessário para que o homem manifeste sua masculinidade e este, por sua vez, é tolhido de quase toda expressão sensível porque, afinal, não é isso o que uma mulher espera dele. Planos, metodologias e prazos que funcionam bem na matemática, mas que acabam sendo inquestionavelmente duvidosos na vida prática, ainda mais no que diz respeito ao encontro entre duas pessoas – ou mais, fica a seu critério.

Sim, o esquema “bela, recatada e do lar” não é apenas algo que surgiu como efemeridade bestial, mas que está culturalmente impregnado nas entranhas da mulher mais independente que, ao se analisar solitária, acaba questionando se não está “independente demais” e, por este motivo, “afasta os homens”. Não quero nem comentar sobre isso agora, mas conheço e, confesso, sou dessas quando o frio aperta na madrugada, mesmo no calor tropical de Ubatuba.

Interessante observar e absorver que o tal final feliz pode não ser a única oportunidade dos encontros e, mais ainda, não devem ser. Longe do papo raso de desapego, este que é temática tão profunda e tão amplamente difundida mas que, veja bem, acaba sendo impresso apenas na superfície, este lugar onde pairam a enorme maioria das coisas, pessoas e assuntos nos dias de hoje, promovendo vazios existenciais seríssimos que, claro, serão amparados e regidos pela mais nova terapia do milagre da cura na luz violeta do guru tal, ao investimento de míseros 9.997,00, como bem prega a paródia que seria cômica se não fosse trágica. O que quero abordar aqui é que mesmo aqueles que se comprometem com uma certa evolução, em algum momento, acaba caindo neste limbo esquisito e binário de que um encontro deve ter como resultado tão somente o romance e, me incluo de novo nessa, que triste, deixa de lado as nuances que permitem ou possibilitam, pelo menos, que possamos desenvolver temas realmente íntimos e preciosos mediante a troca mesmo que estes temas tenham efetivamente pouco a ver com a troca.

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Um exemplo: alguém que tem dificuldade em contornar sua própria personalidade e acaba se transformando nas pessoas com quem se relaciona,  determinado momento da vida, encontra outro alguém que não é tão bacana assim mas exercita o limite. Oras, mas se o outro não é tão legal assim, por que estaria o um gastando energia com esta relação? Resposta curta e ligeira, pode ser para desenvolver estas bordas, não necessariamente para se relacionar feliz para sempre, entende?

Entendo, ufa, hoje e com acompanhamento cuidadoso e de amor, além de bem estudado terapeuticamente falando, e posso afirmar que experimentar a vida sob o prisma da profundidade, por mais trabalho que dê, é valiosíssimo, assim mesmo, no superlativo. Pode ser perigoso, permite escorregões e talvez a volta dos que não foram mas, em segurança, vale a viagem.

Indico com veemência cultivar amizades que permitam este tipo de conversa profunda entre pessoas inteligentes que compreendam ou que, pelo menos, desejem expandir a mente e os sentidos, lembrando que a vida é muito mais complexa e sensível do que a possibilidade de “dar certo” ou ser uma barca furada e só isso, levando em consideração, claro, o grau de equívoco ou envolvimento das partes – há situações onde o indicado é a interdição, sem dúvida alguma.

Sentir o desenvolvimento maduro na pele é algo verdadeiramente mágico, além de imprescindível para melhorarmos toda e qualquer relação que venhamos cultivar: as momentâneas, as para sempre e aquelas que aparecem como tempestade e que, se trabalhadas no sentido de absorver e trocar o que há de bom em cada um de nós, pode ser oportuna para limpar os caminhos muitos mais do que deixar rastros de destruição.

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Seguimos.

 

 

 

 

 

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6 comentários

  1. Aquela que não pode ser muito
     

    Em que mundo você vive, criatura?

    Só os homens como temer cultivam as recatadas do lar.

    Isso não se usa mais.

    Ser menos para o homem ser mais.

    Nem que você fosse velha.

    Ser feliz é ser você mesma, nem mais e nem menos.

    Ninguém consegue ser feliz só agradando o outro.

     

  2. Tempos de crise e ditadura
    Engels foi claro em relação a isso: a pior forma de prostituição é o casamento. O que fica encoberto na fantasia do “felizes para sempre” é que a união entre duas pessoas é, acima de tudo, um contrato social e econômico. Prevê apoio entre todos os envolvidos. O conceito de amor romântico serve para edulcorar essa realidade universal. Em tempos de crise e ditadura, ter alguém para dividir as contas e, eventualmente, fazer um elogio sobre a beleza e a elegância, quem sabe um sexo razoável na sexta-feira, aparece como alternativa viável de sobrevivência. O romantismo nunca deixou de ser pragmático. Porém, retomando Engels, cobra seu preço.

  3. Divã de Maria Luisa

    Parece que a questão é a eterna “da para ser feliz sozinho/a”? Segundo o Tom “é impossivel ser feliz sozinho”. Depende, né, maestro. Enfim, essa frase “conheci uma pessoa” é sempre carregada de expectativa que, quase sempre, vem depois com decepção. De resto quem se transforma totalmente para agradar ao outro acaba enjoando… 

    Poxa, e pensar que Leila Diniz na famosa entrevista ao Pasquim em 69 ja tinha decretado:

    “Você muito bem amar uma pessoa e ir para cama com a outra”. Ou você pode muito bem ir para cama e continuar amiga. 

  4. Recomeçar

    Qualquer comentário que fizesse, acho, repetiria chavões, por isso acredito acrescentar algo sugerindo assistir-se, ‘A Juventude’ de Sorrentino, e se assistido, rever, afinal passaram-se dois anos.

    Diz mais, mesmo aparentemente tendo nada a dizer ao aqui escrito, ao fim, pelo aprofundar do sentimento, que acaba indiretamente dizendo, tocante, sensível e habilmente tecido, bem mais do que diretamente diríamos, pois dá compreensão a vida, onde afloram, morrem, afloram… sentimentos. 

    “Na vida, cedo ou tarde, você perde as coisas que ama”, … e recomeça. 

  5. Você ainda acredita que

    Você ainda acredita que existe comunicação entre pessoas diferentes. 

    Com o tempo, descobrirá que nos comunicamos com nós mesmos através de nossos semelhantes.

    As vezes nem isso conseguimos fazer mais.  

    O bloqueio mental é bem mais severo do que o virtual. 

     

  6. O tema “relações” é tão

    O tema “relações” é tão absurdamente complexo que não vou tentar comentar o texto sob esse prisma.  Aos amigos que lerem o post e os comentários e à autora, que sabiamente apontou as amizades sinceras e profundas como um caminho saudável de existência, indico um livro extraordinário de um dos maiores autores de todos os tempos,  sobre amor, erotismo, enamoramento  e….. amizade!  Seu livro “A Amizade”, aqui lançado pela Editora Rocco, mas só encontrado em sebos, que eu saiba,  é talvez a mais perfeita análise do ser humano e desse sentimento, esse convívio, essa instituição tão presente/ausente em nossas vidas.   Além de dissecar a amizade em si, em algumas páginas,  Alberoni fala da vida de um modo que não se sabe se está sendo um filósofo, um psicólogo, um sociólogo, um poeta….. tamanho o encantamento que provoca.  As duas páginas em que trata da questão da “consciência” como “a glória da vida”, e a metáfora do “primeiro adão” (a possibilidade de sermos os primeiros a pensar sobre algo com originalidade, por exemplo) é de “se ler de joelhos”, como diria o Nassif.

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