5 de junho de 2026

Uma foto vale mais que mil palavras, por Daniel Afonso da Silva

Muito já se teorizou sobre fotos. Gente graudíssima com Saussure, Benjamim, Barthes, Umberto Eco, Susan Sontag, para ficar apenas em alguns
Ricardo Stuckert

Uma foto vale mais que mil palavras

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por Daniel Afonso da Silva

A terceira semana da presidência de Lula da Silva foi marcada pela intermitência de uma foto de uma vidraça quase estilhaçada e um presidente da República semiprostrado. Uma foto artística, disseram alguns. Uma foto criminosa, afirmaram outros. Uma foto que não é uma foto, protestaram muitos.

Não é o caso de voltar à foto em questão. Tampouco é importante voltar ao clamor das discussões – positivas e negativas; conspiratórias e condescendentes – que ela suscitou.

Que fotos importam, ninguém consciente tem dúvidas. Que o presidente Lula da Silva tem ciência plena disso, ninguém também dúvidas pode ter. A quem eventualmente dúvidas sobre isso tiver, que leia a belíssima reportagem de Ana Clara Costa, saída na Piauí, de dezembro de 2022, sob o título O fotógrafo – Como Ricardo Stuckert conquistou o coração de Lula. Tudo sobre a relação de Lula e fotos e fotos e Lula ali está.

Muito já se teorizou sobre fotos. Gente graudíssima com Saussure, Benjamim, Barthes, Umberto Eco, Susan Sontag, para ficar apenas em alguns, representam a elite teórica do assunto. Sebastião Salgado não participa dessa classificação por razões simplórias: ele é um gênio das lentes (prático do ofício) e um gênio na explicação das especificidades da genialidade de seu ofício (está acima da elite de teóricos sobre o assunto) – trata-se, portanto, de hors concours.

Isso tudo para dizer que muito já se disse e ainda se diz sobre foto. E muito do se disse e diz é muito sofisticado. Como sofisticado é o lugar comum que aduz que uma imagem vale mais que mil palavras; e, uma foto, também.

As mil palavras da semana que passou não vieram da foto de Brasília com o presidente Lula da Silva semiprostrado e, supostamente, às voltas com o seu próprio fim. Não. As mil, dez mil, cem mil, um milhão de palavras da semana vieram da foto de Fernando Haddad e Marina Silva, juntos, representando o Brasil, em Davos.

Independentemente do balanço que se pode fazer sobre o empreendimento de Klaus Schwab, traduzido no formidável encontro dos verdadeiros donos deste mundo, todos os janeiros, nas geladas paisagens suíças imortalizadas por Thomas Mann, o Fórum Econômico Mundial desde muito que dá o tom dos encaminhamentos internacionais.

Fernando Haddad e Marina Silva foram lá, neste ano que começou no Brasil com o fariscar da cadelinha Resistência e se acelerou desmesuradamente com as tormentas brasilienses da semana seguinte, para essencialmente demonstrar ao mundo que o Brazil is back. Mas está de volta com sotaques diferentes e olhares comuns para desafios similares.

Ninguém pode hesitar em duvidar que a desigualdade segue sendo o problema mais agônico do século 21. Vinte anos atrás, o presidente Lula da Silva, disse em seu discurso de posse, no primeiro de janeiro de 2003, que seu projeto era materializar três refeições – café da manhã, almoço e janta – diárias para o grosso da população brasileira desprovida dessa dignidade. Saído de Brasília, ele foi a Porto Alegre afirmar que outra globalização era possível, mais social e humanamente digna, e que as suas aspirações aos brasileiros, de erradicação da fome e da miséria crônicos, poderiam ser lançadas ao mundo inteiro. Saído da capital gaúcha, circundada de pequenos morros de cume arredondado, ele se dirigiu aos Alpes da Montanha Mágica do gênio alemão. E como se fosse imaginação de altíssima literatura, o antigo metalúrgico do ABC começou a seduzir os donos do mundo com seu português racionalmente escorregadio – os operadores das traduções simultâneas que lutassem – de que outro mundo, menos desigual e com três refeições diárias a parte majoritária dos sobreviventes da globalização, era, sim, possível. Saído dali, o presidente da República Federativa do Brasil foi recebido com galas e honrarias no G7 hospedado em Evian, ciceroneado pelo presidente Jacques Chirac e aclamado pelos chefes de estado Romano Prodi (Itália), Tony Blair (Reino Unido), Jacques Chirac (França), Jean Chretien (Canadá), Vladimir Putin (Rússia) e Gerhard Schroeder (Alemanha). Dali em diante o Brasil deixou de ser convidado para o café, frio e tresnoitado, da despedida dos eventos internacionais para participar do banquete principal das negociações verdadeiramente sérias e verdadeiramente mundiais sobre o destino do planeta. Sempre com o assunto principal, que era e é a desigualdade, sendo protagonizado pelo presidente que encarnava o povo brasileiro.

