10 de junho de 2026

Arriscada da campanha de Boulos com entrevista à Marçal pode virar votos

Marçal afirmou que não tinha como declarar apoio a Nunes: "o cara não está dando conta de vir numa entrevista!"
Reprodução canal Youtube

A campanha política de Guilherme Boulos (PSOL) está confiante de que conseguiu uma virada de votos em parcela dos eleitores de Pablo Marçal (PRTB), após o resultado da arriscada entrevista dada por Boulos ao ex-coach, em seu canal, faltando 3 dias para o segundo turno das eleições.

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A possível virada na decisão dos eleitores de Marçal em apoio a Boulos foi vista em comentários da live, ao vivo, e percebida pelo tom do ex-adversário político, que conhecido por seu teor explosivo, manteve uma entrevista calma e respeitosa, e chegou a dar acenos amigáveis e a valorizar a “coragem” de Boulos de participar da sabatina: “Guilherme foi o primeiro a topar [dar entrevista a ele]”, disse, mostrando-se à vontade, referindo-se ao candidato pelo primeiro nome.

“Vou tratar com o maior respeito [Boulos e Nunes, caso aparecesse]. Tem gente indignada aqui: ‘por que você não chama ele de Boules [apelido pejorativo de eleitores da oposição ao candidato do PSOL]’, porque eu fiz um compromisso, de tratar com extremo respeito todos os entrevistados aqui”, justificou, em determinado momento, ao ser incitado por seguidores seus nos comentários.

E seguiu em elogio ao que ele dizia ser “um momento histórico”: “Talvez esse seja um momento histórico, na democracia brasileira, onde, de fato, a esquerda e a direita, eu sou a direita, e esse cara é a esquerda, e eu estou aqui, me propus a um debate aberto.”

“Eu sei que algumas pessoas tem dificuldades de entender isso, mas eu senti [disse, tocando o peito] de contribuir, nessa reta final.”

A frase indicava o que seria a sua posição, ainda que não declarada, de apoio político na reta final. Mas o ensaio de um possível apoio a Boulos, que definitivamente soaria de forma negativa, veio de forma inversa, ao criticar, dura e repetidamente, a ausência de Ricardo Nunes (MDB) na entrevista.

Passados mais de 40 minutos de live, o ex-coach interrompia o entrevistado para o seu segundo apelo a Nunes:

“Tem 400 mil pessoas no Youtube assistindo e eu faço o apelo, mais uma vez, pro Ricardo Nunes. (…) Deixa eu te falar: Nunes, assim como você está com a maior parte do eleitorado que a pesquisa fala que votou em mim, eu acredito que você não poderia virar as costas pras pessoas aqui.

Foi quando afirmou, aos seus eleitores e quem pudesse estar assistindo à live, que ele não iria declarar apoio a Nunes:

“Agora, o que não dá para entender é porque o povo me cobra, alguns estão me cobrando ‘vamos declarar apoio [a Nunes]’. O cara não está dando conta de vir numa entrevista! É assim, põe a consciência… Eu quero entrevistar os dois, fiz o desafio, o Guilherme foi o primeiro a topar, a equipe do Nunes está com o link aberto pra entrar, eu faço o apelo mais uma vez, escreve todo mundo assim: ‘Vem Nunes’.”

Se a live de Marçal foi uma estratégia de aproximação ao eleitorado de Nunes para, por exemplo, disputar as eleições ao governo de São Paulo, conforme na própria transmissão admitiu explicitadamente a Boulos que concorreria, e retirar a imagem de “extremista” ou “violento” que marcou a sua campanha, diante dos ataques aos demais candidatos, ela também foi um recado claro de Marçal aos eleitores indecisos de que ele não apoiará Nunes, o que automaticamente favorece a campanha de Boulos.

Nas possíveis pretensões de Marçal, desenhadas nestas prévias eleitorais, quando os olhos dos paulistanos e do Brasil estão na capital, o maior colégio eleitoral, o ex-candidato já adiantou o plano político que almeja: “Eu vejo que você é um cara que, assim como tem ‘Lula e Bolsonaro’, vai ter um tal de Guilherme e Pablo nos próximos 30 anos, isso me incomoda, você acredita. É um sentimento que eu tenho.”

