Uma foto vale mais que mil palavras
por Daniel Afonso da Silva
A terceira semana da presidência de Lula da Silva foi marcada pela intermitência de uma foto de uma vidraça quase estilhaçada e um presidente da República semiprostrado. Uma foto artística, disseram alguns. Uma foto criminosa, afirmaram outros. Uma foto que não é uma foto, protestaram muitos.
Não é o caso de voltar à foto em questão. Tampouco é importante voltar ao clamor das discussões – positivas e negativas; conspiratórias e condescendentes – que ela suscitou.
Que fotos importam, ninguém consciente tem dúvidas. Que o presidente Lula da Silva tem ciência plena disso, ninguém também dúvidas pode ter. A quem eventualmente dúvidas sobre isso tiver, que leia a belíssima reportagem de Ana Clara Costa, saída na Piauí, de dezembro de 2022, sob o título O fotógrafo – Como Ricardo Stuckert conquistou o coração de Lula. Tudo sobre a relação de Lula e fotos e fotos e Lula ali está.
Muito já se teorizou sobre fotos. Gente graudíssima com Saussure, Benjamim, Barthes, Umberto Eco, Susan Sontag, para ficar apenas em alguns, representam a elite teórica do assunto. Sebastião Salgado não participa dessa classificação por razões simplórias: ele é um gênio das lentes (prático do ofício) e um gênio na explicação das especificidades da genialidade de seu ofício (está acima da elite de teóricos sobre o assunto) – trata-se, portanto, de hors concours.
Isso tudo para dizer que muito já se disse e ainda se diz sobre foto. E muito do se disse e diz é muito sofisticado. Como sofisticado é o lugar comum que aduz que uma imagem vale mais que mil palavras; e, uma foto, também.
As mil palavras da semana que passou não vieram da foto de Brasília com o presidente Lula da Silva semiprostrado e, supostamente, às voltas com o seu próprio fim. Não. As mil, dez mil, cem mil, um milhão de palavras da semana vieram da foto de Fernando Haddad e Marina Silva, juntos, representando o Brasil, em Davos.
Independentemente do balanço que se pode fazer sobre o empreendimento de Klaus Schwab, traduzido no formidável encontro dos verdadeiros donos deste mundo, todos os janeiros, nas geladas paisagens suíças imortalizadas por Thomas Mann, o Fórum Econômico Mundial desde muito que dá o tom dos encaminhamentos internacionais.
Fernando Haddad e Marina Silva foram lá, neste ano que começou no Brasil com o fariscar da cadelinha Resistência e se acelerou desmesuradamente com as tormentas brasilienses da semana seguinte, para essencialmente demonstrar ao mundo que o Brazil is back. Mas está de volta com sotaques diferentes e olhares comuns para desafios similares.
Ninguém pode hesitar em duvidar que a desigualdade segue sendo o problema mais agônico do século 21. Vinte anos atrás, o presidente Lula da Silva, disse em seu discurso de posse, no primeiro de janeiro de 2003, que seu projeto era materializar três refeições – café da manhã, almoço e janta – diárias para o grosso da população brasileira desprovida dessa dignidade. Saído de Brasília, ele foi a Porto Alegre afirmar que outra globalização era possível, mais social e humanamente digna, e que as suas aspirações aos brasileiros, de erradicação da fome e da miséria crônicos, poderiam ser lançadas ao mundo inteiro. Saído da capital gaúcha, circundada de pequenos morros de cume arredondado, ele se dirigiu aos Alpes da Montanha Mágica do gênio alemão. E como se fosse imaginação de altíssima literatura, o antigo metalúrgico do ABC começou a seduzir os donos do mundo com seu português racionalmente escorregadio – os operadores das traduções simultâneas que lutassem – de que outro mundo, menos desigual e com três refeições diárias a parte majoritária dos sobreviventes da globalização, era, sim, possível. Saído dali, o presidente da República Federativa do Brasil foi recebido com galas e honrarias no G7 hospedado em Evian, ciceroneado pelo presidente Jacques Chirac e aclamado pelos chefes de estado Romano Prodi (Itália), Tony Blair (Reino Unido), Jacques Chirac (França), Jean Chretien (Canadá), Vladimir Putin (Rússia) e Gerhard Schroeder (Alemanha). Dali em diante o Brasil deixou de ser convidado para o café, frio e tresnoitado, da despedida dos eventos internacionais para participar do banquete principal das negociações verdadeiramente sérias e verdadeiramente mundiais sobre o destino do planeta. Sempre com o assunto principal, que era e é a desigualdade, sendo protagonizado pelo presidente que encarnava o povo brasileiro.
