Diplomado presidente da República, Lula lembra de seu passado e se emociona

Patricia Faermann
Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile, repórter de Política, Justiça e América Latina do GGN há 10 anos.
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Emocionado e com a voz embargada, Lula lembra de sua primeira diplomação e é oficialmente considerado presidente da República eleito

Foto: Reprodução TSE

Emocionado, com a voz embargada e lágrimas na abertura de seu discurso, Lula é diplomado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nesta segunda-feira (12). Ao lembrar do discurso de sua primeira diplomação, enfatizando as mesmas palavras utilizadas naquele final de 2002, ainda em retrospectiva à perseguição sofrida e prisão, Lula reafirmou o compromisso com o país e a honra de ser escolhido pelos brasileiros pela terceira vez.

“Na primeira diplomação, lembrei da ousadia do povo brasileiro por conceder a alguém que não tem diploma universitário o diploma de presidente”, falou, interrompendo a frase pela emoção, e pedindo desculpas pelo choro: “Quem passou pelo que eu passei, sabe que Deus existe e que o povo brasileiro é maior.”

Ainda ao entrar no palco, foi recebido no Plenário do TSE amplamente aplaudido e ovacionado pela plateia com: “Boa tarde, presidente Lula”, em referência aos cumprimentos da “Vigília Lula Livre“, acampamento formado por militantes nos 580 dias de sua prisão.

A cerimônia de diplomação oficializa o resultado das urnas e é um rito oficial importante, que autoriza Lula tomar posse no próximo dia 1º de janeiro. A sessão teve início pouco após às 14h, no plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em sessão presidida pelo ministro Alexandre de Moraes.

“Antes de iniciar a leitura do meu discurso, eu quero, em nome do meu partido, que vocês saibam que esse diploma que recebi é o diploma de uma parcela significativa do povo que reconquistou o direito de viver dignamente nesse país. Vocês ganharam esse diploma.”

O discurso proferido por Lula foi plural, empenhado na reestruturação democrática, com o diálogo entre as esferas, no presidencialismo junto ao Congresso e ao Judiciário. Em claras referências ao retrocesso e às táticas empregadas pelo seu adversário, Jair Bolsonaro, com a violência política, a disseminação de Fake News e tentativa de não aceitação dos resultados das urnas, o presidente eleito também falou sobre a ruptura democrática que significou a atual gestão.

Como referência dos lemas da transição da ditadura do regime militar do país, Lula falou que é preciso, mais uma vez, “tirar lição desse período recente, para que nunca mais esquecemos, para que nunca mais isso aconteça”.

“Poucas vezes, a democracia esteve tão ameaçada e a vontade popular foi colocada tão à prova. A democracia não nasce por geração espontânea, precisa ser semeada, cultivada, para que a colheita seja generosa para todos. Mas a democracia precisa ser todos os dias defendida, daqueles que tentam a todo custo sujeitá-la a seus interesses financeiros e ambições de poder.”

Sobre Bolsonaro, disse que ele deixou no país um “legado perverso, que recai sob a população mais necessitada, com o ataque sistemático às instituições democráticas”. Mas que “não são características exclusivas do nosso país”, e que há um “imenso desafio” a ser enfrentado pelo mundo, em referência aos ataques às democracias e avanços da ultradireita global. “Talvez mais difícil [o desafio atual] do que após a Segunda Guerra Mundial, que usam e abusam com a manipulação, disseminação de mentiras, uma máquina de ataques à democracia que não tem pátria, nem fronteiras.”

Diante disso, ressaltou que “a importância do Brasil nesse cenário global é inegável” e que o país será capaz de liderar esse enfrentamento, buscando uma “legislação internacional mais dura e mais eficiente” e “de insituições fortes e representativas, com um eficiente sistema de pesos e contrapesos, que iniba qualquer aventura eleitoral”. “Precisamos de coragem”, completou.

“É com o compromisso de construir um verdadeiro estado democrático que recebo, pela terceira vez, o diploma de presidente eleito do Brasil, em nome da liberdade, da dignidade e da felicidade do povo brasileiro, muito obrigado”, concluiu.

Na plateia

Cerca de 1.000 pessoas foram convidadas, mas estima-se que pouco menos da metade estiveram presentes. Na plateia, entre os apoiadores de Lula, representantes de, ao menos, 14 partidos que formaram aliança à chapa de Lula e Alckmin. O primeiro a entrar no Plenário, o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, também foi amplamente aplaudido de pé.

Nas primeiras filas, a ex-presidente Dilma Rousseff; o ex-presidente José Sarney; a presidente do PT, Gleisi Hoffmann; o escolhido ministro da Fazenda Fernando Haddad; Marina Silva, cotada para o Ministério de Meio Ambiente; Guilherme Boulos, que deve assumir algum posto no Ministério do Desenvolvimento Regional; o senador Jean Paul Prates, cotado para a Presidência da Petrobras; os advogados de Lula Cristiano Zanin e Eugênio Aragão.

Também estiveram presentes diversos parlamentares aliados, como o deputado Marcelo Freixo (PSB); Paulo Pimenta (PT), o relator-geral do orçamento Marcelo Castro (MDB), Randolfe Rodrigues (Sustentabilidade); Paulo Teixeira (PT), Orlando Silva (PCdoB), e também representantes da centro-direita, como Omar Aziz (PSD).

Nas cadeiras do palco, os presidentes do TSE, Alexandre de Moraes; Rosa Weber do Supremo Tribunal Federal, Rodrigo Pacheco (PSB) do Senado, Arthur Lira (PP) da Câmara, o vice-presidente do TSE, Ricardo Lewandowski; a ministra Carmen Lúcia; o corregedor-geral eleitoral Benedito Gonçalves; o ministro Raul Araújo do STJ; ministro Sérgio Banhos do TSE; o ministro Carlos Horbach do TSE e o procurador-geral eleitoral Augusto Aras.

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