Sobre Glenn Greenwald, Miriam Leitão, Sérgio Abranches: ruptura institucional e intolerância, por Rogério Marques

Somente a participação maciça do povo pela restauração da democracia que nos está sendo roubada pode salvar o Brasil. A saída está na política que as forças do atraso tanto demonizaram.

Sobre Glenn Greenwald, Miriam Leitão, Sérgio Abranches: ruptura institucional e intolerância

por Rogério Marques

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O Brasil entrou, desde outubro de 2014, em uma perigosa rota de intolerância, ódio, boçalidade, retrocesso social e democrático na qual se aprofunda a cada dia.

Naquele mês, a quarta eleição presidencial seguida de um governo do PT não foi aceita por boa parte da classe dominante, incluídos aí os caciques do PSDB, os empresários da mídia e aqueles reunidos na Fiesp. No fundo, são forças que se misturam e se situam no mesmo campo de interesses.

A eleição de Dilma Rousseff, anunciada com cara de luto por apresentadores e comentaristas que já tinham como certa a vitória do “probo” Aécio Neves marcou o início de uma cruzada de intolerância poucas vezes vista no Brasil.

O combate à corrupção foi usado como aríete para a derrubada de um governo constitucional. Não faltaram, mais tarde, pitadas de um anticomunismo anacrônico que transformou setores da classe média em patriotas ardorosos que esconjuravam o marxismo em marchas igualmente anacrônicas.

Com o desgaste dos golpes tradicionais com tanques nas ruas e fechamento do Congresso, partiu-se para o golpe institucional que presenciamos em 2016 e que nos levou ao governo de extrema-direita e extrema-boçalidade que vivemos hoje.

Na América Latina, países como o Paraguai, com o presidente Fernando Lugo, e Honduras, com o presidente Manuel Zelaya, já tinham passado pelo processo dos golpes institucionais.

Presenciei, em redações, cenas tristes de colegas aderindo ao processo golpista que agora começa começa a devorar aqueles que o cevaram, o que está longe de ser novidade ao longo da história.

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Depois do assassinato da vereadora do Psol Marielle Franco, do exílio do deputado Jean Wyllys, da tentativa de calar o jornalista Glenn Greenwald na Feira Literária de Paraty, temos agora o cancelamento da participação da jornalista Miriam Leitão e do sociólogo Sérgio Abranches da Feira do Livro de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina.

O cancelamento foi comunicado pelos organizadores da Feira, que reconheceram não ter como garantir integridade física de Miriam e Sérgio, diante de um abaixo-assinado virtual e ameaças de grupos de direita.

Algo bem parecido com o que aconteceu há poucos dias em Paraty com o jornalista Glenn Greenwald, que vem sofrendo ameaças por divulgar no site The Intercept Brasil diálogos envolvendo a tabelinha criminosa entre o juiz Sérgio Moro e o procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol.

O que mostra de maneira ainda mais contundente a gravidade do processo de intolerância e ódio que não cessa é que Miriam Leitão esteve entre os jornalistas que mais apoiaram o golpe parlamentar-jurídico-midiático contra a presidente Dilma Rousseff. Uma presidente que não cometeu crimes e que foi linchada pela mídia, da mesma forma que o ex-presidente Lula, atualmente um preso político, vítima de um processo criminoso, embasado em um dos maiores escândalos jurídicos da história do Brasil, talvez o maior.

Por mais que se discorde das posições de Miriam Leitão e de outros jornalistas, juristas, advogados, intelectuais que ajudaram a construir esse roteiro triste que o país está vivendo, a intolerância contra quem quer que seja merece o mais veemente repúdio de todos.

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Ao contrário, somente a participação maciça do povo pela restauração da democracia que nos está sendo roubada pode salvar o Brasil. A saída está na política que as forças do atraso tanto demonizaram.

O veneno do ódio, da mentira plantado nos últimos anos está destruindo o país de todas formas. É lamentável que as aquelas forças que fizeram uma autocrítica tardia pelo apoio ao golpe de 64 tenham incorrido no mesmo erro 50 anos depois, o que escancara uma autocrítica de ocasião.

(Rogério Marques)

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4 comentários

  1. Embora tenhamos que respeitar a liberdade de impressa, porém, não ha como deixar de entender que a jornalista Miriam Leitão através da rede globo, não defendeu ideias plenamente justificáveis ela defendeu seu emprego ao colaborar com o golpe de 2016, que levou e vai levar este pais a ruína em termos de inclusão social.
    Agora o mais interessante é que descobrimos que Miriam Leitão, quando estudante, defendeu a justiça social contra o regime militar de 1964.

