4 de junho de 2026

Deus e o diabo na terra da Globo, por Saul Leblon

Fernando Frazão/Agência Brasil

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Enviado por Webster Franklin

Da Carta Maior

Deus e o diabo na terra da Globo

Há 60 anos do suicídio de Vargas, o conservadorismo reedita em farsa a tragédia. Ensaia um simulacro de catarse nacional varguista em torno da morte de Campos.

po: Saul Leblon

O conservadorismo brasileiro já viu o poder escorrer pelos dedos algumas vezes. Mas nunca de forma tão abrupta como há 60 anos, quando Getúlio Vargas cometeu o suicídio político mais demolidor da história em 24 de agosto de 1954.

Chocada com a morte de um governante que preferiu renunciar à vida a abdicar do mandato como exigia o cerco virulento das elites, a população foi às ruas em um misto de consternação e fúria para perseguir e escorraçar porta-vozes do golpismo contra o Presidente.
A experiência da tragédia abalou o cimento da resignação cotidiana. No Rio de Janeiro, a multidão elegeu a dedo o seu alvo simbólico: cercou e depredou a sede da rádio Globo que saiu do ar.

Carros de entrega do diário da família Marinho foram caçados, tombados, queimados nas vias públicas. Prédios de outros jornais perfilados no ultimato pela renúncia conheceram a força da ira popular.

Com a mesma manchete do dia anterior, atualizada pela fatalidade, os exemplares do único jornal favorável ao governo, o Última Hora, eram disputados nas esquinas por uma população desesperada, perplexa, em luto.

A tiragem extra de 850 mil exemplares, providenciada a toque de caixa pelo editor Samuel Wainer, sustentou a declaração premonitória de Getúlio 24 horas antes. Agora, porém, revigorada pela mão do editor: “O presidente cumpriu a palavra: ”Só morto sairei do Catete!”.

O resto é sabido.

O sacrifício impôs duro recuo ao golpismo que só executaria seu plano original de tomar o poder dez anos depois, em 1964.

Passados exatos 60 anos da morte de Vargas, o conservadorismo brasileiro reedita agora uma trama ainda mais ousada.

Construir um simulacro de catarse nacional varguista a seu favor, emprestando à justa consternação pela morte de Eduardo Campos uma dimensão histórica que ela não tem.

Assim como a de Tancredo Neves também não teve.

Ambas por uma razão difícil de abstrair: nem um, nem outro personificaram, de fato –e assumidamente– um polo da correlação de forças em disputa pelo comando da sociedade e do desenvolvimento brasileiro.

Vargas, ao contrário, encarnara um divisor real, consagrado nas urnas de outubro de 1950, de forma esmagadora, apesar do asfixiante boicote que lhe foi imposto pela mídia.

Na resposta ao cerco, a campanha de Vargas levaria uma frota de caminhões a cruzar o país munida de caixas de som e filipetas.

Em cada morada do voto fazia-se a ampla distribuição de panfletos. Neles, a promessa revolucionária –para a época– de um Brasil nacionalista e de feição popular.

Quatro milhões de eleitores deram seu voto a esse desassombro; o dobro dos obtidos pelo ‘brigadeiro das elites’, Eduardo Gomes.

Iniciou-se, então, aquilo que passou à historia como o ‘segundo Vargas’, para se diferenciar de seu primeiro ciclo no poder, iniciado com a revolução de 1930, que se estendeu pela ditadura de 37.

O ‘segundo Vargas’ criou o BNDE (sem o ’s’ ainda) em 1952; a Petrobrás em 1953, no auge da campanha ‘o petróleo é nosso’ ,e decretou um aumento de 100% do salário mínimo no 1º de Maio de 1954.

Era uma rota de colisão incontornável.

Ao mesmo tempo em que espetara as estacas necessárias à dimensão industrializante da soberania nacional, com infraestrutura, restrições à mobilidade do capital estrangeiro e expansão do mercado interno, Vargas atraía as espirais de um cerco de interesses que hoje, como ontem e sempre sonegaram legitimidade a um dinâmica de desenvolvimento inclusiva.

Só uma grosseira remodelagem da história poderá atribuir a Eduardo Campo ou a seu avatar feminino idêntica importância histórica.

Nem mesmo com sinal trocado.

Campos, antes e, ao que tudo indica, Marina de agora em diante, transitam num espaço de ambiguidade resultante do fracasso conservador em tornar palatável a restauração neoliberal no país, após 12 anos de governo do PT.

