Torcer ou não torcer, eis a questão, por Gustavo Conde

Torcer ou não torcer, eis a questão

Por Gustavo Conde

Torcer contra o Brasil tem deixado algumas pessoas confusas. Eu vou tentar ‘desenhar’ aqui, com toda a humildade que me cabe ou caberia, antecipando um parecer oriundo das profundezas do meu intestino: respeito quem torce ‘pelo’ Brasil.

Isso posto, digo e afirmo: torcer para o Brasil perder não é ressentimento. Não é esperar que isso traga a democracia de volta, que o petróleo volte a ser nosso, que as pessoas se irmanem e cantem Lula Livre.

Torcer contra o Brasil é uma das sensações mais intensas de liberdade espiritual, moral e intelectual que um brasileiro pode sonhar querer ter. É uma sensação indescritível, doce, densa, avant-garde, desmistificadora, política, existencial, visceral.

A análise do discurso (a linguística) chama isso de “acontecimento discursivo”. É um momento em que as condições para uma “mudança brusca” de compreensão da realidade se dá e um mundo novo se abre.

O momento, obviamente, foi o que o golpe proporcionou. O golpe soltou as amarras daquilo que jazia na dormência profunda do sujeito brasileiro, balbuciante ser inclinado nas grades metafóricas do berço esplêndido.

O golpe permitiu ver a pusilanimidade de certos atores políticos, de certas instituições e de certos enunciados. Ele abriu a Caixa de Pandora dos nossos traumas mais profundos e atávicos, dos mitos, dos clichês, dos lugares-comuns, do mesmo em cima do mesmo ad infinitum, a grande e dócil população brasileira que aceita cumprir o seu papel de patriota de conveniência, esparramada na mais cínica tutela intelectual.

O golpe é uma desgraça, uma ferida, uma chaga, mas ele tem esse corolário: ele põe em movimento as convicções e as sensações, porque ele rompe com a realidade macro vigente que, ainda que soberana e legítima, tinha contas a acertar com a história e com as violências do passado.

A história tem sua coerência interna. Ela não pode ser domesticada, assim como o sujeito (quem é domesticado é o ‘eu’; o inconsciente continua lá).

De sorte que a história fez uma curva e o resultado disso, além da devastação subjetiva e institucional, é o espasmo violento nas práticas discursivas, nas tradições e nos regimes de intepretação disponíveis na praça.

Traduzindo: o golpe não está a serviço de um segmento, apenas e tão somente. O golpe é um ruptura histórica que reorganiza os sentidos e te dá um novo leque de opções existenciais e políticas. Não torcer para a seleção é uma delas.

Senão, pensem: vocês se veem torcendo pela seleção até morrer? Essa é a maravilha da vida? De uma existência inteira?

Sempre torcendo do mesmo jeito? Cantando os mesmos cânticos? Reclamando do juiz (que é sempre o ‘mesmo’)? Sofrendo com os eternos pernas-de-pau da zaga? Com os comentários dos ‘gênios’ do jornalismo esportivo? Com o churrasquinho de picanha regado a testosterona? Com a Globo soberana na sala da sua casa?

Tudo bem que seria só de quatro em quatro anos, mas, depois de 30 anos fazendo isso não te dá uma canseira? Confesse.

Respeito quem se submete a isso, mas, desculpe: eu quero mais. A vida merece mais do que essa passividade diante de uma tela e de um jogo que também pode ser bastante chatinho.

Libertar-se desse cabresto infame, infantilizante e broxante (com toda a testosterona envolvida [subglossário: a testosterona É broxante]) é uma sensação de profunda conexão com a própria existência outrora ignorada. Posso garantir a todos que superar essa página enroscada de ‘torcedor’ possibilita uma estranha sensação de soberania do espírito. 

A vida não é um manual de instruções para a gente seguir até morrer. Existe o livre-arbítrio, por mais incrível que pareça. Estar atento aos movimentos de sentido pode ser muito mais emocionante que ver o Neymar simular sua ‘dor imaginária’ de maneira sub teatral e grotesca.

Pensem nisso quando forem torcer contra a Bélgica.

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12 Comentários

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José Almeida de Souza Jr.

- 2018-07-03 18:15:29

Abílio Diniz não é o dono do Carrefour, mas do Pau de Açúcar.

Pau de açúcar, camarada. Não carrefour.