  2. O fato de Miriam Leitão passar a constar como inimiga dos nossos inimigos não a eleva a condição de nossa aliada ou que mereça nossa atenção.

    Sim, há valores a serem defendidos por todos (de bom senso), incluindo aí a tolerância (óbvia) com quem não comunga opiniões conosco (claro, não precisamos tolerar quem já concorda conosco).
    Mas há uma diferença política enorme entre não comemorar a intolerância com Miriam, e escrever ou militar causas em seu desagravo.

    Em resumo: ela que vá procurar entre os seus (os lacaios da direita) aquele que reivindiquem normas civilizatórias de convívio.
    Espere ela pelo editorial lido pelo canalha do bonner.

    Já chega!!!!
    Eu penso, chega de sofrermos todos pela canalhice desse pessoal, e quando o caldo entorna, recai sobre nossos ombros a responsabilidade de reconstrução dos ambientes de civilidade.
    Ficam (eles) flertando e alimentando monstros, e depois quando os bichos passam a comer todos indistintamente, correm pedindo nossa ajuda.

    Chega!!!

    Nunca é demais lembrar que o holocausto judeu começou com a cumplicidade de elite judia alemã, que imaginou que o dinheiro compraria o direito de ignorar o destino dos mais pobres.

    A democracia é um valor a ser perseguido por todos, mas essa luta não pode esconder que dentre todos que lutam por “democracia” há vários interesses.
    Democracia não é um valor absoluto em si, desprovido da historicidade da luta por ela, e pela hierarquia das classes envolvidas e os diferentes níveis de aproveitamento de seus benefícios.

    Ou em outras palavras mais rudes:

    Dane-se a Miriam Leitão.

    Ela nunca pode ocupar o mesmo panteão de preocupações que concerne a outros jornalistas que ousaram desafiar e enfrentar essa era de arbítrio, como um Janio de Freitas.

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  3. Ler uma opinião é identificar a forma de pensamento do jornalista e a liberdade de imprensa de um meio de comunicação. De fato, muito dificilmente numa leitura você será capaz de concordar com tudo. No caso desta opinião, ou melhor deste texto, fica claro que a intolerância hoje no Brasil não possui bandeira ideológica. Ela está por todos os lados!
    Achar que apenas os governos de esquerda são os que realmente representam o povo e a democracia é tão intolerante quanto dizer que o atual governo prega o ódio e a boçalidade.
    Enquanto o pensamento do eleitorado for “votar no menos pior” a mediocridade vai se perpertuando na máquina política brasileira.

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  4. O artigo do jornalista Rogério Marques é bastante objetivo, indo direto ao ponto, ao nos mostrar que aqueles da imprensa que ajudaram, de alguma forma, a criar o monstro, estão sendo agora devorados por ele. Em particular, Miriam Leitão e o Marco Antônio Villa sentiram o que é ser alvo de ataque das hordas fascistas. Não há qualquer intolerância no texto de Rogério Marques contra a jornalista Miriam Leitão, mas apenas o reconhecimento de que ela colheu o que plantou.
    Diferentemente do jornalista do O Globo, Merval Pereira, Miriam parece ocasionalmente tentar encontrar brechas nas amarras que a emissora impõe a seus jornalistas de se expressarem, para, aqui e ali, emitir algumas opiniões progressistas, seja em política ou meio ambiente. Meu conselho a ela é que chute o pau da barraca e se liberte das amarras, fazendo um jornalismo do qual possa se orgulhar. Se, para isto precisar sair da Globo, sua reconhecida capacidade jornalística será acolhida em outro veículo. Ou então, espere pela aposentadoria (que vai ficar cada vez mais distante) para se libertar.
    Dentro da direita, temos brilhantes jornalistas, como é o caso de Reinaldo Azevedo, a quem aprendi a respeitar, ao assistir a seus vídeos no Youtube.
    Posso discordar, e discordo efetivamente de alguns de seus posicionamentos, como em relação a reforma da previdência. Mas ele demonstra integridade e honestidade intelectual, ao defender a inexistência de provas contra Lula, e exatamente por isto, também passou a ser alvo dos bolsominions. Sua defesa da incondicional da Constituição cobre de vergonha a alguns ministros do STF.

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