Sem saúde não haverá Brasil, por Aracy Balbani

A dependência química e outros transtornos mentais, que já eram muito comuns em todas as classes sociais antes da pandemia de COVID-19, agravaram-se.

Sem saúde não haverá Brasil

por Aracy Balbani

Há muitos brasileiros sensatos que não podemos deixar de ler ou ouvir. Aldo Fornazieri e César Calejon são dois deles. Concordo com o primeiro quando ele diz que o Brasil é um fracasso retumbante como nação; com o segundo pela análise recente de que o país caminha para consolidar uma teocracia fundamentalista miliciana.

Pois essa pátria pária vive um adoecimento profundo e generalizado. De pedalada em pedalada – fiscal, orçamentária, política, jurídico-midiática lavajatista –, o Brasil naufragou na fome e na violência descontrolada. A dependência química e outros transtornos mentais, que já eram muito comuns em todas as classes sociais antes da pandemia de COVID-19, agravaram-se. Há quem, muito lúcido, procure ajuda médica afirmando sofrer “com uma dor na alma”. Sem saúde não haverá Brasil.

O quebra-cabeça nacional na saúde é o seguinte:

Apesar do orçamento secreto federal e do oba-oba das emendas parlamentares para as bases eleitorais, inúmeras administrações públicas estão com orçamento minguado. Não têm dinheiro nem para abastecer com combustível toda a sua frota de ambulâncias e demais veículos de transporte de pacientes.

Não mais foram divulgados com destaque na imprensa comercial fatos e dados sobre a fiscalização da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para ressarcimento, ao SUS, dos gastos por serviços prestados os usuários de planos e seguros de saúde.

Murcharam as grandes políticas públicas nacionais para educação da população, diagnóstico e tratamento de: infecções sexualmente transmissíveis (HIV, sífilis, hepatites virais, etc.), gravidez precoce, e dependência do álcool e outras drogas. No cotidiano, conta-se com o altruísmo de gestores estaduais, regionais ou municipais, voluntários e ONGs que acreditam na Constituição Federal, na ciência, na ética e no profissionalismo.

A adesão da população à vacinação de modo geral – contra tétano, hepatite B e outras infecções – despencou.

Campanhas de vacinação antirrábica de animais domésticos foram prejudicadas pela escassez de imunizantes para importação. Nem grandes serviços veterinários privados tinham vacinas suficientes no primeiro ano da pandemia de COVID-19. Abriu-se brecha para descontrole das zoonoses. O abandono e os maus-tratos a animais cresceram exponencialmente.

Dengue, zika, Chikungunya, malária, esquistossomose, febre amarela e outras endemias sumiram do noticiário. Mas continuam na natureza, afligem muitos brasileiros e não podem ser negligenciadas.

Rodízio do abastecimento de água potável realmente insípida, incolor e inodora em plena pandemia é uma realidade em muitas cidades. Água potável está cara e escassa em muitas localidades. Isso empurra parte da população para o consumo da água de fontes e bicas clandestinas, com as possíveis consequências à saúde humana (diarreia, parasitose intestinal, contaminação por resíduos químicos).

O desmonte do Programa Farmácia Popular e o aumento de preços dos medicamentos inviabilizaram o tratamento de muitas doenças para grande parte da população. Retrocedemos à era de percorrer diversas farmácias para fazer orçamentos de receitas médicas, e da compra de remédios parcelada no cartão de crédito.

Grande parte da classe média que desdenhava do SUS perdeu o emprego e, na sequência, o plano de saúde empresarial. Empobreceu e não pode mais remediar a falta do plano pagando consultas médicas e odontológicas particulares.

Para manter um padrão sanitário impecável, há uns oito anos já se pagava para trabalhar na saúde privada. Com a pandemia, a inflação dos preços de insumos importados tornou o custo operacional de consultórios e clínicas proibitivo. Muitos estabelecimentos fecharam. Inúmeros prestadores de serviços que ainda funcionam rescindiram contrato com operadoras de planos. Só atendem consultas particulares.

Entre o oito e o 80, não mais existem 72 possibilidades de honorários particulares no setor de saúde. Ou o cidadão recorre a uma clínica popular, ou faz uma vaquinha familiar para pagar, pelo menos, meio salário mínimo a um médico ou cirurgião dentista. Quem quer pagar uma consulta não tem dinheiro; quem tem dinheiro não quer enfiar a mão no bolso. Simples assim.

Serviços de estética, em linhas gerais, não sofreram grande impacto econômico. Há fila de espera na agenda de muitas clínicas voltadas a emagrecimento, cirurgias plásticas e embelezamento da pele e dos cabelos.

Sobreviventes da COVID-19 que ficaram com sequelas, sobretudo as respiratórias, neurológicas e cardiovasculares, nem sempre conseguem vaga de atendimento no SUS e planos de saúde privados. Via de regra, a demanda é muito maior do que a oferta de atendimento.

Grande parte dos serviços públicos e privados de saúde não investiu em capacitação permanente dos seus profissionais para atender os sequelados da COVID-19. Cada um por si e salve-se quem puder.

Recém-formados nas faculdades de Medicina que tiveram colação de grau antecipada e foram recrutados para atender na linha de frente da pandemia não conseguiram realizar ou concluir os estudos de residência médica. Abriram pessoa jurídica e passaram a ser contratados para plantões em hospitais. Quem se responsabiliza pela qualidade da formação desses profissionais?

A corrupção, os conflitos de interesses e a prestação de serviços de má qualidade pela terceirização da saúde através de organizações sociais de saúde (OSSs), que já eram objetos de investigações do Ministério Público em vários Estados, continuaram muito problemáticas durante a pandemia. Sem saúde não haverá Brasil.

Fatos: mais de 610 mil mortos pela COVID-19 no Brasil. Milhares de órfãos. Outros milhares de pessoas com sequelas físicas ou psicológicas da doença e de suas complicações. Muitos incapacitados permanentemente para o trabalho em razão disso.

Contudo, são imprevisíveis os efeitos práticos da CPI da Pandemia para a saúde pública e privada no Brasil. A CPI acabará em pizza?

A probabilidade de serem eleitos muitos profissionais de saúde para comporem uma “bancada da cloroquina” em 2022 é real.

***

            Não cabe discutir um nome único para articular solução que encaixe todas essas peças e nos devolva uma vida digna e saudável. Acredito que a tarefa seja coletiva.

Nunca a ciência, a ética e o humanismo estiveram tão desprestigiados no nosso país. Aos que sentem cansaço e tristeza por isso, mas não desistem jamais de agir para reverter essa tragédia, fica um convite franco, honesto e corajoso: a esperança. À luta!

Aracy P. S. Balbani é médica.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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