5 de junho de 2026

Trump Always Chickens Out… ou Pato Donald manco, não?, por Fernando Nogueira da Costa

Esta é a fé do divino O Mercado: Trump sempre recua. Atua como se fosse um Pato Donald grasnando alto e, na última hora, vira patinho manco.
Miho

Trump Always Chickens Out… ou Pato Donald manco, não?

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por Fernando Nogueira da Costa

Em uma happy-hour turbulenta no bar geopolítico de Wall Street, especuladores degustavam a mais nova iguaria do cardápio do caos: o TACO, uma sigla gourmet de “Trump Always Chickens Out”.

Sim, senhoras e senhores, esta é a fé do divino O Mercado: Trump sempre recua. Atua como se fosse um Pato Donald grasnando alto e, na última hora, vira patinho manco. Na política dos Estados Unidos, um presidente é considerado “lame duck” (pato manco) se seu partido for derrotado na eleição do meio do mandato e não puder ser candidato à reeleição, nem conseguir eleger o seu sucessor.

O Donald não conseguirá fazer mais ameaça de tarifaços contra todo o mundo, até diante antigos aliados nas Américas e na Europa. O Aprendiz de Imperador deixará de se intrometer na soberania nacional do Brasil em defesa de seus aliados “evangélicos” (sic) neofascistas.

Mas o que era para ser só mais uma rodada de bravatas tarifárias — tipo “coloca 10%, depois eleva para 50% e acusa o Brasil de punir seus aliados” — agora virou um tarifaço global com ameaça de pólvora e digestão difícil. Até os sucos de laranja brasileiros estão sob ataque, talvez por achar eles conterem nutrientes bolivarianos misturados com tempero do Sul Global e pitadas de BRICS.

A confiança era tamanha no recuo do Imperador Donald a ponto dos gestores do JP Morgan acharem o mundo ter condições de ficar tranquilo sob o comportamento da chickenologia: “Ele ameaça, mas não cumpre”.

Afinal, Trump tem um histórico de valentias sempre terminadas em recuo dramático, quando O Mercado, isto é, sua turma de bilionários, o execra. Atua como um personagem de novela com ameaça de abandonar o casamento e sair de casa, mas sem sequer pegar o celular…

Porém, agora o comportamento ficou diferente. O Imperador Donald parece determinado a provar, dessa vez, vai até o fim de sua insanidade. O Dia da Libertação virou o Dia da Retaliação, e O Mercado — embriagado com recordes no S&P 500 — começou a perceber o taco da vez estar recheado de jalapeños (pimenta mexicana no guacamole) fiscais explosivos.

Os mesmos gênios de O Mercado, antes consideravam o Trump ser “previsível como uma roleta viciada”, agora se perguntam: – “Ele vai cumprir mesmo a ameaça de subordinar todo o mundo à sua vontade?!”

E mais importante: –  “Será o mundo capaz de aguentar um presidente dos EUA governando-o pelo Twitter/X (ou Truth Social) com emojis nucleares e tarifas randômicas?”

No Financial Times, os Estados Unidos, outrora um país apresentado e defendido como o porto seguro da estabilidade global, se parece cada vez mais com aquela letra da música Inconfiável: … é burrice demais… Voltar pra alguém do passado… Suas atitudes são iguais… Seu te amo é inconfiável.

Enquanto isso, o dólar — o substituto do padrão-ouro — teve seu pior semestre desde 1973, quando o presidente Nixon impichado decretou o fim do Acordo Bretton Woods.  O “privilégio exorbitante” do dólar decorre do fato de os países estrangeiros precisarem manter dólares americanos para efetuar o comércio e o investimento internacional, criando uma demanda constante pela moeda e seus títulos de dívida pública dolarizados pagadores de juros.

O país privilegiado adora gastar trilhões com planos orçamentários para ocupar militarmente o planeta. Seus governos fazem promoções de liquidação: “Compre a proteção de um caça-bombardeiro, carregue nossos Treasuries, financie o nosso déficit!”

