Com apenas 3% da população global, o Brasil registrou 11% das mortes por coronavírus no mundo. Quando o País registrava pouco mais de 500 mil óbitos, um estudo da Universidade Federal de Pelotas mostrou que 4 a cada 5 vidas perdidas poderiam ter sido salvas se o governo federal, sob Jair Bolsonaro (PL), tivesse adotado uma postura alinhada à ciência durante a pandemia.
Ao contrário disso, Bolsonaro pregou contra o uso de máscaras e o isolamento social, colocou as vacinas sob suspeição e propagandeou remédios sem eficácia comprovada. O resultado disso são as 688 mil mortes por Covid até outubro de 2022.
Buscando a reeleição, Bolsonaro tem desfilado uma série de mentiras, omissões e manipulações nos debates na TV quando o assunto é pandemia. O GGN levantou, e contrapôs com dados e fatos, as falas mais recorrentes de Bolsonaro sobre a pandemia – com exceção da compra de respiradores pelo Consórcio Nordeste, que é tratada nesta matéria aqui.
Confira as 6 maiores mentiras que Bolsonaro conta sobre a pandemia:
1 – O Brasil não atrasou vacinas?
O que Bolsonaro fala: “Não existia vacina em 2020. A primeira vacina foi aplicada [no exterior] em dezembro de 2020. Em janeiro de 2021, o Brasil começou a vacinar.”
Os fatos: O Brasil poderia, sim, ter começado a vacinar mais cedo, se Bolsonaro não tivesse enrolado para responder às várias ofertas que recebeu em 2020.
Aí vai um histórico importante que Bolsonaro desconsidera: o mundo começou a vacinar em 8 de dezembro de 2020, mas o Brasil só deu a primeira dose em 17 de janeiro de 2021. Até 31 de dezembro de 2020, cerca de 50 países aplicaram a vacina, e o Brasil ficou de fora da lista! Àquela altura, 200 mil brasileiros já tinham perdido a vida para a doença, e Bolsonaro – travando uma batalha de egos com o então governador paulista João Doria – dizia que não estava “com pressa” para comprar imunizantes. O atraso custou vidas e também a retomada da economia.
A bem da verdade, o Brasil poderia ter sido um dos primeiros países do mundo a vacinar a sua população. Isto porque o Butantan ofereceu a vacina chinesa Coronavac ao Ministério da Saúde em julho de 2020, e refez a oferta mais duas vezes: em agosto de 2020, e depois em outubro de 2020 (100 milhões de doses, sendo 45 milhões delas entregues até dezembro de 2020). Mas Bolsonaro não quis, e de quebra, passou a atacar a segurança da vacina chinesa.
Bolsonaro só foi comprar Coronavac em 7 de janeiro de 2021 (46 milhões de doses, com opção de compra de mais 54 milhões, mas agora com outro cronograma: a entrega só seria concluída entre agosto e setembro de 2021). Um hiato de seis meses entre a primeira proposta e o que foi decidido por Bolsonaro.
2 – O Brasil comprou e vacinou rápido?
O que Bolsonaro fala: “Compramos mais de 500 milhões de doses. O Brasil foi um dos países que mais vacinou no mundo e em tempo mais rápido.”
Os fatos: Bolsonaro adiou o quanto pôde a compra de vacinas e ainda deixou rolar propina na compra da Covaxin (que teve de ser suspensa). Colocando a segurança das vacinas em xeque, atrapalhou o plano nacional de imunização, que ocorreu devagar e de maneira desigual no País.
Vamos lembrar o histórico das compras de vacinas: o primeiro acordo anunciado foi em junho de 2020, uma parceria de Oxford com a Fiocruz para produzir a Astrazeneca. Acertaram 100 milhões de doses. Um mês depois, em julho de 2020, o Butantan fez a primeira de três ofertas da Coronavac e não teve resposta. Em agosto de 2020, a Pfizer fez a primeira (70 milhões de doses) de uma série de ofertas ao governo Bolsonaro, que ignorou dezenas de e-mails. Quando o caso veio a público, Bolsonaro usou a seguinte desculpa: as cláusulas do contrato da Pfizer eram “leoninas”. A partir de agosto de 2020, Bolsonaro começa a repetir incansavelmente que vacinar é uma escolha, não uma obrigatoriedade, e usa até as redes sociais da SECOM para espalhar a nova doutrina.
Em outubro de 2020, o então ministro da Saúde Eduardo Pazuello finalmente decide comprar Coronavac, mas foi desautorizado por Bolsonaro, que rejeitou a “vacina chinesa do João Doria”. Bolsonaro ainda disse que a Coronavac causaria “morte, invalidez ou anomalias”. Diante da demora em comprar vacinas, o Supremo Tribunal Federal intimou o governo Bolsonaro a apresentar o plano nacional de imunização (PNI). Pressionado, no começo de dezembro de 2020 Pazuello anuncia acordo com a Pfizer.
Somente em 17 de janeiro de 2021 – 6 meses depois da primeira oferta do Butantan – é que a Anvisa libera o uso emergencial da Coronavac e da Astrazeneca. O contrato com a Pfizer (quase 100 milhões de doses) e também com a Janssen (38 milhões de doses únicas) só foram assinados em março de 2021. A CPI revelou que o atraso para comprar as vacinas tinha como pano de fundo um esquema de corrupção no Ministério da Saúde, com agentes do governo Bolsonaro tentando negociar propina em cima de cada dose de Covaxin.
Depois de dois anos de pandemia, estudiosos apontaram que a vacinação ainda era lenta – e até possibilitou o surgimento de novas variantes do coronavírus – e não homogênea, com Sudeste e Sul levando vantagem, enquanto bolsões se formavam no Norte e interior do Pais.

