6 de junho de 2026

Respirar fundo, por Boaventura de Sousa Santos

A sociedade brasileira e os democratas de todo o mundo solidarizados com ela têm nestes dias uma extrema necessidade de respirar fundo.
FOTO: PABLO PORCIUNCULA/AFP

do Blog da Boitempo

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Respirar fundo

por Boaventura de Sousa Santos

Penso que as sociedades, tanto quanto os indivíduos, necessitam de praticar a respiração profunda para poder prosperar.

Entre as culturas orientais, a prática de respirar fundo é considerada a chave natural de uma vida saudável. As propriedades curativas são imensas: reduz as dores, elimina as toxinas, aumenta o fluxo sanguíneo e melhora a imunidade, baixa a ansiedade e o ritmo cardíaco, reduz as inflamações, aumenta o nível de energia, acalma o sistema nervoso e relaxa o corpo e a mente. Penso que as sociedades, tanto quanto os indivíduos, necessitam de praticar a respiração profunda para poder prosperar. A sociedade brasileira e os democratas de todo o mundo solidarizados com ela têm nestes dias uma extrema necessidade de respirar fundo. Nestes últimos anos foram tantos os agentes tóxicos e tão grande a falta de sangue fresco que a imunidade democrática da sociedade brasileira atingiu os seus níveis mais baixos desde o fim da ditadura militar. Era elevadíssimo o nível de toxicidade fascista, de sangue mal renovado, excessivamente ácido e incapaz de absorver as vitaminas da verdade, da razão e da convivência pacífica. No último mês em particular, a democracia brasileira dormiu mal, atormentada por maus pensamentos, com o sistema linfático afetado e incapaz de drenar os líquidos do bom senso, da confiança, da simpatia. Enfim, esteve à beira de um ataque de nervos tanto mais que os ambulatórios da saúde eleitoral, apesar de presentes e generosos no seu esforço de garantir a sobrevivência da democracia, estavam igualmente sob ataque e quase impossibilitados de respirar. De tudo isto se conclui que o corpo e a alma do Brasil precisam urgentemente de respirar fundo, a precondição para ganhar a energia exigida pelo novo ciclo democrático. Terão condições para respirar fundo pelo tempo necessário para recuperar o ânimo democrático? É difícil prever. Enumero algumas razões tanto para uma possível resposta negativa como para uma resposta positiva.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn

Quanto às primeiras, há que contar com as almofadas de toxicidade do tamanho de nuvens com que os fascistas brasileiros e internacionais vão tentar sufocar a respiração do Brasil democrático. A primeira almofada, a mais densa, é da contestação provável dos resultados eleitorais para disfarçar as imensas fraudes que os serviçais do governo Bolsonaro cometeram (orçamento secreto, compra de votos, supressão de votos, intimidação generalizada) e que, para surpresa deles, não deram os resultados previstos. Nitidamente subestimaram a vontade democrática dos brasileiros e brasileiras. A segunda almofada é a da toxicidade ambiental gerada pelo bolsonarismo secular, empresarial, midiático, religioso, popular. É uma fumaça fascizante, bem à superfície da vida social e relacional, uma mistura de fumaça de mentira e de neblina de ódio e de cegueira industrializada que impede o reconhecimento do outro e neutraliza a inclinação natural da solidariedade, da partilha e da compaixão. A fumaça fascizante concebe a sociedade como um campo de batalha dominado pela lógica binária do amigo/inimigo, a sobrevivência do “nós” assente na eliminação física do “eles”. A primeira almofada asfixia rapidamente, a segunda lentamente.  Há ainda uma terceira almofada tóxica, bastante mais difusa, mas nem por isso menos perigosa. Reside no efeito que a perda de visibilidade criada pelo smog fascizante, pode ter entre os mais afetados pela poluição antidemocrática, as classes populares e as classes médias. A mistura da fumaça e da neblina impedem ver com nitidez a gravidade das ameaças à respiração democrática. Favorecem uma vontade infundada de pensar que tudo voltou à normalidade e que o mais saudável é esquecer os malefícios recentes e acreditar que o ar está puro apenas porque o sol voltou. O outro lado do ódio inextirpável é o amor indiscriminadamente inocentizador. De um lado, o ressentimento, do outro, a falsa consciência, ambos poluindo insidiosamente a respiração democrática.

Também há uma boa razão para pensar que a respiração funda vai ser suficientemente longa e tranquila para desintoxicar a sociedade brasileira e permitir que ela absorva doses fortes de vitaminas democráticas que fortaleçam contra possíveis percalços futuros. A toxina Bolsonaro foi tão sufocante que, pela primeira vez depois do fim da ditadura militar, os democratas brasileiros “viram claramente visto”, como diria Luís de Camões, que a democracia nem é irreversível nem é suficientemente robusta para se defender institucionalmente dos antidemocratas. A democracia só sabe respirar fundo com os pulmões dos democratas mobilizados para a defender ativamente. A democracia só é um dado para quem a quer destruir. Os que a querem defender têm de o fazer como uma conquista sempre em curso. A recordação deste trauma não pode ser normalizada nem muito menos suprimida. Os psicólogos e psiquiatras da alma brasileira só a curarão  incitando-a a ir para as ruas, as praças, os terreiros, as fábricas, as comunidades, as igrejas, as praias dar testemunho de si. As camisetas da cor da esperança e da luta devem ir vestidas por dentro da pele e não por fora. É mais difícil, mas dura mais.

Boaventura de Sousa Santos nasceu em Coimbra, em 1940. É doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale (1973), além de professor catedrático jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e distinguished legal scholar da Universidade de Wisconsin-Madison. Foi também global legal scholar da Universidade de Warwick e professor visitante do Birkbeck College da Universidade de Londres. Pela Boitempo, publicou A cruel pedagogia do vírus (2021)O futuro começa agora: da pandemia à utopia (2021), Esquerdas do mundo, uni-vos! (2018), A difícil democracia: reinventar as esquerdas (2016) e Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social (2007).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados