22 de maio de 2026

Sean Penn a caminho do Oscar?, por Francisco Neto Pereira Pinto

Atuação como Coronel Lockjaw em 'Uma Batalha Após a Outra' ilumina as contradições do desejo e a cegueira do poder em cenário de repressão
Divulgação

Sean Penn interpreta o Coronel Lockjaw em “Uma Batalha Após a Outra”, filme distópico dirigido por Paul Thomas Anderson.
A trama mostra o confronto entre Lockjaw e Perfidia, líder revolucionária, em meio a um regime autoritário nos EUA.
Lockjaw integra grupo secreto eugenista, mas mantém desejo e amor por Perfidia, revelando ambivalência trágica e política.

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Desejo, poder e ambivalência em Uma Batalha Após a Outra: Sean Penn a caminho do Oscar?

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por Francisco Neto Pereira Pinto

Um coronel e uma mulher revolucionária

Assisti recentemente a Uma Batalha Após a Outra e fiquei especialmente tocado pela atuação de Sean Penn como o anti-herói Coronel Lockjaw. Penn entrega uma interpretação arrojada do ponto de vista artístico e toca na complexidade existencial e política envolvendo o desejo, o poder e as ambivalências que estruturam as relações entre pessoas, grupos e até mesmo Estados.

Dirigido por Paul Thomas Anderson, com estreia em setembro de 2025, o filme é estrelado por Leonardo DiCaprio, Teyana Taylor e Sean Penn. Ambientado em um cenário distópico de regime autoritário, a trama acompanha um casal que precisa lidar com dilemas familiares e revolucionários enquanto enfrenta a ascensão de forças nacionalistas e opressivas.

Teyana Taylor dá vida a Perfidia, uma mulher negra, militante e líder revolucionária. Já o Coronel Steven Lockjaw, interpretado por Penn, é um militar implacável, responsável por perseguir e neutralizar o grupo 75 Franceses, que atua na fronteira entre EUA e México em defesa de imigrantes. A interação entre os dois personagens, longe de clichês desgastados, revela como desejo e poder se entrelaçam nas relações estruturais da nossa sociedade.

O desejo

Lockjaw, ao mesmo tempo em que persegue Perfidia, consagra a ela um intenso desejo sexual, que faz questão de explicitar. Quando a captura sob acusação de assassinato, ele articula uma manobra política para transformá-la em testemunha protegida, garantindo a manutenção do contato por meio de visitas em sua nova residência. Quando ela foge, o coronel não despende esforços para recapturá-la. Por fim, ao descobrir que é pai da filha dela, confessa não apenas o desejo, mas a admiração e o amor que nutre por Perfidia.

O poder

No início da narrativa, Lockjaw já ostenta a alta patente de coronel. Seu poderio eleva-se ainda mais ao ser convidado para integrar uma sociedade secreta: o Clube dos Aventureiros Natalinos. O grupo posiciona-se acima de qualquer lei ou burocracia, sujeitando-se apenas às próprias regras. Trata-se de um núcleo restrito de homens brancos, políticos e militares, cuja regra de admissão exige a ausência de histórico de relacionamentos inter-raciais.

Lockjaw, como os demais membros, cultiva o orgulho de pertencer a esse grupo dos melhores. Nesse sentido, cabe relembrar a lição do sociólogo polonês Zygmunt Bauman em Modernidade e Holocausto: na base do extermínio nazista residia um projeto de purificação. Os nazistas eram movidos pelo projeto de eliminar toda impureza — de raça, condição física, nacionalidade etc — para que a suposta raça pura, que era a ariana e alemã, habitasse o espaço vital. É uma face da modernidade que, para muitos, ainda é difícil de aceitar.

Tragicidade e ambivalência

A interação de Lockjaw com Perfidia é marcada por uma ambivalência que, como mostra a Psicanálise, é constitutiva de todo desejo. A diferença, no caso dele, é que o personagem não ignora seu desejo, tampouco sua contradição; sua cegueira reside no destino, em seu desfecho trágico. Ao mesmo tempo em que integra um grupo eugenista, Lockjaw deseja, admira e ama uma mulher negra, autônoma e que participa da liderança do grupo que ele mesmo tem o dever oficial de exterminar.

Essa relação de desejo, poder e ambivalência no contexto inter-racial tem sido amplamente discutida nos estudos pós-coloniais. Análises como as de Robert J. C. Young, em Desejo Colonial: Hibridismo em teoria, cultura e raça, e de Homi Bhabha, em O Local da Cultura, demonstram como a relação do colonizador branco era marcada pela ambivalência em relação ao corpo negro colonizado. Simultaneamente à dominação, havia o desejo; e, ao interferirem nos destinos dos colonizados, os colonizadores tinham seus próprios destinos irremediavelmente afetados.

Lockjaw incorpora magistralmente essa complexidade. Ele mostra como a ambivalência do desejo, em sua fricção com as forças de poder, estrutura desde o microcosmo das relações íntimas até o macroespaço das interações entre Estado e cidadão. Nunca é um caminho de mão única, muito embora a maioria de nós gostaria que fosse.

O trágico de Lockjaw — traço humano, demasiado humano — foi não perceber que, como diria o psicanalista Jacques Lacan, há momentos em que se deve optar entre a bolsa ou a vida. Ele quis manter tudo e, em uma aposta alta demais, acabou pagando com a própria vida. Com uma atuação madura e de altíssima qualidade artística, Sean Penn talvez esteja, mais uma vez, a caminho do Oscar. Vamos ver?

Francisco Neto Pereira Pinto é esposo da Ana Paula e pai do Théo e do Ravi. Doutor em Letras, é psicanalista, escritor e professor permanente no Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura – Mestrado e Doutorado, da Universidade Federal do Norte do Tocantins. É autor de vários livros, dentre eles À beira do Araguaia.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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