A influência das igrejas nas eleições

Do Correio Braziliense

Quando o partido é uma igreja

ADRIANA CAITANO

Representando mais de um quinto da população brasileira, as entidades evangélicas mostram potencial para influenciar o resultado dos pleitos municipais, mas ainda não traduzem o número de fiéis em votos

Apesar de ser um país laico, ou seja, sem uma religião oficial, a estrutura política brasileira sofre uma forte influência de igrejas e religiosos, que se esforçam para chegar às esferas do poder e, consequentemente, ampliar a capacidade de difusão de suas crenças. Dos 30 partidos registrados no país, quatro carregam no nome, de forma explícita, a orientação religiosa e pelo menos seis são ligados a alguma igreja evangélica. E praticamente todas já se preparam para influenciar nos resultados das próximas eleições.

No Congresso Nacional, os evangélicos formaram, inclusive, um bloco suprapartidário. A Frente Parlamentar Evangélica conta com três senadores e 70 deputados — se fosse uma legenda, seria a terceira maior da Câmara. Não por acaso, no período eleitoral, as igrejas se transformam em vigorosos cabos eleitorais, que indicam candidatos aos fiéis durante os cultos e promovem reuniões políticas dentro dos templos. A justificativa padrão é “levar a palavra de Deus” aos espaços em que as decisões do país são tomadas.

A intensa participação política se explica pela elevada quantidade de fiéis-eleitores. De acordo com o mais recente Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 42,3 milhões de pessoas se declararam evangélicas — cerca de 22,2% da população brasileira. A igreja com mais fiéis é a Assembleia de Deus, 12,3 milhões de adeptos. Vinculada extraoficialmente a, no mínimo, quatro partidos políticos — PSC, PSDC, PTB e PEN —, a igreja orienta diretamente o voto de seus seguidores e tem até um conselho político para definir essas alianças. “Nós avaliamos os valores e a vocação das pessoas que pretendem atuar no cargo eletivo para indicá-las aos eleitores”, explica o presidente do Conselho Político da Convenção Geral das Igrejas Assembleia de Deus, pastor Lélis Washington Marinhos.

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De acordo com o pastor, o apoio é dado, preferencialmente, aos candidatos que são membros da igreja. “Quando há candidatos que não fomos nós que escolhemos, analisamos se eles se identificam de alguma forma com o que acreditamos, mas os que apontamos diretamente obedecem a critérios mais apurados”, disse Marinhos. Entre esses critérios estão os que o pastor chama de “princípios básicos da própria palavra de Deus”, como o repúdio ao aborto e ao casamento de pessoas do mesmo sexo. “Participar da política e ajudar os fiéis a decidir seus candidatos é uma questão de cidadania”, defende.

Projeto ousado
A Assembleia de Deus faz uma aposta alta para as eleições de outubro. “Nosso projeto é eleger pelo menos um representante em cada município”, revelou o pastor, que também tem argumentos prontos para rebater as críticas de quem não aprova a mistura da política com a fé. “As políticas são definidas a partir dos impostos recolhidos e o voto dá procuração para alguém administrar esses impostos. Também pagamos nossas contas, então, nada mais justo que estejamos entre os que administram impostos e elaboram políticas.”

Outra denominação que mantém estreita relação com a política é a Igreja Universal do Reino de Deus, com 1,8 milhão de adeptos no Brasil. A igreja do bispo Edir Macedo comanda o PRB, que faz parte da base de sustentação do governo da presidente Dilma Rousseff e indicou o ministro da Pesca, senador Marcelo Crivella. Assim como a Assembleia de Deus, a igreja fundada por Edir Macedo tem integrantes que cuidam exclusivamente das relações políticas e apontam de forma clara em quem os fiéis devem votar.

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Com rebanhos tão expressivos, as igrejas costumam pautar as disputas eleitorais, como aconteceu na eleição presidencial de 2010. A então candidata do PT, Dilma Rousseff, foi pressionada por causa de declarações feitas no passado que foram interpretadas como favoráveis ao aborto. O assunto dominou debates na TV e foi amplamente explorado pelos adversários da então candidata. “A gente não quer ser maioria, mas quer defender o que acha correto”, defende o deputado paranaense Fernando Francischini, evangélico que acaba de migrar do PSDB para o recém-criado PEN. Ele pretende fazer uma “triagem religiosa” na legenda. “Precisamos ter por perto gente que acredite em nossas bandeiras e que represente os valores da família.”

O braço religioso na política
» Partido Trabalhista Cristão (PTC) – Igreja Batista
» Partido Social Cristão (PSC) – Assembleia de Deus
» Partido Humanista da Solidariedade (PHS) – Igreja Batista
» Partido Social Democrata Cristão (PSDC) – Assembleia de Deus
» Partido Republicano Brasileiro (PRB) – Igreja Universal do Reino de Deus
» Partido da República (PR) – Igreja Universal do Reino de Deus e à Assembleia de Deus
» Partido Ecológico Nacional (PEN) – Assembleia de Deus
» Partido Trabalhista Nacional (PTN) – Igreja do Evangelho Quadrangular
» Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB) – Igreja Metodista
» Partido da Mobilização Nacional (PMN) – Igreja Batista

42,3 milhões
Quantidade de pessoas que se declararam evangélicas no último Censo

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