Whatever

- 2018-07-03 17:10:40

Texto fraquíssimo

A copa acontecer de quatro em quatro anos faz a gente esquecer algumas coisas. Uma delas é que o povo brasileiro adora a copa do mundo e ama sua seleção.

Toda essa conversa de torcer contra a seleção é masturbação sociológica de classe média que não sabe porra nenhuma da vida brasileira.

Foi por isso que o golpe foi bem-sucedido: não há mais qualquer conexão entre uma certa elite pensante brasileira e o povo do Brasil. Os partidos políticos são exemplos escarrados disso: nenhum dos partidos ditos de esquerda do país tem qualquer capacidade de mobilização popular. Chamar o acampamento em Curitiba de mobilização popular é brincadeira de mau gosto.

Sair algumas horas antes do jogo começar do trabalho porque a empresa liberou os funcionários e no caminho de casa cruzar as pessoas com suas camisas e adereços da seleção, indo se concentrar em algum lugar com desconhecidos ao lado, para torcer pela seleção me serviu de lição muito mais eloquente e proveitosa do que as centenas de textões indignados de blogs sujos que eu li desde o golpeachment.

O povo, povo mesmo, não está nem aí pra essa discussão estéril de se se deve torcer ou não pelo Brasil. Ironia das ironias, são muito mais brasileiros do que aqueles que dizem defendê-los.

MarFig

- 2018-07-03 17:07:31

Todos os dias eu torço para o

Todos os dias eu torço para o Brasil tirar o seu destino das mãos da rede globo. Não será a derrota desses mercenários de amarelo que fará isso mas qualquer coisa que faça com que os 3 metralhas tenham algum prejuízo e que tire os manifestoches da frente da tv, nem que seja por alguns minutos, já é um alento. Mas torcer contra é perda de tempo, já que esses torneios de futebol são controlados por máfias e os resultados são de cartas marcadas.

Lucas Migotto

- 2018-07-03 16:46:52

Desculpe-me, mas torcerei contra a Seleção

Se o Brasil (digo, Seleção da Globo/CBF) perder, ajuda a Globo a ganhar menos dinheiro. Ajuda o povo a acordar do transe em que a mídia o colocou depois do desmantelamento da greve dos Caminhoneiros. Ajuda a pensar nas eleições e na situação em que o Brasil (aí sim, o país) está: com o candidato com as maiores intenções de voto, preso.

Os coxinhas, na verdade, foram INTIMADOS pelo MBL, principalmente Kim Kataguiri, a vestir a amarelinha e a torcer pela Seleção, basta ver o canal deles no YouTube. Inclusive chamam de "malas" aqueles que torcem contra. 

Portanto, posso sim assistir algum jogo da Copa (na Internet ou no Fox Sports), mas torcerei contra a Seleção da CBF. 

Nabucodonosor

- 2018-07-03 16:26:22

Que texto bocó. O cara que se

Que texto bocó. O cara que se 'liberta' da Copa e da telinha não torce contra o Brasil. Simplesmente não torce.

E, bem, se for assim, vamos suspender toda a alegria enquanto a tristeza não for erradicada.

Antonio Carlos Silva - Brasil

- 2018-07-03 16:24:24

A questão é econômica...

Continuarei torcendo para que a seleção da globosta perca para dar um pouco de prejuízo para os golpistas Setúbal (Itaú), Lehman (Ambev), família globosta (todos, até comentaristas tipo Gavião Bueno) Abílio Diniz (Carrefour) etc... .

Rui Ribeiro

- 2018-07-03 16:01:25

Prazeres Passivos

Em Elogio ao Ócio, Bertrand Russel escreveu:

"Quando sugiro a redução da jornada de trabalho para quatro horas, não quero com isto dizer que o tempo remanescente deveria necessariamente ser gasto em frivolidades. Quero dizer que quatro horas diárias de trabalho deveriam ser suficientes para dar às pessoas o direito de satisfazer as necessidades básicas e os confortos elementares da vida, e que o resto de seu tempo deveria ser usado da maneira que lhes parecesse mais adequada. Uma condição fundamental de um tal sistema social é que a educação ultrapasse as suas atuais fronteiras e adote como parte de seus objetivos o cultivo de aptidões que capacitem as pessoas a usar seu lazer de maneira inteligente. E não estou aqui pensando apenas em atividades supostamente "intelectualizadas". As danças camponesas desapareceram, salvo nas áreas rurais mais remotas, mas ainda devem existir na natureza humana os impulsos que as fizeram florescer. OOS PRAZERES DAS POPULAÇÕES URBANAS SE TORNARAM FUNDAMENTALMENTE PASSIVOS: ver filmes, ASSISTIR A PARTIDAS DE FUTEBOL, ouvir rádio e assim por diante. Isto ocorre porque as energias ativas da população estão totalmente absorvidas pelo trabalho. Se as pessoas tivessem mais lazer, voltariam a desfrutar prazeres em que participassem ativamente".