Apesar de lados opostos, a fala soou como elogio, a ponto de gerar sorrisos em Boulos na entrevista.

E continuou: “Eu sei que você não vai responder com precisão isso, a questão até mental sua é [a votação do] final de semana, mas você imagina esses próximos anos, quantos anos você tem?”. “42”, respondeu Boulos. “Eu tenho 37. Você imagina em 30 anos esse debate, tipo, o Lula chegou no final, o Bolsonaro não chegou no final, mas está inelegível, você já pensou que o cara que… Eu estou na condição de entrevistador, vou tirar uma vantagem dela aqui, você já pensou em disputar eleição de governo, de Presidência da República, com caras de direita, que vai te atormentar a vida inteira, já chegou a pensar isso?”

Ao que Boulos respondeu que estaria “pronto para qualquer embate”.

“Minha mãe é paraibana e me ensinou desde criança. Ela disse: eu não sou filho de pai assustado. Quando você diz um negócio desse é que você está pronto para qualquer embate. Adversário a gente não escolhe, cara, na campanha, na vida, aparece, e a gente tem que estar preparado para fazer um debate qualificado, independente de qualquer circunstâncias.”

No canal de Marçal, aproveitando a presença certa de eleitores do ex-candidato, a estratégia de campanha de Boulos aproveitou para, em suas respostas, tocar em temas sensíveis e de interesse do perfil do eleitor de Pablo Marçal.

Por isso, Boulos aproveitou para explicar e retirar a fama de “invasão” de propriedades associada ao MST e a ele, como líder do movimento, até em temas de religiosidade e de que a política ser uma “missão”.

Eu sou movido por propósito. Eu não estou na política para ganhar dinheiro, eu não estou na política para ter privilégio, eu não estou na política pela ânsia do poder, pelo poder. Eu estou na política porque eu acho que é um instrumento que a gente tem. Por mais podre que sejam muitos dos que estão na política, [estou] para mudar a sociedade. Quando você está numa batalha dessa, de missão, de propósito, você vai em frente, você não escolhe adversário.”

Novamente em indicativos de apoio, o ex-candidato e coach perguntou a Guilherme Boulos se ele “dará certeza para o povo” de que ele vai “acabar com as invasões” do MST.

“Vamos supor, a gente vai dar chance para um cara desse [votar em Boulos], você pode afirmar: vai acabar com as invasões, ou então você vai criar algum tipo de política pública para aquilo que tá invadido? Você dá essa certeza pro povo?”.

“Sabe por que eu dou essa certeza, Marçal? Eu conheço movimento de moradia por dentro, estive 20 anos lá, movimento social de moradia só faz ocupação de terreno abandonado, não é invadir casa de ninguém, é terreno abandonado ilegal, e por aí, só faz isso, quando não tem política habitacional, cara. Eu vou fazer o maior programa de moradia da história dessa cidade. Isso é compromisso meu, de vida, não é conversa de campanha, é o que eu fiz a minha vida toda. E aí, não tem ocupação quando tem o governo trabalhando para ter moradia”, respondeu Boulos.

E voltando ao eleitor de Marçal, continuou: “tem um tipo de invasão que eu vou combater. Bandido que usa o sofrimento do povo para ganhar dinheiro, esses, se vierem no meu governo fazer isso, não vai ser a mamata que está sendo do Nunes, não. Nós vamos pra cima.”

A rejeição dos paulistanos foi outro dos temas que o candidato do PSOL conseguiu se aproximar do eleitor de Marçal. Ele deu as duas razões que Marçal também usava, durante a campanha, para justificar também alta rejeição: tomar posição, não ser neutro e ficar em cima do muro; e mentiras divulgadas contra ele.

“Rejeição tem a ver com tomar lado, tomar partido, eu não estou em cima do muro“, disse Boulos, o que também se encaixaria para explicar a rejeição a Marçal, além de criticar Nunes por “não ter personalidade” e ficar sem se posicionar, fugindo dos debates e entrevistas.

