A entrega cabal da economia pela política externa do Globo, por J. Carlos de Assis

No editorial “Ideologização de política externa isola o país e afeta economia”, o jornal Globo assume o ponto de vista dos entreguistas da Fiesp que preferem um alinhamento subalterno aos Estados Unidos a uma política que oriente opções estratégicas externas soberanas, fundamentais para o Brasil no século XXI. A tese da Fiesp foi exposta pelo seu conselheiro de política exterior Rubens Barbosa em artigo recente no próprio jornal que analisei anteriormente. Claro que há nisso uma articulação ideológica, o que revela que estamos diante dos passos iniciais de uma campanha.

A dialética nos ensina que há sempre um ponto de vista oposto a qualquer argumento, pelo que, muitas vezes, a verdade se encontra numa síntese em nível superior. Acontece que as teses levantadas por O Globo para provar o caráter ideológico da atual política externa brasileira não se sustentam num primeiro nível. É possível contestá-las com os próprios argumentos do Globo desde que os recoloquemos na perspectiva correta. Vou examinar os cinco pontos destacados pelo jornal sobre o que, a seu ver, é a política ideológica atual.

Primeiro ponto: “O país passou a depender bastante do Mercosul, mas o bloco entrou em crise, devido a Argentina.”

Conclui-se por essa observação que, segundo O Globo, o fato de termos exportado muito para o Mercosul nos tornou “perigosamente” dependentes da América do Sul. O jornal deveria perguntar aos industriais brasileiros por que cargas d´água não exportaram para os Estados Unidos e a Europa, admiráveis países de olhos azuis, o que exportaram para esses cucarachas cujo único elemento positivo é ter um mercado manufatureiro e de bens de capital compatível com nossa oferta, e uma capacidade de pagamento circunstancialmente alimentada por exportações de produtos primários para a China. Naturalmente não pudemos evitar a crise argentina, mas também não evitamos a europeia.

Segundo ponto: “Como a China ganhou grande importância para o Brasil, o desaquecimento chinês preocupa.”

Ah, então é isso. Deveríamos ter moderado nossas exportações de primários para a China a fim de evitarmos a decepção de um desaquecimento chinês. Entretanto, para quem exportaríamos o que se “economizaria” em vendas para a China? Será que O Globo não se preocupa com a terrível estagnação europeia e o vaivém da economia norte-americana? Onde deveríamos ter procurado mercados para evitar o “excesso de confiança” na China, a economia que desde 30 anos é a que mais cresce no mundo, continuamente, e cujo desaquecimento aponta para a taxa absolutamente fantástica nos tempos atuais de 7,5%?

Terceiro ponto: “A queda de preços internacionais de matérias-primas contribui para déficits comerciais brasileiros.”

Então deveríamos lamentar que não tenhamos dado ainda maior ênfase ao comércio com a América do Sul e a América Latina, pois esses são os nossos mercados possíveis de manufaturados para compensar a queda dos preços dos primários. Nossa indústria de bens de capital, por exemplo, não pode competir tecnologicamente a não ser nos mercados sul-americanos e, em parte, africanos. Foram os dois mercados que, desde Lula, a inteligente política do Itamaraty valorizou. Não temos outra alternativa estratégica porque não temos tecnologia em bens de capital para concorrer com americanos e alemães em outras regiões do mundo.

Quarto ponto: “Crise à parte, descaso de fundo ideológico com os EUA se reflete no comércio externo.”

Nosso “descaso” com os EUA, de janeiro a agosto, representou um déficit comercial de US$ 5,8 bilhões para com eles. Até o fim do ano, o déficit representará cerca de US$ 10 bilhões. Acaso O Globo imagina que se o futuro Governo fizer um acordo de livre comércio com os Estados Unidos, como pretende a Fiesp, suas exportações para nós crescerão menos que as importações? Ou simplesmente nos levarão à quebra, esgotando as reservas cambiais que fizemos graças às exportações para a China?

