Cuiabá e Várzea Grande: a política no berço da cuiabania
por Adilson V. de Oliveira, Natacha Chabalin, Leomir Lemos, Flávio Siqueira, Raimundo França e Telmo Antonio Dinelli Estevinho
Cuiabá e Várzea Grande são cidades gêmeas e, juntas, somam um quarto do eleitorado mato-grossense, bem como um quarto da população do estado. Além disso, são cidades que são consideradas o berço da cuiabania (termo associado às marcas culturais mais antigas do Mato Grosso, mas, também, do domínio da política mato-grossense em torno de Cuiabá), traço que tem sido determinante na disputa pelo poder político em Mato Grosso. Em outras palavras, não se “consegue vencer as eleições” para governador sem um diálogo e/ou uma composição com as forças políticas dominantes da cuiabania. Neste contexto, as eleições deste ano em Cuiabá e Várzea Grande são determinantes para 2026.
As eleições para prefeitos de Cuiabá e Várzea Grande apresentaram resultados que fugiram do script estabelecido por todas as análises, contrariando as pesquisas realizadas até as vésperas das eleições. As pesquisas apontavam margem considerável de vantagem à candidatura de Eduardo Botelho (União Brasil), e indicavam Lúdio Cabral (PT) e Abílio Brunini (PL) em disputa na segunda posição para um eventual o segundo turno, com percentuais muito próximos entre eles.
Para a vereança, em Cuiabá, o resultado não trouxe muitas novidades em relação à representação partidária, apresentando grande fragmentação e com forte inclinação ao campo ideológico de direita, o que já era um fato da Legislatura que se encerra. Mesmo o Partido Socialista Brasileiro (PSB), um dos três campeões de voto para Câmara de Vereadores, é um partido que tem sido historicamente aliado à direita na cidade.

A grande novidade na eleição para o Legislativo cuiabano ficou por conta da ampliação do número de cadeiras ocupadas por mulheres, quando comparado à atual Legislatura. Foram eleitas oito mulheres, significando um aumento de 300% em relação à eleição de 2020. Neste sentido, as mulheres vão representar 30% da Casa Legislativa de Cuiabá na próxima Legislatura, estando a maioria das eleitas em partidos situado à direita.
Em Várzea Grande, as pesquisas apontavam uma vitória consolidada de Kalil Baracat (MDB), apoiado pela tradicional família Campos (senador Jaime Campos e deputado estadual e ex-governador Júlio Campos), que exerce, há muitas décadas, influência sobre o comando do executivo várzea-grandense, com poucos momentos de interrupção. Todavia, quando apurado o resultado da eleição, eis que aparece como vencedora do pleito a candidata Flávia Moretti (PL), ancorada no apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro e com discurso de renovação e enfrentamento à família Campos.
Em relação à eleição para Legislativo várzea-grandense, também não houve muitas novidades, em grande medida o resultado tem muita semelhança com desfecho eleitoral para Câmara de Cuiabá, isto é, alta fragmentação partidária e com forte domínio dos partidos de direita, que elegeu a maioria dos vereadores.

No que toca à representação feminina no Legislativo, ao contrário de Cuiabá, em Várzea Grande as mulheres não alcançaram o mesmo êxito, respondendo por apenas 13% dos eleitos para o posto de vereador.
Em síntese, as eleições em Cuiabá e Várzea Grande confirmaram a capacidade de influência de Bolsonaro em transferência de votos, pois seus dois candidatos foram os mais votados nas duas cidades, com a adesão clara destes candidatos à sua figura. A direita foi a grande vencedora do pleito, com o PL, que ganhou a eleição em Várzea Grande e é forte candidato à vitória no segundo turno em Cuiabá.
A presença de Lúdio Cabral (PT) pode ser apontada como uma grande surpresa, haja visto que as pesquisas não confirmavam sua presença no segundo turno, especialmente pela rejeição do eleitorado cuiabano ao PT e baixa adesão ao Lulismo.
O governador, Mauro Mendes (União Brasil), viu seu candidato em Cuiabá, que era favorito em todas as pesquisas, ser derrotado e não chegar ao segundo turno, mesmo tendo todo apoio do governo estadual, uma maior coligação e tempo de TV, e recursos financeiros mobilizados. Tal fato colocou em dúvida a capacidade do governador em transferir votos, mesmo sendo bem avaliado em todas as pesquisas. Um dado a ser ressaltado é que o eleitorado em Cuiabá apresenta um histórico no qual costuma rejeitar os candidatos apoiados pelos governadores.
Os Campos saíram fortemente derrotados nestas eleições, num contexto em que os dados indicavam a eleição de Kalil Baracat (União). Mesmo para o Legislativo várzea-grandense, os candidatos apoiados pelos irmãos Campos não alcançaram êxito.
Importante destacar a presença do ministro Carlos Fávaro (PSD) no contexto da eleição cuiabana, pois ele levou o PSD a uma aliança com o PT, tendo sua filha, Rafaela Fávaro, como candidata a vice-prefeita na chapa composta por Lúdio Cabral (PT). Embora não se possa atribuir efeitos diretos do peso político do ministro na consequente ida de Lúdio Cabral ao segundo turno, não se deve desprezar o seu empenho para a campanha de Lúdio Cabral. Afinal, Fávaro sabe que, numa eventual candidatura à reeleição ao Senado, havendo três ou mais candidatos, suas chances de conquistar uma das duas vagas passam a ser reais. Além disso, conseguiu projetar sua filha no contexto da política mato-grossense.
Outro dado interessante: mesmo com o candidato do PT, Lúdio Cabral, tendo obtido mais de 90 mil votos e assegurado sua vaga no segundo turno, o partido não fez nenhum vereador, indicando uma dificuldade na sua relação com o Legislativo municipal caso seja eleito.
Quanto ao segundo turno em Cuiabá, as duas candidaturas tendem a utilizar estratégias de moderação até o dia da eleição, isto é, Abílio Brunini empregará um posicionamento menos radical à direita, mas focará no embate direita e esquerda, tentando capturar parte do centro. Lúdio Cabral adota um discurso menos radical à esquerda e menos vinculado ao PT, evitando a rejeição ao seu partido e também focado na estratégia para conquistar fatias do eleitorado de centro. Além disso, ele deve explorar o comportamento considerado instável de Abílio Brunini e, com isso, apostar no voto útil à sua candidatura.
Adilson V. de Oliveira, é doutor em Ciência Política, membro do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal (LEGAL) e professor do IFMT (Instituto Federal do Mato Grosso).
Natacha Chabalin é doutora em Ciência Política, membro do LEGAL e professora da UFMT (Universidade Federal do Mato Grosso).
Leomir Lemos é cientista político e mestrando em Sociologia pela UFMT. Flávio Siqueira é advogado e mestrando em Sociologia pela UFMT.
Raimundo França é doutor em Ciência Política, coordenador estadual do LEGAL, professor da Unemat (Universidade do Estado do Mato Grosso) e diretor da ABCP – Centro-Oeste.
Telmo Antonio Dinelli Estevinho é doutor em Ciências Sociais e professor adjunto da UFMT.
Este artigo é parte das análises realizadas pelo Observatório das Eleições 2024, iniciativa do INCT-IDDC.
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