“E rejeição tem a ver também com mentira, quando atacam de todos os lados, inventando mentira sobre a minha trajetória, as minhas posições, a minha vida pessoal, nem sempre, a verdade chega com a mesma velocidade que a mentira”, seguiu.

Marçal também deu a abertura para Boulos responder o que ele vai fazer, nestes 3 dias, para “virar os votos“: “Mostrar pro eleitor que não votou em mim no primeiro turno o que está em jogo, de forma incansável. É deixar o consórcio do [João] Doria mais quatro anos ou oferecer mudança para São Paulo.”

“Quem votou em você, no primeiro turno, votou porque não estava satisfeito com a cidade como ela estava. Votou para mudar. E eu entendo a indignação do eleitor que votou em você, do cara que falou: ‘esse sistema podre que vem desde o Doria, vamos mudar, o Centrão’. O que eu estou enfrentando nesse segundo turno é essa mesma turma“, aproveitou para empatizar Boulos, em outro momento.

Se, neste domingo, Boulos conseguir a virada de votos de eleitores de Marçal para si, a campanha entenderá que foi a entrevista ao ex-candidato que deu a ele esta oportunidade.

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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6 Comentários
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  1. AMBAR

    25 de outubro de 2024 6:16 pm

    Das 48 leis do poder o Marçal apresentou a 49ª. De perdedor do certame ele se coloca como vencedor e patrão dos dois concorrentes que o derrotaram. O campinho é dele, a bola dele e se ele não chamar os adversários , não tem jogo. Admitamos, ele é tático. Boules se arriscou e pelo menos não saiu enxovalhado (de novo), mas por certo não terá tempo de virar votos suficientes para a vitória. Marçal ganha dos 3 lados. Parabéns para ele. Se é para aprender para o mal, o professor é o Marçal.

  2. Fábio de Oliveira Ribeiro

    25 de outubro de 2024 6:54 pm

    Isso confirma o que disse no GGN há alguns dias. Fui o único a imaginar que Pablo Marçal ficaria mais à vontade apoiando Boulos do que reforçando o poder dos Bolsonaro.

    “Ricardo Nunes (MDB) e Guilherme Boulos (PSOL) disputarão os eleitores de Pablo Marçal com ou sem o apoio dele. Se quiser continuar na política, o candidato do PRTB terá que antecipar seu apoio a um dos candidatos, não sendo aconselhável ele seguir o exemplo de Ciro Gomes. Em duas oportunidades distintas, Ciro Gomes fugiu par a Europa sem declarar apoio a um dos candidatos na disputa eleitoral presidencial transformando-se num zumbi político que nenhum grupo político realmente importante está disposto a carregar.

    Não sei se Pablo Marçal apoiará Ricardo Nunes ou Guilherme Boulos, mas suponho que se quiser sobreviver na política ele terá que se distanciar do clã Bolsonaro. Dificilmente ele será considerado digno de confiança e poderá confiar no seu Jair e nos filhos dele depois de ter ameaçado os planos eleitorais presidenciais da extrema direita militarizante.

    Se apoiar o candidato do PSOL e Guilherme Boulos ganhar a eleição, Pablo Marçar terá fortalecido um adversário menos perigoso para ele do que Tarcísio de Freiras e poderá eventualmente canibalizar o eleitorado de Lula na próxima eleição. Mas se apoiar Boulos e o candidato do MDB ganhar a eleição paulista por uma diferença pequena, Pablo Marçal não será necessariamente visto como um derrotado e seguirá sendo uma ameaça para o clã Bolsonaro no campo da direita.”

    https://jornalggn.com.br/cidadania/ascensao-e-queda-de-um-influencer-candidato-por-fabio-ribeiro/

