Chorando o Leite derramado, por Luis Felipe Miguel
É na hora do aperto que uma pessoa mostra seu valor – e um político, mais ainda. Se havia alguma dúvida sobre quem é Eduardo Leite, a tragédia no Rio Grande do Sul está dissipando.
Leite, para quem não lembra, despontou como aquele prefeito de Pelotas que teve uma ideia genial para reduzir custos: em vez de mandar todos os exames de câncer de colo de útero das usuárias do sistema municipal de saúde para o laboratório, passou a fazer por amostragem. Isso evidentemente o credenciou como grande gestor neoliberal e permitiu que fosse o candidato do PSDB ao governo do Estado, com o apoio da mídia e do empresariado.
Em 2018, elegeu-se na onda do bolsonarismo. Depois, com o governo do capitão chafurdando na irracionalidade, na corrupção e na incompetência, tentou se credenciar como “terceira via”, lutando para ocupar o espaço que João Doria imaginava ser seu.
A principal jogada de Leite nesse sentido foi assumir publicamente sua homossexualidade.
Nos anos 1970, Harvey Milk fez história como o primeiro candidato abertamente gay eleito na Califórnia (há um bom filme estrelado por Sean Penn que narra sua trajetória). Leite achou que seria o Milk brasileiro. Mais algo se perdeu na tradução.
Enquanto a Globo exaltava sua “coragem”, ativistas LGBT contabilizavam suas ações no combate à homofobia: zero.
Doria e Leite naufragaram juntos em suas pretensões terçoviárias. Amuado, o paulista cansou da brincadeira. O gaúcho encontrou forças para se eleger para um novo mandato. Os dois fizeram o jogo pilantra da neutralidade no segundo turno presidencial de 2022, o que marca bem a amplitude de seu compromisso com a democracia.
Questionado por não se posicionar quando um notório homofóbico concorria à presidência, Leite deu resposta que é um primor de cinismo: “Eu estou combatendo [o preconceito] na eleição daqui. O posicionamento é sobre os temas, não é só para a candidatura. Eu estou defendendo pontos de vista. Eu não preciso ser medido por essa régua estreita da eleição nacional”.
As enchentes de agora parecem ser, para ele, em primeiro lugar uma oportunidade para autopromoção. Não tem vergonha de se exibir para cima e para baixo com um colete alaranjado – andar de colete salva-vidas no seco é uma confissão de oportunismo.
Um colete da Defesa Civil, cujas verbas ele estrangulou.
É o Zelenski dos pampas, isto é, o sujeito que aproveita a tragédia para fazer cosplay de herói.
Claramente, ele está vendo a chance de se cacifar para ser vice de Tarcísio, numa chapa que a mídia vai chamar de “centro”. (O jornalismo brasileiro tem esse apreço por um centro tipo Garrincha, isto é, que joga na ponta direita.)
O problema é que Leite é inábil. Acumula entrevistas e laives, mas se desgasta a cada uma, com declarações desacertadas e insensíveis. Como esquecer aquela inacreditável fala reclamando das doações aos desabrigados, que estariam “prejudicando os comerciantes”?
Ao repetir, como fez uma vez mais no Roda Viva, que não devemos procurar culpados, denuncia sua intenção de não discutir as causas da enchente e, assim, continuar sacrificando a proteção ambiental em favor dos interesses empresariais. Na entrevista à Folha, ao dizer que tinha recebido alertas mas não se ocupou deles porque estava preocupado com “outras agendas”, fez uma confissão de incompetência.
O oportunismo se torna novamente explícito na proposta de adiar as eleições municipais no Rio Grande do Sul. Mostra também que ele sabe que a gestão da crise – dele e de seus aliados – está sendo desastrosa.
Não apenas pelo passado recente (os vetos à legislação ambiental, o desmonte da Defesa Civil), mas também pela resposta dada agora.
Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).
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Frederico Firmo
22 de maio de 2024 12:34 pmExiste uma diferença de visão significativa entre as ações e o planejamento do governo federal para as enchentes e as ações do governador Leite. Leite, o governador, já errou tudo que tinha que errar, já cometeu todos crimes administrativos e políticos que poderia cometer. Mas existe uma dinâmica já antiga na imprensa. Acostumada a campanhas ela foi dura e crítica com relação a uma frase de lula durante semanas. A campanha parou e o silêncio imperou quando frase se tornou comum na cena internacional sendo repetida por vários presidentes. Com relação a Leite não teremos isto. Para preservar a imagem a imprensa tinha que parecer crítica. Assim Leite compareceu ao Estúdio I e lhes fizeram perguntas duras. Esta entrevista foi o prenuncio de que Leite iria submergir e reaparecer sequer molhado. Logo a seguir uma pesquisa Quaest lhe deu popularidade e acusou os eleitores de idiotas. Ninguém mais fala das ações e menciona apenas culpabilidades abstratas. Logo a seguir as notícias já começam de novo de onde pararam. O foco da notícia é a busca pelo candidato ” bolsonarista moderado”. A chapa Leite e Tarciso vai se contrapor a qualquer candidatura cafe com leite. Isto tudo mostra mais uma vez que o campo neoliberal vê a tragédia do Rio Grande do Sul como uma oportunidade. Na política a grande imprensa vai cozinhar o galo até se chegar aquele ponto onde os problemas da população vão ser tão grandes que se poderá criticar todas as ações do governo Federal ou se culpará o brasileiro. Enquanto as ações governamentais estiverem funcionando, será apenas um jogo eleiçoeiro para lançar Pimenta. Quando as reclamações surgirem, e vão surgir, o governo será chamado de hipócrita. Contrariamente ao que ocorreu na pandemia, quando o governo Bolsonaro foi logo esquecido e hoje tem problemas apenas com um cartão de vacinas.A tragédia do RGS será culpa exclusiva de Lula e até de Dilma e sobretudo do PT. Leite e Sebastião Melo já compraram um escudo liberal contratando a Alvarez & Marsal que já está planejando a partilha do butim. Mas com o baixar das águas o foco da imprensa será a pauta fiscal novamente. Vão esperar os flagelados saírem das telas e manchetes, para aumentar a carga sobre a terrível gastança. Como diz Catanhede, pensando nas suas joias de natal: de onde sairá todo este dinheiro?. Mas enquanto isto de pesquisa Quaest em pesquisa Quaest, o candidato a vice de Tarciso, já está pronto para ser herdeiro de FHC. (Triste sina)
AMBAR
26 de maio de 2024 1:37 pmNão pode ser coincidência que tanto Milk, de São Francisco quanto o Leite, do Rio Grande sejam vetores de tragédias históricas. Das intenções de Eduardo Leite aliar-se a Tarcísio, amigo interessado que pode ser inimigo íntimo, ele já pode ir dando adeus. Ele vai mais atrapalhar que ajudar. Quando sua biografia vier à tona, especialmente nesse episódio : – “Leite, para quem não lembra, despontou como aquele prefeito de Pelotas que teve uma ideia genial para reduzir custos: em vez de mandar todos os exames de câncer de colo de útero das usuárias do sistema municipal de saúde para o laboratório, passou a fazer por amostragem.” – , todo o eleitorado feminino vai se voltar contra ele.