Não é o caso de se especular as razões que levaram o presidente Lula da Silva a abdicar de ir a Davos em 2023 e, como vinte anos antes, inaugurar o seu romance planetário sobre epopeias internacionais. Ilações existem muitas. Não é o caso de as mobilizar para reviver as motivações do presidente em sem manter em Brasília, falar com Reitores, contracenar com Natuza Nery e partir ao socorro dos Yanomami na longínqua Roraima.
O importante é notar que, não indo, o sábio retirante de Garanhuns enviou ao mundo a versão mais eloquente da nova cara do Brasil encarnada por dois indiscutivelmente presidenciáveis – no passado e, possivelmente, no após-Lula – que são Fernando Haddad e Marina Silva: a superação draconismo do professor Paulo Guedes e a supressão do oportunismo do Sr. Ricardo Salles.
A realidade econômica é muito mais complexa – inclusive tecnicamente falando – hoje que vinte anos atrás. A crise financeira de 2008 veio para ficar. Ela estraçalhou todos os consensos sobre Economia e programação econômica no mundo inteiro. E a palavra de ordem do G20 de Washington depois de Londres, em dezembro de 2008 e abril de 2009, segue, desde então, viva e vivaz: Economia é algo muito sério para se deixar nas mãos dos economistas.
Fernando Haddad, embora conhecedor e operador de Economia – quem faz mestrado em Economia no Brasil, como fez Fernando Haddad na FEA-USP, é, possivelmente, reconhecido como economista pela ANPEC; é o caso de se conferir –, atua como ator político da Economia. E, mais que isso, age como o homem do presidente que traduz a visão política do presidente na condução dos negócios econômicos do Brasil. Adeus, Posto Ipiranga. Esqueça-se a nota só da “curva de Laffer”.
A questão climática foi pouco a pouco se impondo mundo a fora com um imperativo societário no hiato entre a inauguração presidencial de janeiro de 2003 e deste. Especialmente depois da Cop15 de Copenhague em 2009 e da Cop 21 de Paris em 2015 ficou impossível desconectar o destino econômico, social e civilizacional das nações sem se considerar o tratamento que elas dão ao imperativo climático. Longe das imensas controvérsias teóricas do notável, mas falecido, Bruno Latour sobre o Antropoceno, não se abre ou expande empresa com aspirações importantes de tamanho e impacto econômico sem se considerar os aspectos de governança socioambiental – o famigerado, em inglês, ESG.
Marina Silva foi a Davos dizer ao mundo que o Brasil do presidente Lula da Silva entendeu as mudanças e, com elas, gravidade do problema. Que a boiada vai deixar de, inadvertidamente, seguir passando. Que a responsabilidade climática e ambiental veio para ser efetivamente praticada.
A foto deles dois – Fernando e Marina, Marina e Fernando; ou, mais presidencialmente, Haddad e Silva, Silva e Haddad – foi a foto mais importante da semana que passou.

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Uma foto diferente desta…

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…desta…

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…desta…

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e….ainda…desta.

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Mas, também, muito diferente desta…

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e…,
…
…ainda mais,
…
…sobretudo,
…
…desta.

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Sim, não se duvide: uma foto vale mais que mil palavras.
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