Não é o caso de se especular as razões que levaram o presidente Lula da Silva a abdicar de ir a Davos em 2023 e, como vinte anos antes, inaugurar o seu romance planetário sobre epopeias internacionais. Ilações existem muitas. Não é o caso de as mobilizar para reviver as motivações do presidente em sem manter em Brasília, falar com Reitores, contracenar com Natuza Nery e partir ao socorro dos Yanomami na longínqua Roraima.

O importante é notar que, não indo, o sábio retirante de Garanhuns enviou ao mundo a versão mais eloquente da nova cara do Brasil encarnada por dois indiscutivelmente presidenciáveis – no passado e, possivelmente, no após-Lula – que são Fernando Haddad e Marina Silva: a superação draconismo do professor Paulo Guedes e a supressão do oportunismo do Sr. Ricardo Salles.

A realidade econômica é muito mais complexa – inclusive tecnicamente falando – hoje que vinte anos atrás. A crise financeira de 2008 veio para ficar. Ela estraçalhou todos os consensos sobre Economia e programação econômica no mundo inteiro. E a palavra de ordem do G20 de Washington depois de Londres, em dezembro de 2008 e abril de 2009, segue, desde então, viva e vivaz: Economia é algo muito sério para se deixar nas mãos dos economistas.

Fernando Haddad, embora conhecedor e operador de Economia – quem faz mestrado em Economia no Brasil, como fez Fernando Haddad na FEA-USP, é, possivelmente, reconhecido como economista pela ANPEC; é o caso de se conferir –, atua como ator político da Economia. E, mais que isso, age como o homem do presidente que traduz a visão política do presidente na condução dos negócios econômicos do Brasil. Adeus, Posto Ipiranga. Esqueça-se a nota só da “curva de Laffer”.

A questão climática foi pouco a pouco se impondo mundo a fora com um imperativo societário no hiato entre a inauguração presidencial de janeiro de 2003 e deste. Especialmente depois da Cop15 de Copenhague em 2009 e da Cop 21 de Paris em 2015 ficou impossível desconectar o destino econômico, social e civilizacional das nações sem se considerar o tratamento que elas dão ao imperativo climático. Longe das imensas controvérsias teóricas do notável, mas falecido, Bruno Latour sobre o Antropoceno, não se abre ou expande empresa com aspirações importantes de tamanho e impacto econômico sem se considerar os aspectos de governança socioambiental – o famigerado, em inglês, ESG.

Marina Silva foi a Davos dizer ao mundo que o Brasil do presidente Lula da Silva entendeu as mudanças e, com elas, gravidade do problema. Que a boiada vai deixar de, inadvertidamente, seguir passando. Que a responsabilidade climática e ambiental veio para ser efetivamente praticada.

A foto deles dois – Fernando e Marina, Marina e Fernando; ou, mais presidencialmente, Haddad e Silva, Silva e Haddad – foi a foto mais importante da semana que passou.

*

Uma foto diferente desta…

*

…desta…

*

…desta…

*

e….ainda…desta.

*

Mas, também, muito diferente desta…

*

e…,

…ainda mais,

…sobretudo,

…desta.

*

Sim, não se duvide: uma foto vale mais que mil palavras.

Daniel Afonso da Silva

Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”. [email protected]

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