É uma luta que sempre foi pacífica, diz liderança indígena sobre acampamento que ocupará Brasília nesta semana

Para indígenas, uso das Força Nacional de Segurança solicitada pelo ministro Sérgio Moro demonstra incapacidade do governo Bolsonaro de conviver com a democracia e respeito aos povos indígenas

Ato indígenas do ATL em Brasília. Imagem: EBC

Jornal GGN – Cerca de 10 mil índios de comunidades de todo o Brasil são aguardados na 15ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL) deste ano, que será realizado pela primeira vez sob um cenário de tensão com o governo federal, desde sua primeira execução, em 2004.

A Articulação Nacional dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), organizadora do evento, confirmou no início do mês as datas em que o acampamento acontecerá em Brasília: entre os dias 24 e 26 de abril. Os grupos começaram a desembarcar na capital na noite do dia 23.

Preocupado com o encontro, o governo federal autorizou, por assinatura do ministro Sérgio Moro, a Força Nacional a realizar a segurança da Esplanada dos Ministérios e da Praça dos Três Poderes por 33 dias, período em que coincide com o evento indígena e com o 1º de maia, quando várias organizações sindicais realizarão protestos contra o desmonte de leis trabalhistas e da previdência.

A marcha do Acampamento Terra Livre, que já virou tradição e acontece todos os anos no mês de abril, teve origem na reivindicação pela demarcação de terras indígenas e garantia de direitos à população. Agora, no governo Bolsonaro, o grupo inclui protestos contra a transferência da Funai para o recém criado Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, comandado por Damares Alves, e a mudança da atribuição de demarcação de terras indígenas para o Ministério da Agricultura.

“[Desde a mudança] seguiu-se uma série de ataques e invasões articuladas contra as terras indígenas, perseguição e expressão de racismo e intolerância aos nossos povos e nossas vidas”, pontua a Apib em nota.

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Os indígenas se mobilizam também contra o desmonte da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI). No final de março, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, decidiu transferir para estados e municípios o atendimento à saúde da população indígena.

Ao se manifestar sobre o Acampamento Terra Livre, o presidente Jair Bolsonaro comentou durante uma live nas redes sociais que o evento anual será um “encontrão” pago com o dinheiro de contribuintes.

“Vai ter um encontrão de índios agora, semana que vem. Tá sendo previsto (sic) 10 mil índios aqui em Brasília. E quem vai pagar a conta dos 10 mil índios que vêm para cá? É você [contribuinte]”, atacou Bolsonaro. “Queremos o melhor para o índio brasileiro, que é tão ser humano quanto qualquer um de nós que está na sua frente aqui. Mas essa farra vai deixar de existir no nosso governo”, completou na tentativa de amenizar o discurso.

Em resposta à fala do presidente, a coordenadora-executiva da Apib, Sonia Guajajara, demonstrou a falta de conhecimento de Bolsonaro sobre a origem dos recursos captados para a realização da marcha anual.

“Nós nunca tivemos financiamento com dinheiro público ou apoio de governo federal. Em todos os anos, fazemos uma campanha de arrecadação para promover o encontro e instalar o acampamento”, disse à Folha de S.Paulo.

Sobre o uso da Força Nacional na Esplanada, Guajajara destacou que é “a primeira vez que ocorre comportamento antecipado de tentar impedir a chegada das delegações. É uma forma clara de impedir uma manifestação”, ponderou.

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Em entrevista à Rádio Brasil Atual, o líder indígena Lindomar Terena, integrante da Apib, avaliou que a convocação da Força Nacional de Segurança demonstra incapacidade do governo de conviver com a democracia e respeito aos povos indígenas.

“É um contexto diferente, em que o Estado se posiciona declaradamente contra os direitos dos povos indígenas. É evidente que não vamos sair da nossa região para afrontar alguém, vamos lá defender o nosso direito, o futuro das nossas gerações. Agora, uma vez que o Estado decreta por 33 dias o uso da Força Nacional, dizem eles que é para cuidar do patrimônio público, quando na verdade demonstra a incapacidade de diálogo no sentido de cumprir o que diz a Constituição Federal brasileira”, afirmou terena pontuando que os protestos sempre ocorreram de forma pacífica.

“Não vamos confrontar, mas não vamos recuar. Não é nesse governo que os povos indígenas vão abaixar a cabeça e dizer amém para eles”, registrou o líder.

Lindomar pontuou ainda que o evento fará defesa do meio-ambiente e da natureza, além das reivindicações que a população indígena tradicionalmente cobra do governo, como a demarcação e segurança de seus territórios.

“Tudo isso dentro da lei. É uma luta que sempre foi pacífica, sempre foi buscando o que está escrito na Constituição Federal brasileira”, completa o integrante do Conselho do Povo Terena.

2 comentários

  1. O Moro já demonstrou que conhece pouco a língua portuguesa e agora prova que desconhece a história do Brasil. Os pacíficos indígenas brasileiros foram responsáveis (com todo mérito) pelo alargamento do território nacional, especialmente quando usados como guias nas missões de Entradas e Bandeiras. Além de não reconhecidos, tomam-lhes as terras anteriormente demarcadas; fecham-lhes as portas do Planalto porque sabem que vão reivindicar a devolução dessas terras subtraídas; porque vão exigir mais respeitos à política ambiental; porque vão mostrar que suas verdades não batem com as “verdades” do nosso antipresidente. Inventam que os índios darão despesas – com essa “farra” – como se o eventual deslocamento de militares para uma missão inócua de 33 dias fosse uma operação gratuita.

  2. As Tribos Indígenas que estão espalhadas pela cidade de São Paulo e no entorno da Capital, em cidades próximas e na Serra do Mar, fizeram manifestações por Demarcações de suas terras. A Imprensa deu pouca ou nenhuma cobertura. ONG’s, Funai, Entidades de Direitos Humanos e Partidos Socialistas, fingiram que nada sabiam. Demarcação de terras no berço da moderna Esquerda Brasileira, de Tucanos a Petistas? Demarcação de terras para contestar a residência de Moradores da Cidade e propriedades valorizadas? A Canalhice e Hipocrisia são as marcas destes 88 anos de Estado Fascista Esquerdopata Ditatorial prolongados nestes farsantes 40 anos Redemocráticos. Onde está o Direito dos Povos Indígenas do Pico do Jaraguá e Serra do Japi? E dos Povos de Parelheiros? E dos Povos em Itanhaém, Vale do Ribeira, Ubatuba? Conheceis a Verdade. E a Verdade Vos Libertará.

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