  3. +almeida

    25 de outubro de 2024 11:36 pm

    Já era sabido que Lula e as coligações do PT passariam por algumas decepções já nestas eleições, por conta da traição e pelo desprezo do atual governo com o drama da quebra de renda e do padrão de vida, que os aposentados e as aposentadas vivenciam, por conta do rompimento abusivo e totalitário das regras e das normas estabelecidas entre as partes desde a consolidação do primeiro depósito da contribuição previdenciária descontada na folha de pagamento do até então trabalhador(a). E tanto se consolida a previsão de momentos amargos para Lula, PT e coligações, como a sequência será ainda mais desastrosa caso o julgamento do STF decida se contradizer dar ganho de causa ao INSS, em mais prejuízo contra contribuintes que estão com processos na justiça, no tema da Revisão da Vida Toda. Lula, o PT e as coligações estão tendo uma prova das energias negativas que lhes rondam e cruzam seus caminhos.
    Contudo, todos falam sobre a Revisão da Vida toda, mas ninguém fala sobre a divida dos maiores devedores da previdência, que só para os 500 maiores devedores atinge a fabulosa cifra de pouco mais de 153 bilhões de reais. Grandes empresas, grandes bancos, grandes prefeituras, etc, estão na lista, que pode ser encontrada em:
    https://www.gov.br/pgfn/pt-br/assuntos/divida-ativa-da-uniao/divida-ativa-previdenciaria/500-maiores-devedores-previdenciarios-versao-59-0.pdf

    Obs: Uma importante informação é sobre o absurdo dos valores devidos por empresas que estão entre as que mais devem ao INSS, com valores atualizados até janeiro de 2024. Então vejam alguns dados sobre as 20 primeiras colocadas, no ranking de maiores devedores do INSS:
    – a soma da quantia devedora da 2ª colocada (JBS) com a 3ª (PETROBRAS) = R$6.023.119.807,80 e significa que é uma quantia 1,58% maior que o custo de 3,8 bilhões (fracionado em 10 anos) que o INSS teria para corrigir e devolver os valores reais que todos tem por direito adquirido, legal e consagrado na constituição e na própria revisão da previdência de 1999. Só a divida dessas duas empresas, que devem e não pagam sabe-se lá a quantos anos, já quitaria a inadimplência do INSS com aposentados e aposentadas, que possuem o pleno direito a optarem pelo melhor cálculo, na Revisão da Vida Toda.

    – porém, se incluir o 4ª colocada ( Itaú Unibanco) o total do 2ª, 3ª e 4ª colocado o valor sobe para R$ 8.612.538.526,80, E assim por adiante…

    – outro dado curioso que a 3ª, 4ª, 8ª e 11ª, que estão listadas são: Petrobras, Itaú Unibanco, Itaú BBA e Bradesco. São empresas que divulgam em seus balanços lucros estratosféricos, mas continuam sendo inadimplentes com a Previdência Social e corresponsáveis por todo o sofrimento, toda a traição e todo o abuso praticado contra os direitos legítimos dos aposentados e aposentadas.
    Ainda tem muitas surpresas na lista, que fica para consulta da população.

    Por conta de parte disso, Boulos e a coligação vai passar o mico de pedir benção aquele que tanto apelou e ainda se mostra inconfiável. Quem garante não ser uma armadilha para garantir a vitória de Nunes. Pode ter cheiro de desmoralização e fim de carreira para Boulos se seguir adiante com a suposta estratégia dos sabichões.

  4. Miguel

    26 de outubro de 2024 8:06 am

    Depois de levar exame toxicológico em debate, agora esta patacoada. Alguém consegue imaginar o Leonel Brizola fazendo um papel destes indo a entrevista de “coach” que o esculhambou antes?? PATÉTICO !!

  5. jura

    26 de outubro de 2024 7:28 pm

    Boulos já conseguiu o que queria. Hoje a Enel derrubou uma árvore antiga e saudável na porta de casa, que foi cuidada a vida inteira pelos moradores, não pela prefeitura.

    Não vai resolver nada, não vai sequer elegê-lo e cidade vai ficar mais feia, seca e quente, além de gastar mais energia pra usar o ar condicionado.

    Eleito ou não, Boulos sai dessa campanha menor do que entrou, o oposto do seu entrevistador, que conseguiu a proeza de se converter em jornalista e candidato a presidente no segundo turno, depois de perder o primeiro.

    Vamos de vento em popa rumo ao olho do furacão.

  6. Walter Pires

    26 de outubro de 2024 8:43 pm

    Lamentável a opção pelo encontro. Desnecessário e aviltante.
    E o título desta matéria não faz sentido. Poderiam corrigir.

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