5 de junho de 2026

A ferida Moro pode ser útil para incomodar um presidente que resiste a dividir poder, por Alon Feuerwerker

A defesa do morismo tem sido criminalizar a coisa toda para, no limite, estancar a divulgação e, quem sabe?, responsabilizar criminalmente os jornalistas. Na linha do que está acontecendo com Julian Assange.

A ferida Moro pode ser útil para incomodar um presidente que resiste a dividir poder

por Alon Feuerwerker

em seu blog

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

É arriscado estabelecer linhas de defesa que possam ser facilmente penetradas pelo oponente. Mas de vez em quando é o que dá para fazer.

Pressionados pelas revelações do Intercept, a Lava-Jato e o ministro da Justiça, Sérgio Moro, montaram com certa rapidez a defesa em quatro pilares:

1) Foi invasão ilegal de privacidade
2) O material não necessariamente é autêntico
3) O material pode ter sido adulterado
4) Em resumo, trata-se de crime e de criminosos

Invadir e capturar mensagens privadas é crime, mas há jurisprudência pela legalidade de o jornalista divulgar material obtido fora da lei por terceiros, e a avaliação de interesse público é exclusiva do jornalista.

Há anos a Lava-Jato e Moro ajudam a consolidar esse entendimento.

A defesa do morismo tem sido criminalizar a coisa toda para, no limite, estancar a divulgação e, quem sabe?, responsabilizar criminalmente os jornalistas. Na linha do que está acontecendo com Julian Assange.

Difícil, mas não impossível num Brasil de jurisprudências flutuantes ao sabor das conveniências políticas.

A isso o Intercept reagiu com uma manobra tática: dividiu as informações com um veículo institucionalmente prestigiado. Não mais só um “site”, mas agora também um importante jornal. Foi manobra de alto risco, pois a Folha de S.Paulo poderia ter analisado o material e recusado jogar seu nome na empreitada.

O jornal procurou as mensagens trocadas pelos seus repórteres com a Lava-Jato, e elas estavam ali. E se não estivessem? Que garantia tinha o Intercept de ter recebido todo o material em poder da fonte? Ou que o material não fora mexido antes de ser repassado ao Intercept?

O risco se pagou, pois a esta altura não bastará mais neutralizar o Intercept, o que já era tarefa complexa. O governo, a Lava-Jato e Moro estão diante de um novo teatro de operações.

Uma guerra prolongada, com baixa probabilidade de transformar rapidamente a defensiva em ofensiva.

Moro e a Lava-Jato conhecem bem a efetividade de divulgar em capítulos, de dar corda para os envolvidos se enrolarem nas próprias explicações.

A esta altura, aquela primeira linha de defesa foi furada em dois dos quatro pontos e um terceiro balança. Sobrou só a certeza de invasão ilegal de privacidade.

Mas este é um problema de quem invadiu: se for pego vai sofrer as consequências. A esperança das autoridades na berlinda talvez fosse associar o Intercept à invasão e aí matar dois coelhos de uma vez.

Mas agora, mesmo nesse cenário a Folha muito provavelmente continuaria a empreitada por si.

O que levará a Lava-Jato e Moro a uma situação complicada, conforme for se consolidando a certeza de a coisa ter andado fora da cartilha.

Com um detalhe: mesmo se o STF decidir por um bom tempo não decidir nada, o governo não tem base própria no Congresso. E este pode ter encontrado um caminho para causar problemas maiores ao governo.

Antes do Intercept, o Legislativo estava algo emparedado. Sua principal retaliação à concentração de poder no Executivo parecia ser… aprovar a pauta econômica do Executivo!

Uma vingança muito relativa, convenhamos.

Agora, em algum momento, deputados e senadores podem concluir que cutucar a ferida Moro pode ser útil para incomodar um presidente resistente a dividir poder.

Há um risco, claro, pois Moro é popular. Mas viver é correr riscos, e no ambiente parlamentar quem está disposto a lutar cresce.

E tem o STF. E desta vez vale muito a tese de que de cabeça de juiz ninguém tem ideia do que vai sair.

Alon Feuerwerker – jornalista e analista político/FSB Comunicação

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

4 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. republicano arrependido

    23 de junho de 2019 10:17 pm

    os alertas se multiplicam por oportunismo tb
    mas é bom ficar de olho e nãp baixa ra guarda
    e continuar lutando para que a verdade enfim
    de estabeleça contra as infamais criadas
    por essa
    direita inominavel….

  2. Armando luiz de paula

    23 de junho de 2019 10:59 pm

    Moro diz que Foi invasão ilegal de privacidade por um hacker, penso que ele equivocou-se. Penso que quem vazou foi um dos participantes do grupo dele do telegram. Porque não?

  3. jcordeiro

    23 de junho de 2019 11:02 pm

    Nassif: eu deixaria sangrar, até cansar. Não foram eles quem desestabilizaram o governo anterior, agravando uma crise que já mostrava sinais de recuperação? Pariu Mateus, embalem, Querência de CruzAlta e asseclas. Voces não tinha a solução, imediata, rapida e definitiva pro problema? Tão reclamando do quê? Quanto aos facínoras togados (e semitogados), apertem os caras. Ponham em presídios comuns. Pois são bandidos comuns. Hora, também, de limpar os sabujos do Príncipe de Paris. Aquele que matou o Reitor, cana nele. Só o japonês deveria ficar soltinho. É folklórico. No Çupremu, Cabeleira, Barrentão, Fação, a Matriarca dos Addams, o Boneco de Ventríloco e Rosinha (minha Canoa), rua, sumariamente. Kojak e o amigo íntimo do Príncipe de Paris ficariam sob observação. No Congresso, só ficam aqueles do 1/4 da Casa. Que o resto ou é corrupto ou ladrão. Da caserna, limpa os VerdeSauvas (de Major prá cima), tira aquelas frutas podres que contaminam o balaio. Os graduados que sobrarem haverão de repor moral e decência numa corporação onde a traição política é uma constante. A grande mídia é outra que merece um chaqualhão. Não adianta tirar os do JardimBotânico e deixar o Cartel de Medelim deitando e reolando. Limpar os trastes dos Partidos (inclusive e principalmente os de esquerda).

    Tá na hora de limpar a eira. Por isto, deixe sangrar esses sacanas para, na hora do acerto, matar todos os coelhos safados numa só cajadada…

  4. Zé Sérgio

    24 de junho de 2019 9:46 am

    …Resiste em dividir o Poder…? Dividir o Poder, com quem? Com a Velha Política? Então é isto que realmente interessa? Voltar a botar as mãos no ‘ Talão de Cheques ‘? O que a Esquerda, os pseudo Socialistas, ‘ Lula Livre ‘ tem a oferecer ao país? O Estado Varguista?!!!! Seus Feudos, suas Gangues, a mesma Ditadura Secular Fascista fantasiada de Redemocracia? A Verdade é Libertadora.

Recomendados para você

Recomendados