Trump Always Chickens Out… ou Pato Donald manco, não?
por Fernando Nogueira da Costa
Em uma happy-hour turbulenta no bar geopolítico de Wall Street, especuladores degustavam a mais nova iguaria do cardápio do caos: o TACO, uma sigla gourmet de “Trump Always Chickens Out”.
Sim, senhoras e senhores, esta é a fé do divino O Mercado: Trump sempre recua. Atua como se fosse um Pato Donald grasnando alto e, na última hora, vira patinho manco. Na política dos Estados Unidos, um presidente é considerado “lame duck” (pato manco) se seu partido for derrotado na eleição do meio do mandato e não puder ser candidato à reeleição, nem conseguir eleger o seu sucessor.
O Donald não conseguirá fazer mais ameaça de tarifaços contra todo o mundo, até diante antigos aliados nas Américas e na Europa. O Aprendiz de Imperador deixará de se intrometer na soberania nacional do Brasil em defesa de seus aliados “evangélicos” (sic) neofascistas.
Mas o que era para ser só mais uma rodada de bravatas tarifárias — tipo “coloca 10%, depois eleva para 50% e acusa o Brasil de punir seus aliados” — agora virou um tarifaço global com ameaça de pólvora e digestão difícil. Até os sucos de laranja brasileiros estão sob ataque, talvez por achar eles conterem nutrientes bolivarianos misturados com tempero do Sul Global e pitadas de BRICS.
A confiança era tamanha no recuo do Imperador Donald a ponto dos gestores do JP Morgan acharem o mundo ter condições de ficar tranquilo sob o comportamento da chickenologia: “Ele ameaça, mas não cumpre”.
Afinal, Trump tem um histórico de valentias sempre terminadas em recuo dramático, quando O Mercado, isto é, sua turma de bilionários, o execra. Atua como um personagem de novela com ameaça de abandonar o casamento e sair de casa, mas sem sequer pegar o celular…
Porém, agora o comportamento ficou diferente. O Imperador Donald parece determinado a provar, dessa vez, vai até o fim de sua insanidade. O Dia da Libertação virou o Dia da Retaliação, e O Mercado — embriagado com recordes no S&P 500 — começou a perceber o taco da vez estar recheado de jalapeños (pimenta mexicana no guacamole) fiscais explosivos.
Os mesmos gênios de O Mercado, antes consideravam o Trump ser “previsível como uma roleta viciada”, agora se perguntam: – “Ele vai cumprir mesmo a ameaça de subordinar todo o mundo à sua vontade?!”
E mais importante: – “Será o mundo capaz de aguentar um presidente dos EUA governando-o pelo Twitter/X (ou Truth Social) com emojis nucleares e tarifas randômicas?”
No Financial Times, os Estados Unidos, outrora um país apresentado e defendido como o porto seguro da estabilidade global, se parece cada vez mais com aquela letra da música Inconfiável: … é burrice demais… Voltar pra alguém do passado… Suas atitudes são iguais… Seu te amo é inconfiável.
Enquanto isso, o dólar — o substituto do padrão-ouro — teve seu pior semestre desde 1973, quando o presidente Nixon impichado decretou o fim do Acordo Bretton Woods. O “privilégio exorbitante” do dólar decorre do fato de os países estrangeiros precisarem manter dólares americanos para efetuar o comércio e o investimento internacional, criando uma demanda constante pela moeda e seus títulos de dívida pública dolarizados pagadores de juros.
O país privilegiado adora gastar trilhões com planos orçamentários para ocupar militarmente o planeta. Seus governos fazem promoções de liquidação: “Compre a proteção de um caça-bombardeiro, carregue nossos Treasuries, financie o nosso déficit!”
No Brasil, os MAGAlóides tentam explicar o tarifaço com sua lógica transcendental: — “A culpa é do Lula! Se tivesse se ajoelhado pro Trump, como a gente queria, não teria suco de laranja, café e açúcar sendo tarifados!”
Esses gênios do servilismo acham soberania ser coisa de comunista e a política externa se resolver como propõe o serviçal governador: botar um boné vermelho, oferecer um churrasco no Texas e tirar uma selfie com Steve Bannon.
Para eles, o grande pecado do Brasil foi falar com China, Rússia e Índia sem pedir autorização ao Império. O Itamaraty teria de submeter cada nota diplomática ao Departamento de Estado americano, ou pior, ao Mar-a-Lago!
O Acordo de Mar-a-Lago, um resort de luxo e marco histórico nacional em Palm Beach – Flórida e ex-residência do Imperador Donald Trump, é um plano para reduzir o déficit comercial dos Estados Unidos, restaurar a manufatura doméstica e realinhar as relações econômicas internacionais. Ele propõe atingir esses objetivos imperiais por meio do uso de tarifas, medidas monetárias e de capital e acordos comerciais vinculados à Lei de Segurança Nacional dos Estados Unidos, criada, em 1947, como National Security Act (Ato de Segurança Nacional).
Agora O Mercado, antes fazendo chacota do “TACO trade”, começa a temer, desta vez, o Trump não vai chicken out. O simulacro do Pato Donald não tem apenas personalidade desleal, temperamento explosivo e voz característica. Em vez de só ciscar para trás, passou a ser inconsistente — o pior pesadelo para especuladores capazes de tirar proveito da volatilidade previsível.
Com o dólar sendo depreciado por causa da desconfiança dos demais Bancos Centrais em manter suas reservas cambiais somente em moeda norte-americana, os juros em xeque pelo presidente do Federal Reserve ser pressionado a se submeter ou pedir demissão, a imprensa e a Universidade sendo perseguidas, a imagem dos EUA como farol da democracia virou um pisca-pisca em código Morse: “Help!”
Uma gestora mantém posição “underweight” (equivalente a venda) em dólar “na maioria das carteiras”. A previsão é de depreciação da moeda americana em relação aos pares.
Um executivo de um grande banco americano afirma: – “As políticas destrambelhadas e as medidas tributárias do governo Trump abalaram a percepção de os EUA oferecerem uma reserva de valor estável e confiável”.
Os investidores, tanto americanos, quanto do resto do mundo, estão reavaliando como nunca sua exposição aos EUA. Admitem, em conversas privadas na unhappy-hour, não ser mais possível atribuir “prêmio de risco zero” ao mercado americano.
Ainda assim, como de hábito, O Mercado vê a disparada do déficit fiscal como a maior preocupação. “É o maior rombo em tempos de paz, ou seja, desde a Segunda Guerra Mundial! A conta é simples, vamos gastar um pouco menos – certo – e taxar um pouco mais – um absurdo! Mas a decisão de deixar a conta para pagar no futuro prejudica o mercado de títulos de dívida pública e, no fim, também o dólar”.
Uma fonte graduada de um banco internacional fez coro, ao reconhecer: os EUA perderam o status de “porto seguro”. “O custo de fazer negócios no país aumentou consideravelmente”.
Todos sem boné MAGA também têm preocupação cada vez maior com questões políticas mais amplas, como o respeito ao Estado de Direito. “O ataque recente a firmas de advocacia, à imprensa e às universidades preocupa investidores internacionais porque sempre associaram esse tipo de situação a mercados emergentes – como o do aliado argentino –, e não à maior e antes mais estável economia do mundo”.
Como será a decadência do Império do TACO? Um pato manco. Um déficit imenso. Um monte de investidores em fuga.
Moral da história: quem aposta sempre no Trump chicken out pode acabar servido como “pato com laranja”. Com tarifa, sem celulose para fazer guardanapo — e o suco de laranja ou o cafezinho custando o dobro.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn “
Deixe um comentário