No Brasil, os MAGAlóides tentam explicar o tarifaço com sua lógica transcendental: — “A culpa é do Lula! Se tivesse se ajoelhado pro Trump, como a gente queria, não teria suco de laranja, café e açúcar sendo tarifados!”

Esses gênios do servilismo acham soberania ser coisa de comunista e a política externa se resolver como propõe o serviçal governador: botar um boné vermelho, oferecer um churrasco no Texas e tirar uma selfie com Steve Bannon.

Para eles, o grande pecado do Brasil foi falar com China, Rússia e Índia sem pedir autorização ao Império. O Itamaraty teria de submeter cada nota diplomática ao Departamento de Estado americano, ou pior, ao Mar-a-Lago!

O Acordo de Mar-a-Lago, um resort de luxo e marco histórico nacional em Palm Beach – Flórida e ex-residência do Imperador Donald Trump, é um plano para reduzir o déficit comercial dos Estados Unidos, restaurar a manufatura doméstica e realinhar as relações econômicas internacionais. Ele propõe atingir esses objetivos imperiais por meio do uso de tarifas, medidas monetárias e de capital e acordos comerciais vinculados à Lei de Segurança Nacional dos Estados Unidos, criada, em 1947, como National Security Act (Ato de Segurança Nacional).

Agora O Mercado, antes fazendo chacota do “TACO trade”, começa a temer, desta vez, o Trump não vai chicken out. O simulacro do Pato Donald não tem apenas personalidade desleal, temperamento explosivo e voz característica. Em vez de só ciscar para trás, passou a ser inconsistente — o pior pesadelo para especuladores capazes de tirar proveito da volatilidade previsível.

Com o dólar sendo depreciado por causa da desconfiança dos demais Bancos Centrais em manter suas reservas cambiais somente em moeda norte-americana, os juros em xeque pelo presidente do Federal Reserve ser pressionado a se submeter ou pedir demissão, a imprensa e a Universidade sendo perseguidas, a imagem dos EUA como farol da democracia virou um pisca-pisca em código Morse: “Help!

Uma gestora mantém posição “underweight” (equivalente a venda) em dólar “na maioria das carteiras”. A previsão é de depreciação da moeda americana em relação aos pares.

Um executivo de um grande banco americano afirma: – “As políticas destrambelhadas e as medidas tributárias do governo Trump abalaram a percepção de os EUA oferecerem uma reserva de valor estável e confiável”.

Os investidores, tanto americanos, quanto do resto do mundo, estão reavaliando como nunca sua exposição aos EUA. Admitem, em conversas privadas na unhappy-hour, não ser mais possível atribuir “prêmio de risco zero” ao mercado americano.

Ainda assim, como de hábito, O Mercado vê a disparada do déficit fiscal como a maior preocupação. “É o maior rombo em tempos de paz, ou seja, desde a Segunda Guerra Mundial! A conta é simples, vamos gastar um pouco menos – certo –  e taxar um pouco mais – um absurdo! Mas a decisão de deixar a conta para pagar no futuro prejudica o mercado de títulos de dívida pública e, no fim, também o dólar”.

Uma fonte graduada de um banco internacional fez coro, ao reconhecer: os EUA perderam o status de “porto seguro”. “O custo de fazer negócios no país aumentou consideravelmente”.

Todos sem boné MAGA também têm preocupação cada vez maior com questões políticas mais amplas, como o respeito ao Estado de Direito. “O ataque recente a firmas de advocacia, à imprensa e às universidades preocupa investidores internacionais porque sempre associaram esse tipo de situação a mercados emergentes – como o do aliado argentino –, e não à maior e antes mais estável economia do mundo”.

Como será a decadência do Império do TACO? Um pato manco. Um déficit imenso. Um monte de investidores em fuga.

Moral da história: quem aposta sempre no Trump chicken out pode acabar servido como “pato com laranja”. Com tarifa, sem celulose para fazer guardanapo — e o suco de laranja ou o cafezinho custando o dobro.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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