3 – Lula celebrou o coronavírus?
O que Bolsonaro fala: “Lula deu graças a Deus que a natureza criou a Covid.“
Os fatos: Lula não celebrou a criação do vírus que, só no Brasil, matou 688 mil pessoas. Na verdade, a frase foi tirada de contexto por Bolsonaro.
Lula disse que “ainda bem” que, com o surgimento natural do coronavírus, a sociedade brasileira entendeu que é o “Estado” quem garante atendimento em saúde pública quando o povo mais precisa. Porque, sem o SUS minimamente estruturado, não haveria condições de enfrentar a pandemia. O uso desvirtuado da declaração de Lula pela campanha de Bolsonaro foi até proibido pelo TSE.
4 – Não teve corrupção na pandemia?
O que Bolsonaro diz: “A Covaxin não vendeu nenhuma vacina ao Brasil. Não teve corrupção porque não teve essa vacina.”
Os fatos: O governo Bolsonaro assinou, sim, documentos para importar a Covaxin, e até empenhou mais de 1 bilhão de reais. Depois, correu para suspender a compra. A CPI desvendou os detalhes do esquema de corrupção que foi batizado de Covaxingate.
Foi o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello quem, em março de 2021, anunciou uma megacompra de 580 milhões de doses de vacinas com vários laboratórios, incluindo a fabricante da vacina indiana Covaxin. O Ministério da Saúde expediu várias vezes pedidos de importação da Covaxin, mesmo sem autorização da Anvisa.
Quando Pazuello foi exonerado, seu sucessor no cargo, o ministro Marcelo Queiroga, correu para suspender o acordo com a Precisa Medicamentos, a representante da indiana Bharat Biontech no Brasil. O governo Bolsonaro chegou a empenhar 1,6 bilhão de reais para comprar a Covaxin, que era 50% mais caras que a Pfizer.
O esquema começou a ruir quando um dos servidores da Saúde decidiu falar à CPI. Ele foi pressionado a assinar uma nota fiscal em inglês (invoice) e achou tudo muito estranho. O servidor e seu irmão, o deputado federal Luiz Miranda, foram até Bolsonaro relatar pessoalmente as suspeitas de corrupção. Bolsonaro admitiu estranheza, e vislumbrou envolvimento de Ricardo Barros, líder do governo na Câmara. Barros já foi ministro da Saúde do governo Temer, quando privilegiou a Precisa Medicamentos com contratos suspeitos.
Para piorar a história, agentes do governo Bolsonaro também teriam negociado propina de 1 dólar por cada dose da Covaxin. E mais: o fundo de crédito usado pela Precisa para dar “garantia” na transação, na verdade, era um banco formado por “laranjas” e “sem lastro” financeiro para honrar qualquer cobrança. Bolsonaro só não sofreu impeachment pelo Covaxingate porque o Orçamento Secreto já estava na praça.
5 – Nada há contra Bolsonaro e Pazuello?
O que Bolsonaro diz: “A CPI não achou nada sobre mim ou Pazuello, porque nada devemos.“
Os fatos: Bolsonaro foi denunciado na Corte de Haia várias vezes pelo crime de genocídio na pandemia. Seu ex-ministro, Pazuello, responde em solo nacional.
No mínimo, a CPI da Covid no Senado mostrou que Bolsonaro prevaricou e praticou crime contra a humanidade na condução da pandemia. Somente no Tribunal Penal Internacional, foi denunciado várias vezes e condenado simbolicamente pelo Tribunal Permanente dos Povos. No Brasil, Bolsonaro também foi indiciado pela CPI, e só não sentou no banco dos réus porque é blindado pela Procuradoria-Geral da República de Augusto Aras.
Quanto ao general Eduardo Pazuello, a CPI o indiciou por vários crimes – prevaricação, epidemia com resultado em morte, emprego irregular de verbas públicas, falsa comunicação de crime e crime contra a humanidade – e o Ministério Público Federal abriu investigação com base na lei de improbidade administrativa, alegando que o então ministro foi omisso e negligente em Manaus. Mas a Justiça usou mudanças na lei de improbidade administrativa para rejeitar a denúncia, apesar da “gravidade” dos fatos.
6 – Crise em Manaus não é problema de Bolsonaro?
O que Bolsonaro diz: “Não era nossa atribuição levar oxigênio para Manaus.”
Os fatos: O governo Bolsonaro foi omisso na crise da falta de oxigênio medicinal em Manaus (AM), mesmo sabendo com antecedência que o problema iria estourar.
Em vez de trabalhar por mais leitos de UTI e cilindros de oxigênio medicinal, o time do então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, usou Manaus como laboratório do “kit covid”. Durante a pandemia, enviou mais de comprimidos de cloroquina à região e pressionou a Secretaria Estadual de Saúde a usar o “tratamento precoce”. Enquanto a mídia cobrava o governo, Pazuello patrocinava festas regadas a uísque em sua casa. Confrontado pela ex-esposa, ele teria dito que estava preocupado em “contar os sacos pretos”. Artistas tiveram de se mobilizar pela compra de oxigênio. A Venezuela também fez doações ao Brasil para ajudar. A CPI colheu indícios de que o governo Bolsonaro soube com dias de antecedência que a crise iria acontecer por falta do insumo, e não se planejou para contornar o problema.
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Jotapontomarcelo
28 de outubro de 2022 2:45 pmCíntia,Cintia,Cintia muito show este texto,bem elaborado até lembra(vagamente,acho)uma apresentação tipo Power point,dez dez dez está dinâmica de perguntas e respostas comparativas no quadrado colorido uau,uau,uau !!!