Desculpem, mas dá para ganhar
por Gilberto Maringoni
1. O RESULTADO DAS ELEIÇÕES deste 2 de outubro é impactante em vários aspectos. O primeiro e mais evidente é o da falha gritante das pesquisas: elas não captaram a força do bolsonarismo e de seus agregados na sociedade brasileira.
2. O BRASIL É MUITO MAIS CONSERVADOR do que supunha nossa vã filosofia. Para qualquer um, que se paute por um pensamento democrático e progressista, é chocante ver gente como Hamilton Mourão, Sérgio Moro, Deltan Dallagnol, Ricardo Salles, Mario Frias, Damares Alves, Magno Malta e semelhantes serem consagrados pelo voto popular. Temos aqui o enraizamento social da extrema-direita após os quase 700 mil mortos da pandemia, os 33 milhões com fome, a apologia das armas e de tudo o mais. O fascismo não nos é mais um corpo estranho; foi naturalizado. Ao mesmo tempo, esse é o país que gera o fenômeno Boulos, que trafega em sentido contrário, com um milhão de votos.
3. ENTENDER COMO e porque isso acontece é tarefa dura e longa. Interessa saber como essa brutalização da vida social se torna atraente para milhões de pessoas.
4. SOMOS UM PAÍS TREMENDAMENTE DESIGUAL, com a maioria dos trabalhadores fora do mercado formal, sem direitos trabalhistas (ou de cidadania), mal formados (pela exclusão educacional proporcionada pela precariedade da escola pública), mal informados (por redes sociais e por uma mídia que não está aí para isso), sem tempo para o lazer, brutalizada pela dura batalha do dia a dia e sem perspectiva de futuro. Somos, além disso, uma coletividade fragmentada, marcada por um individualismo atroz, na qual há raros incentivos para que se estabeleçam laços de solidariedade.
5. SOMOS, ENFIM, UMA SOCIEDADE em que o lumpesinato tem enorme peso em sua composição e em que o favor, o compadrio e o ódio são manifestações usuais nas relações humanas. Esse estilhaçamento comunitário, potencializado pelo desmonte do mundo do trabalho ao longo de quatro décadas de neoliberalismo nos torna sensíveis a um tipo de liderança salvacionista e inorgânica – uma espécie de neopopulismo – , capaz de direcionar vontades e de transformar a raiva social em força política. Esse é o resumo do resumo do caldo de cultura que possibilita a ascensão do bolsonarismo. E isso nós – alinhados a um pensamento democrático e progressista – ainda não conhecemos totalmente.
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6. QUE SOCIEDADE É ESSA cujas vontades não são captadas pelas sondagens de vários institutos? Ou melhor, que pesquisas são essas que não conseguem apreender e tabular preferências imediatas? Como é possível que siga se repetindo o fenômeno notado na eleição do Rio de Janeiro de 2018, que possibilitou a um desconhecido até a última semana de campanha se tornasse governador? A situação se generaliza, com o quadro paulista, que inverte a folgada dianteira aferida em favor de Fernando Haddad em sua disputa com Tarcísio de Freitas a poucos dias da votação.
7. O BOLSONARISMO OCULTO – ou envergonhado – é fenômeno que desafia as estatísticas. Ao lado da arrogância dos que exibem armas na cintura estão aqueles que sentem vergonha de se declararem eleitores de Bolsonaro fora da solidão da urna. Por que isso acontece?
8. EM SITUAÇÕES NORMAIS – ou seja, num estudo acadêmico e fora das eleições – tais constatações podem gerar copiosas teses de doutorado. Aqui se trata de avaliar resultados das urnas com um propósito definido: ganhar no segundo turno.
9. SE ERRARAM EM BOA PARTE das disputas estaduais, as pesquisas acertaram em cheio a votação nacional de Lula. Os prognósticos davam entre 47% e 51% de votos ao ex-presidente. Ele terminou o enfrentamento com 48,43% dos válidos. Faltou 1,57% dos sufrágios para uma vitória perfeitamente possível em primeiro turno! O equívoco das pesquisas ficou no segundo colocado. Segundo os institutos, Bolsonaro teria entre 37% e 41%. Ele terminou com 43,2%, ou 5,23% atrás do ex-presidente. Em números redondos, quase 6,2 milhões de votos atrás.