Note-se que, desde 2010, os discursos inaugurais de Obama a cada ano repetem o objetivo estratégico de dobrar as exportações norte-americanas a cada cinco anos. É um dos poucos objetivos econômicos do Governo americano que vêm sendo cumpridos religiosamente. Por outro lado, seria interessante que Globo e Fiesp prestassem atenção nos discursos de encaminhamento ao Congresso dos acordos de livre comércio com o grupo da Aliança do Pacífico. A premissa invariável é que se trata de um instrumento para “aumentar as exportações e o emprego” nos EUA, não as importações. A propósito, todos os países da Aliança do Pacífico entraram em déficit comercial no ano passado, o que continua este ano.

Quinto ponto: “Brasil voltou a ser essencialmente um grande exportador de matérias primas.”

É verdade. Esse foi o país herdado dos tucanos que se limitaram a uma aliança literária com os EUA tendo em vista os predicados acadêmicos de FHC muito valorizados no norte. Essa situação, que perdura, pode ser revertida mediante uma aliança econômica estratégica com a Unasul e os BRICS, principalmente a China, pela qual será possível deslocar o eixo do nosso desenvolvimento para o sul, tendo em vista a estagnação do norte. É nossa única alternativa, tendo em vista o visível esgotamento do ciclo capitalista ocidental e a dinâmica asiática.

Já expus aqui a tese que venho defendendo com outros economistas de fora e mesmo de dentro do Governo: fazer um grande acordo de suprimento de metais para a China mediante industrialização de recursos naturais no Brasil e no resto da América do Sul, com financiamento chinês dessa industrialização garantido por contratos de suprimento de longo prazo desses metais. Com isso, ajudaremos a China a lidar com seus problemas de escassez de água, de energia e de poluição, e mobilizaremos as mais importantes bases de recursos naturais que temos para industrialização na própria região com rigoroso controle ambiental.

A alternativa da Fiesp é simples: fazemos um acordo de livre comércio com os EUA e outro com a União Europeia, entregamos nossa indústria à sanha de uma competição com recursos tecnológicos muito superiores aos nossos, destruímos o que resta de emprego na área e nos entregamos, por algum tempo, à autofagia de nossas reservas até seu completo esgotamento e a crise cambial. Durante esse tempo os barões da Fiesp terão vendido para americanos e europeus suas indústrias, que serão convertidas em braços comerciais de matrizes estrangeiras. E o Brasil que se dane!

 

*Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB.

9 Comentários

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Wagner

- 2015-01-28 13:21:09

O último industrial
O último industrial brasileiro, Antonio Ermírio de Moraes já morreu a algum tempo!

Eurico

- 2014-09-29 13:23:30

Sobre a proposta do Professor Assis

Penso que é a coisa mais lúcida que que já li nos últimos anos.  Uma aliança estratégica do Mercosul com  a China. Ambas as partes sairiam fortalecidas. E isto não precisaria ser em detrimento das relações comerciais com o resto do mundo.  Só penso que nossos empresários estão tão viciados em especulação financeira que perderam sua capacidade de agirem como empresários industriais, competentes e competitivos.  Vejam o que fizeram com os subsidios da desoneração das folhas: nada, ou melhor, devem ter duplicado o dinheiro no mercado de títulos do próprio governo.  Faremos isto de novo ou algo parecido?  Penso que é melhor começar a importar empresários da China e outros países.   Um belo exemplo de entrada no mercado brasileiro está sendo dado pela Midea, uma empresa Chinesa relativamente nova.  No  seu ritmo ela deve massacrar os empresários da linha branca em poucos anos.  Só não o fará se estes forem salvos, mais uma vez, pelo governo.  Pois importemos outros empresários chineses e não criemos dificuldades para os que  já estão vindo, como o Baidu, mesmo porque, pelo menos eles não vão nos espionar para os  Estados Unidos, talvez o façam para a China.

Flics

- 2014-09-28 21:40:44

Adorei...

... estes argumentos... 

Motta Araujo

- 2014-09-28 21:37:49

Os agentes economicos aqui ou

Os agentes economicos aqui ou em qualquer lugar agem em função de SINAIS que indicam uma POLITICA ECONOMICA com começo, meio e sfim, É preciso essa sinalização para que os empresarios possam fazer seus calculos e privisões com um minimo de segurança.

O segundo Governo Lula e o atual Governo Dilma NÃO TEVE E NÃO TEM uma politica economica conhecida, não há nenhuma estrategia visivel.