Seu candidato do peito, José Serra, mostrou-se indigesto ao eleitor por duas vezes e, por fim, ao próprio partido. O digerível Aécio Neves antes mesmo do embicar no aeroporto da fazenda do tio Múcio, bateu num teto baixo em torno de 20% dos votos, insuficiente para arrastar Dilma ao 2º turno.

A delicada operação em curso consiste em dar abrangência nacional-varguista à comoção do povo pernambucano pela perda do líder que governou o estado por duas vezes; e de transferir esse sentimento para uma terceira persona, Marina Silva, de modo a injetar competitividade eleitoral em uma quarta, Aécio Neves, e assim provocar uma segunda volta às urnas na base do ‘todos contra Dilma’.

Não surpreende que a ‘providência divina’ seja evocada para costurar esse frankenstein histórico.

Nessa alquimia destinada a produzir um adversário sobre-humano, uma junção de vivos e mortos para derrotar Dilma, caminhamos perigosamente do êxtase para o delírio conservador.

Não é preciso esfalfar neurônios para imaginar quem será o núcleo diretor dessa superprodução destinada a reeditar em farsa a tragédia de 54.Vargas, ao contrário, encarnara um divisor real, consagrado nas urnas de outubro de 1950, de forma esmagadora, apesar do asfixiante boicote que lhe foi imposto pela mídia.

A persistir a ladainha das últimas horas, ingressaremos num degrau grotesco de manipulação da opinião pública para sustentar o que se pretende a partir de um fato gerador que não o comporta.

Glauber Rocha que entendia a força do misticismo na sociedade brasileira sem dúvida trabalhou esses elementos de forma mais complexa do que a encenação grotesca que se anuncia como realidade.

Glauber morreu há 33 anos, em 22 de agosto de 1981. Tinha apenas 42 anos de idade, mas aos 25 já havia realizado Deus e o Diabo na Terra do Sol.

O filme estrearia no Rio de Janeiro três dias depois do lendário comício da Central do Brasil e duas semanas antes do golpe de 64.

‘Deus e o Diabo’ guarda a atualidade de uma metáfora da encruzilhada brasileira, uma sociedade mergulhada em contradições estruturais dilacerantes mas sem força transformadora para efetivar as famosas ‘reformas de base’.

No filme, o vaqueiro Manoel encarna o povo brasileiro, a ‘massa pobre’, diria Glauber. Injustiçado pelo coronel para quem trabalhava,  Manoel depois de mata-lo e ser perseguido engaja-se sucessivamente na procissão desesperada do beato Santo Sebastião e no bando de Lampião.

Mas não encontrará  redenção nessas manifestações primitivas de rebelião, que Glauber valorizava como uma ruptura com o racionalismo bem comportado e inócuo diante da opressiva ordem dominante.

O cinema do premiado diretor de ‘Terra em Transe’, porém, não hesitava também em denunciar os limites dessa chave alternativa,  expondo-a no paradoxo de uma estética aflitiva na qual os personagens parecem presos ao chão enquanto a câmera se move vertiginosamente ao seu redor.

Deus e o diabo se confundem na terra  do sol, parece nos dizer Glauber. A figura dilacerada do jagunço Antônio das Mortes, talvez o personagem matricial da sua saga, dividido entre a consciência social e a obrigação pistoleira, é a síntese dessa tragédia.

Mas nem tudo é ambiguidade. Pelo menos isso o cinema de Glauber, deixou claro em relação ao país: ‘Deus nos deu  a vida;  o Diabo inventou o arame farpado’, dizia .

A farsa em curso nos dias que correm visa justamente embaralhar esse divisor.

Quer  vender  arame farpado como sinônimo de redenção da vida brasileira.
 
A ver.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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12 Comentários
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  1. edna baker

    19 de agosto de 2014 11:58 am

    Aquilo não foi um enterro mas

    Aquilo não foi um enterro mas um comício. Por quanto tempo esse comício-enterro circulará pela mídia!

    1. Celio Mendes

      19 de agosto de 2014 2:45 pm

      Enquanto tiverem esperança de

      Enquanto tiverem esperança de provocar um segundo turno vão apelar para Deus e o diabo.

  2. IV AVATAR

    19 de agosto de 2014 12:14 pm

    Dois lacerdistas contra uma varguista

    No momento temos dois candidatos da UDN, Marina e Aécio, cuja equipe econômica é a mesma, contra uma da política varguista representada por Dilma

    1. aliancaliberal

      19 de agosto de 2014 12:38 pm

      UDN Aécio e Marina, Varguista

      UDN Aécio e Marina, Varguista Dilma, é sério Avatar?

