13 de junho de 2026

Sobre ratos e homens, por Izaías Almada

Ao adiar o julgamento da suspeição e imparcialidade de Sérgio Moro, após negar um habeas corpus ao ex-presidente Lula, o STF deu mais um tiro no pé.

Sobre ratos e homens

por Izaías Almada

Não, caro leitor, nada a ver com John Steinbeck e o ratinho que um de seus personagens carregava enquanto procurava trabalho em uma fazenda da Califórnia nos duros anos da crise econômica de 1929. Melhor seria dizer aqui sobre ratos ou homens.

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Pois chega a dar engulhos constatar que no décimo nono ano do século XXI um país como o Brasil, de vasto e rico território e mais de 220 milhões de habitantes, tenha a sua mais alta corte composta por figuras tão sinistras e medíocres como o são a maioria dos juízes que a compõem.

Os filmes de terror feitos em Hollywood não fariam melhor. Com aquele juridiquês para se apresentarem cultos aos olhos de um país de semianalfabetos políticos, saem dos camarins do STF com suas túnicas fúnebres e tomam assento no palco para darem um espetáculo de muita e falsa pompa, demonstrado em seus papéis mal decorados, o quanto somos uma nação de caipiras aculturados.

Ao adiar o julgamento da suspeição e imparcialidade do agente da CIA Sérgio Moro, após negar um habeas corpus ao ex-presidente Lula, o STF deu mais um tiro no pé.

Mostrou, na maioria dos seus componentes, para o que realmente serve dentro do país no atual jogo da geopolítica internacional, ou seja, deixar o Brasil de mãos amarradas e sequestrado, sem voz ativa na guerra que se trava entre os três gigantes da economia mundial: Rússia, China e Estados Unidos.

Justiça? Ora, quem está preocupado com a justiça? O ex-presidente Lula que se dane, ele e os milhões que o seu governo tirou da pobreza. O resto é silencio, ou melhor, covardia.

O terrível nessa história é que nós, cidadãos brasileiros condenados agora a vivermos cercados dentro de oito milhões e meio de quilômetros quadrados, ainda procuremos forças para criticar pessoas e instituições que não valem a “ponta de um corno”, como diriam nossos irmãos portugueses.

A crítica só tem seu valor quando cai em terreno fértil e não em terra arrasada por pesticidas morais ou em mentes embriagadas pela vaidade e pelo temor de perderem as benesses que autoacumulam com o passar do tempo.

Uma fotografia em preto e branco do atual STF me faz lembrar os filmes do ator Bela Lugosi, em particular – é claro – o seu (sem trocadilhos) imortal Drácula.

Adiar por mais dois meses, pelo menos, a já provada injusta prisão do ex-presidente, é um ato de poder exacerbado ou, como poderão indicar alguns dos fatos políticos do momento, um ato de covardia. A mesma covardia que juristas e testemunhas, debaixo de ameaças, levaram à cadeira elétrica os operários italianos Sacco e Vanzetti em 23 de agosto de 1927 nos Estados Unidos.

Quando nos olhamos no espelho, todas as manhãs, deveremos sempre nos perguntar, ao contrário dessa gente “bem posta na vida”: afinal eu sou um rato ou um homem?

O grande jornalista norte americano H.L.Mencken da primeira metade do século XX afirma na sua obra “O Livro dos Insultos” (*): “A democracia é como qualquer outra forma de governo: todas são inimigas dos homens decentes”.

________________________

(*) Ed. Companhia das Letras.

Izaias Almada

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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3 Comentários
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  1. Cristóvão Orlândi

    28 de junho de 2019 8:31 am

    Com todos os episódios de falta de ética na “lava-jato” ou melhor “leva-jeito” e o absurdo acobertamento da justiça brasileira, só nos resta dizer novamente: Podem rasgar a Bíblia e a Constituição, porque, o mau venceu.

  2. Rui Ribeiro

    28 de junho de 2019 8:35 am

    De quem é a porra desse baseado?

    Para o General Heleno, o problema não é o flagrante, é a reunião do G20. Se não fosse essa reunião, o flagrante não seria falta de sorte.

    Bagulho no Bumba
    (Virgulóides)

    Nessa bumba eu não ando mais, acharam um bagulho no banco de trás
    Nessa bumba eu não ando mais, acharam um bagulho no banco de trás
    O motorista se levantou, falou que o bagulho era do cobrador
    E o cobrador, muito invocado, falou que o bagulho é de quem tá sentado
    É, é, é, eu acho que o bagulho é de quem tá de pé
    É, é, é, eu acho que o bagulho é de quem tá de pé

    Nessa bumba eu não ando mais, acharam um bagulho no banco de trás
    Nessa bumba eu não ando mais, acharam um bagulho no banco de trás
    Todo mundo foi revistado, polícia não achou nenhum culpado
    Olharam em bolsa e sapato, neguinho ficou até pelado (e gritou…)
    – De quem que é esse bagulho, rapaziada?
    – Num sei de nada…
    – Aí, Motora! Toca pra delegacia, que ‘cês vão entrar numa fria.
    O pessoal ficou revoltado em dar satisfação ao delegado
    E o delegado só perguntava “quem que é o dono desse baseado?”

  3. Rui Ribeiro

    28 de junho de 2019 8:46 am

    Razões por que o Lula não devia estar provisoriamente preso em razão de sentença penal condenatória não transitada em julgado:

    A CF garante que ninguém será levado à prisão ou nela mantido quando a lei admitir a liberdade provisória. Ora, a lei admite a liberdade provisória do Lula, se não admitisse, não haveria possibilidade jurídica do pedido e a ação em que Lula pleiteia o seu corpo careceria de uma das suas condições. Se engana quem diz que isso é matéria de mérito. Se assim fosse, eu iria entrar com uma ação civil contra o vapor que pegou a grana prá fazer a ponte aérea e me deixou a ver navios… Juiz iria citar o sujeito e decidir, no mérito, que esse pedido é juridicamente impossível?

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