Um sinal que a longo prazo traz efeitos é a politica externa. Quando essa politica começa a

sair dos trilhos de uma articulação com a ordem global, o sinal que se dá é ruim, porque a cada ano parece que a ideologia prevalece sobre a estrategia e caminha-se em direção a

um atalho de rupturas que quando se percebe não tem mais volta.

O exemplo classico da Venezuela é impressionante, US$1,5 trilhão de dolares de receitas de petroleo foram desperdiçados pelo regime bolivariano, hoje a Venezuela é muito mais pobre do que em 1998 quando Chavez tomou o poder, o pais está sem reservas , com sua infra estrutura de petroleo detonada por completo, não há mais moeda estrangeira para importar comida e itens basicos, as linhas aereas sairam do Pais porque não conseguem converter o dinheiro das vendas de passagens, a pouca industria que havia foi destruida pelas estatizações, o Pais está importando gasolina dos EUA porque as refinarias estão sucateadas, metade da produção de petroleo vai direto para a China que já pagou 10 anos adiantado portanto não paga mais nada pelo petroleo, um Pais em estado pior do que se tibesse sido bombardeado, os empresarios veem essa referencia como uma linha estatizante-esquerdizante-populista que vem aumentado a cada ano de governo petista. Essa sinalização DESISTIMULA novos projetos e investimentos

porque não se vê nos Ministerios economicos personagens com forte curriculo comprometido com economia de mercado, o numero de marxistas historicos aumenta a cada ano no Palacio do Planalto e no Ministerio da Fazenda cercando a Presidente, são sinais negativos e que não constroem confiança. Faltam nomes peso pesados, de claro compromisso com a ordem economica global e com a economia competitiva, nos Ministerais cruciais que regem a economia. Lula fez isso no primeiro mandato mas perdeu-se a receita.

No primeiro Governo Lula havia essa segurança pela presença de Palocci e Meirelles, Roberto Rodrigues, Furlan, havia um linha de equilibrio entre o publico e o privado,

havia uma estrategia e uma politica economica clara, hoje não existe mais.

Se não houver essa indicação o segundo mandato Dilma poderá ser desastroso para a economia e as consequencias politicas serão consequentes a um periodo de decadencia,

desconfiança e declinio do Pais. O empresariado está hoje em estado de muita desconfiança com o circulo intimo da Presidente, esquerdistas raivosos que clamam por mais intervencionismo, mais controle da micro economia, mais antiamericanismo.

Na Argentina nos ultimos seis meses fecharam em Buenos Aires 350 restaurantes, falta carne e o Pais afunda a cada mês. Exemplos ruins na faltam, a esquerdização é sempre uma ruina anunciada, estamos em um momento psicologico critico na economia.

 

Mariano S Silva

- 2014-09-28 21:17:32

Comentariozinho pleno de

Comentariozinho pleno de ideologia e isento de argumentação consistente!

wendel

- 2014-09-28 17:07:58

Não gostam...................

E sendo assim, este esclarcedor artigo, não pode agradar aos americanófilos de plantão!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Falar em abrir mercados longe do Tio Sam e UE,é como dar um soco nos rins destes  pelegos!!!!!!!!!!!!!!!!!

Orlando Soares Varêda

- 2014-09-28 16:07:25

  A direita brasileira é uma

 

A direita brasileira é uma das mais burras e entreguista do planeta. Vivessem nos estados unidos da america do norte, apodreceriam em cana por crime de traição à Pátria.

Orlando

Motta Araujo

- 2014-09-28 14:12:06

Titulo sem sentido, com má

Titulo sem sentido, com má sintaxe, texto confuso e ilogico, superficial e sem elaboração.

alexis

- 2014-09-28 13:40:03

BRASIL VS. BRAZIL

Apenas o BNDES parece ser o motor que impulsiona ou direciona as atividades para os caminhos planejados pela nação. Os industriais “privados” não parecem dispostos a seguir estratégias de Governo, mas apenas as políticas ditadas desde fora, pelo mundo global.

O Governo optou pela execução de grandes obras estruturantes (PAC), fazendo uma bela contribuição ao objetivo final esperando que por aí se encaixe o setor privado. E este não quer ser encaixado. O PIG e os setores do atraso ainda estão a demonizar qualquer presença estatal na economia, pois sabem que é exatamente por aí o caminho de saída para o desenvolvimento do Brasil, dentro de uma democracia. 

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