  3. Mário Mendonça

    19 de agosto de 2014 12:44 pm

    Nassif
    Não nos esqueçamos que

    Nassif

    Não nos esqueçamos que possuimos um plano B, que pode ser startado a 20 dias das eleições…..

    Hoje começa a “Aberração Eleitoral”

    Aguardemos o andar da carruagem….

    1. Raí

      19 de agosto de 2014 2:17 pm

      Se a “carruagem” for obstruída…

      O PT, tem preparado este “plano B” para qualquer eventualidade, e este “trator” se for colocado para entrar em ação, certamente esmagará a todos, sem a menor dificuldade, embora eu particularmente ache, que devemos guarda-lo, para 2018.

  4. Maria Silva

    19 de agosto de 2014 1:53 pm

    Quando a gente fica

    Quando a gente fica indignada com tom carnavalesco e festivo do funeral,  alguns dizem que  é normal em enterro de politico. Eu não acho. A mensagem que passa é outra. É a cara do oportunismo do PSB e de seus aliados, querendo tirar proveito, a todo custo, dessa morte injusta. A familia nada pode fazer, pois o morto parece que não  mais lhe pertencia.

  5. Raí

    19 de agosto de 2014 2:13 pm

    Estaríamos mesmo, precisando de “Redenção”?

    As alternativas colocadas pelo Saul, no final do seu excelente artigo, de estarmos na iminência de escolhermos entre “a redenção” que nos teria sido dado por Deus, e “o arame farpado” vendido pelo PIG, em forma de ameaça de apocalípse,com a catarse que a nação brasileira estaria passando, e que se for continuada com esta mesma forma de governo, nos levaria ao precipício.

    Historicamente sabemos que depois do governo popular e voltado à maioria dos brasileiros, do Getúlio Vargas, que tambem foi patrulhado pela direita, demorou 60   anos, para que uma nova governança voltada ao social, chegasse ao Palácio do Planalto, e fizesse em  anos, o que em mais de 115  anos de República, outros Presidentes, não fizeram.

    A consternação nacional, em tôrno do falecimento fatídico de um candidato à sucessão, que efetivamente não oferecia adversidade na disputa, aos mais cotados, a comoção dos seus conterrâneos, no seu sepultamento, o aproveitamento descarado desta fatalidade, por quem quer ficar com a sua(dele E.C)herança política, e o sensacionalismo da grande imprensa brasileira, dão a impressão, que esta hipotética 4ª via, seria a salvação nacional, e todos sabemos, que isso é um embuste, cuja aceitação do nome, pelo partido que deu-lhe a jegenda(que ela mesma admite, é provisória, e útil enquanto é necessária) nem é unânime.

    Apartidariamente analisando, não dá pro eleitor minimamente antenado e convícto do nosso atual estágio sócio-economico, trocar esta “redenção” à qual ganhamos em 2002, e que deve continuar avançando, por “arames farpados” travestidos de modernidade.

  6. Lineu Ignacio

    19 de agosto de 2014 3:31 pm

    globo

    prezado colunista

     

    deixe o povo julgar a globo.

    Seu comentario não é necessário.

     

    peça para o povo   deixar de assistir a globo.

     

  7. altamiro souza

    19 de agosto de 2014 7:13 pm

    bela síntese:
    querem nos

    bela síntese:

    querem nos vender arame farpado  para redimir-nos.

    quremm nos vender a ideia de boa Jestão Tucana para praticar um estelionato contra o trabalhador.

    vendem falácias para continuar em seus monumentais palácios.

  8. agincourt

    19 de agosto de 2014 8:35 pm

    Dragão da Maldade

    “Há 60 anos do suicídio de Vargas, o conservadorismo reedita em farsa a tragédia. Ensaia um simulacro de catarse nacional varguista em torno da morte de Campos.”

    Saul, quem ensinou a lição para a cambada política de Pindorama foi justamente o próprio Getúlio ao propagandear um crime passional – os pipocos de João Dantas em João Pessoa – em crime político e “casus belli”.

    O bom do militonto petista é que sempre tem resposta pronta: ”É culpa da Globo, nosso onipotente Dragão da Maldade”.

  9. Heart

    19 de agosto de 2014 10:03 pm

    Em 5 anos de democracia,
    Em 5 anos de democracia, Getúlio fez o que os neofascistas não fizeram em 21 anos de ditadura.

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