Ruy Castro e a Semana de Arte Moderna de 1922  no Programa Roda Viva, por Jorge Alberto Benitz

No desenrolar da entrevista percebeu- se que o contendor, Ruy Castro,  estava bem preparado para o embate. Todas as perguntas foram respondidas com classe e conhecimento.

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Ruy Castro e a Semana de Arte Moderna de 1922  no Programa Roda Viva

por Jorge Alberto Benitz

    Sentei no sofá, acompanhado de um balde de pipoca imaginário – detesto pipoca. Ela me faz mal – para assistir o embate, digo debate, sobre a Semana de Arte Moderna no Programa Roda Viva da TV Cultura. No centro, um septuagenário, altura mediana. Ao seu redor uma plêiade de jovens futurosos e belos munidos de tacapes, perguntas capciosas, dardos envenenados. Em jogo, a honra da joia mais bela da tradição cultural paulistana, a Semana da Arte Moderna de 1922 que neste ano comemora 100 anos.

    O homenageado ou alvo das perguntas compareceu virtualmente apenas. Não porque temesse pela sua segurança. Trata- se de medidas protetivas vigentes devido a pandemia. A peleia, digo o debate, parecia desparelho. Iniciou quente. Em tudo diferente daqueles colóquios mornos, com mais afagos do que  perguntas duras, quando comparece um tucano ou assemelhado; embora Ruy Castro apresente plumagens e adereços, antipetismo e antilulismo, que o qualificam como, no mínimo, simpatizante do partido do pássaro de bico comprido. Em sua defesa de jornalista imparcial, isento, ele lembrou que desde 2007 quando começou a escrever na FSP sempre criticou todos os Presidentes no governo. Arrisco a dizer que se ele tivesse começad o a escrever na FSP  no tempo do  governo FHC ou Collor ele não seria tão duro, tão crítico quanto foi com os presidentes petistas. Mas, isso é outra história.

    No desenrolar da entrevista percebeu- se que o contendor, Ruy Castro,  estava bem preparado para o embate. Todas as perguntas foram respondidas com classe e conhecimento. Aliás, no quesito conhecimento do tema, o entrevistado parecia muito mais qualificado que os entrevistadores que apresentavam perguntas que mesmo pretendendo ser duras não cumpriam seu dever de causar danos no, para usar uma expressão gaudéria,  “couro curtido” do entrevistado. Não sei se a munição estava molhada ou era fraca mesmo. Para ser justo, o único que se revelou com mais preparo e conhecimento foi Manuel da Costa Pinto. Em certos momentos, como quando ele lembrou que a discussão estava mal posta porque calcada n o biografismo e sublinhando fortemente as contradições que todo artista tem. Se for assim. Diz Manuel da Costa Pinto, devemos questionar Rousseau que pregava a bondade, o amor natural, e era um péssimo pai, Balzac que  era monarquista; obrigando o Ruy Castro a se refugiar na condição de biógrafo. Até então ele estava na condição de crítico cultural.

    Outra pergunta interessante de Manuel da Costa Pinto foi quando ele criticou o reducionismo de Ruy Castro que afirmou ser a Semana de Arte Moderna um movimento que se pautou por “abolir o soneto e os pronomes. (…) Dizer que eles só visavam mudanças gramaticais e morfológicas é errado”. Em resposta Ruy saiu pela tangente, aproveitando a interferência de Paulo Werneck para falar uma picuinha considerada pelo próprio coisa importante, não respondendo ao Manuel da Costa Pinto, dizendo que valeria a pena publicar textos de Menotti Del Pichia e Graça Aranha para as pessoas de hoje  saberem como eles eram avançados na época.

    Em outro momento, Manoel da Costa Pinto, questionou a abordagem de Ruy sobre as relações do pessoal da Semana com os poderosos e ricos da elite paulistana da época, do fato de serem católicos carolas, quando a questão maior seria analisar a herança estética deles. Mais, comentou que se olharmos sob este prisma acabaríamos tendo que questionar Lima Barreto que era homofóbico e machista.

    Momentos memoráveis foi quando o Paulo Werneck achando que tinha a fórmula perfeita para atingi-lo comparou- o a Tinhorão, grande historiador e crítico da música que se destacou por criticar a bossa nova. Devido a réplica de Ruy ele teve que se retratar e  para se defender recorreu ao episódio quando foi curador da Flip e convidou Tinhorão em respeito à sua obra. Mais para o fim quando questionavam a inconveniência, e até obsessão, de sua crítica da Semana porque já antes já tinham a criticado, como lembrou um dos entrevistadores, inclusive citando a autocrítica do próprio Oswald de Andrade, Ruy replicou que só os próprios integrantes da Semana pareciam ter o direito de autocrítica. Se alguém de fora ousasse critica-los seria enquadrado e comparado ao Tinhorão. Silêncio geral.

    Outro momento que me ocorre, foi quando o jornalista do Estadão tentou rotula-lo de nostálgico porque sua obra era voltada toda para o passado e juntando a pergunta outra inquirindo- o sobre o que achava da cena atual. De pronto, em resposta ele diz que não era nostálgico. Era culto. Para mim, esta resposta era suficiente. No entanto, ele foi além, falando que seu trabalho era buscar no passado autores de qualidade que foram injustamente esquecidos. Quanto ao que pensa sobre os autores de arte, música e literatura de hoje já existe muita gente boa envolvida no trabalho de registro e reflexão sobre suas obras. Ademais, diz que não se sente qualificado para opinar porque não conhece com profundidade o a ssunto.

    Chegou uma hora  quando, provavelmente, a  mediadora do programa percebeu que a coisa estava se constituindo em uma surra monumental, sugeriu passarem para temas atuais, como a polêmica da música “Com Açúcar, Com Afeto” que o Chico Buarque revelou que não desejava mais cantar porque a achava datada. Foi uma formula inteligente de terminar a entrevista, retirando o clima de derrota e criando um tom mais ameno.

Jorge Alberto Benitz é engenheiro e escritor.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

Redação

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