 

Skate or Die!

Alan Souza

- 2018-07-03 14:41:30

O Brasil perder não ajuda nada de nada

Temer não vai aumentar sua impopularidade se o Brasil perder. Sergio Moro não vai se tornar um juiz cumpridor da lei se o Brasil perder. O golpe não se desfará e Lula não sairá da cadeia se o Brasil perder.

Essa de torcer contra o Brasil tem sido a tônica dos coxinhas odiadores. Aqueles que torceram contra o país em 2014 porque "a Dilma tinha comprado a Copa". Aqueles que xingaram a Dilma na Copa. Aqueles que compraram miniatura do Pixuleco. O pessoal que exalta orgasticamente o 7x1 até hoje. Esses é que tem destilado ódio e bile contra o Brasil, torcendo sofregamente contra a seleção a cada jogo.

Quem não sabe separar o futebol e a seleção dos autores do golpe e da Lava-Jato está no mesmo barco daqueles que bateram bumbo na praça pedindo o impeachment e a prisão do Lula.

Afonso Arinos

- 2018-07-03 14:39:12

Não é torcer contra o Brasil

Não torcemos contra o Brasil. Alguns torcem contra a seleção brasileira de futebol masulino. Há uma grande diferença. Eu, em particular, decidi não assistir jogos de futebol. Já havia passado com a F1. Num belo domingo, olhando pela janela enquanto passava na TV uma corrida, percebi que o esporte havia se tornado o antiesporte. O esporte na TV te induz a ficar parado, sem ação, engolindo propaganda e publicidade. Esporte é movimento. Decidi sair e aproveitar minhas belas manhãs de domingo. O resto foi consequência: não tenho mais paciência para ver partida de futebol pela TV. Com o golpe, daí que reforcei minha opinião de não dar atenção a TV que quer me prejudicar, evitando aquisição de produtos de patrocinadores que dão dinheiro para TV me manter inerte. Até mais nunca para eles.

Rui Ribeiro

- 2018-07-03 14:25:36

Miguel Layún e Neymar entre tapas e beijos

Leitura labial do Neymar teria flagrado ele cantando o seguinte trecho da música "Pisa Devgar", do Chico Rey e Paraná:

"Pisa de mansinho, pisa devagar
Bem devagarinho pra não machucar
Esse coração que ainda é seu
Meu coração não quer ninguém no seu lugar".

Posteriormente, quando o camisa 7 do México ajudou Quedôncio a se levantar, nova leitura labial revelou o Neymar cantando:

"Minha vida se modificou
Do que eu era nada mais eu sou
Eu me perdi.

E no submundo onde estou
Sobrevivo sem saber se vou
Ainda crer no amor mesmo sem ter você.

Mas se um dia, se um dia você voltar
Então eu vou ter chance de me levantar
Pois só você me pode estender a mão
Mas se não for por amor
Me deixe aqui no chão"

Não é o Umberto Eco

- 2018-07-03 14:17:54

Como é que é?

Torcer contra o Brasil?

Ou torcer contra a seleção da CBF?

A Copa do Mundo é um evento privado, antes de tudo. Envolve publicidade, grana - muita grana.

Precisamos voltar ao elementar, pra saber do que estamos realmente falando.

alexis

- 2018-07-03 14:12:15

Lembro de 2002

Ao ver o nome dos jogadores da Suécia ou da Noruega, lembro dos nomes dos jogadores do Brasil 2002: Anderson, Edmilson, Emerson, Kleberson, Denilson, Edilson. 

Na época fiz um clipe musical (o Mambo da Seleção) e a rede globo editou na tardinha antes da final contra Alemanha

[video:https://www.youtube.com/watch?v=1cFDddCGzKM]

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