10. O SEGUNDO TURNO É UMA NOVA ELEIÇÃO. A vantagem aberta por Lula o coloca de saída em condição de vantagem. A soma do eleitorado de Ciro e de Simone Tebet totaliza 7,2%. É uma incógnita saber para onde penderão esses quase 7,6 milhões de eleitores, decisivos para o resultado final. Na hipótese – agora fluida – das pesquisas – todas – estarem corretas, Lula derrota Bolsonaro.
11. EXAMINANDO OS APOIOS ESTADUAIS, a vantagem se inverte. Apoiadores de Bolsonaro ganharam em 9 estados no primeiro turno (AC, DF, GO, MG, MT, PR, RJ, RO e TO), que somam 49.115.309 eleitores. Partidários de Lula levaram em 6 (AP, CE, MA, PA, PI, RN), onde vivem 23.592.589 eleitores. A comparação mostra que o bolsonarismo não é fenômeno dos grotões. Em 12 estados a contenda se resolverá na segunda volta (AL, AM, BA, ES, MS, PA, PE, SC, SE, SP, RO, e RS). Nesse último grupo haverá campanha acirrada dos presidenciáveis com os candidatos locais. Não se sabe como se comportarão os demais, onde o placar local está decidido.
12. A LUTA SERÁ DURÍSSIMA. É possível Lula ganhar no dia 30. Para isso, a campanha bem que poderia mudar de tom.
13. A PRIMEIRA COISA SERIA ABOLIR o passado e o salto alto nos discursos. Chega de “No meu governo o povo tinha isso e mais aquilo”. O que passou, passou e agora é hora de se dizer claramente o que será feito. Vai ter comida para todo mundo? Se tiver, vai ser barata? Vai ter emprego? Com salário de quanto? A gasolina ficará com o preço baixo? Minhas dívidas vão ser resolvidas? Vai ter saúde? Como resolver? Não é o eleitor quem tem de responder, mas a campanha.
14. TEREMOS UMA CAMPANHA COM COMÍCIOS que se parecem com shows do Rock in Rio, nos quais a plateia assiste, se deleita e vai para casa? Ou haverá um mínimo de chamamento à mobilização? Vai ter material? Anunciaram lá atrás um comitê voltado para essas coisas. Vai ter? A campanha de TV sairá do pieguismo brega do início, ou manterá o tom de combate dos últimos dias? Vão ficar repetindo feito matracas que Bolsonaro tem 51 imóveis comprados com dinheiro vivo ou uma equipe de reportagem irá atrás de pelo menos dois ou três e mostrará o valor, onde ficam, se são de luxo ou não? Ou seja, ficarão na conversa ou farão como a Globo agiu no caso do sítio de Atibaia, atribuído a Lula? Ali mostraram dos pedalinhos às torres dos cabos de internet, passando pelo laguinho doméstico. A campanha será concreta ou doutrinária?
15. ACIMA DE TUDO, é preciso termos uma jornada empolgante, que convoque as pessoas à luta por mais votos. Lambamos as feridas deste fim de semana para a batalha que se aproxima. Será dura, mas valerá a pena.
Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].
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Observador atento
3 de outubro de 2022 7:50 amProfessor, tudo que o clã bolsonarista quer é este tipo de comentário, o de que “os institutos de pesquisa erram feio”. Não porque eles possuem métodos escusos e esta turma quer consertá-los, mas é disso que eles sobrevivem, de manchetes, de teorias da conspiração e etc. O óbvio e ululante é que grande parte do gado bolsonarista boicotou as pesquisas, se recusando a respondê-las, e claro que, quando não ouvimos todos neste tipo de metodologia, seu resultado é ferido de morte. Este boicoto foi armado e executado para exatamente pós eleição o bozo levantar esta bandeira e usar isso como um símbolo de perseguição. Porém eles imaginavam ganhar no 1° turno. Resta agora a mídia honesta e a esquerda compreender esta estratégia e desarticular para que esta não seja uma bandeira para uma virada no 2° turno.
Antônio Uchoa Neto
3 de outubro de 2022 7:54 amDesculpem, mas o povo brasileiro é uma bosta.
Gabriel Monteiro, cassado e pedófilo, elege pai e irmã no Rio; Ricardo Salles, contrabandista de madeira, teve o triplo de votos de Marina Silva em SP; Pazuello, responsável pela morte de mais de 300 mil brasileiros na pandemia, se elegeu no Rio; dentre outras tantas desgraças, algumas citadas no post, outras não.
A Terceira via, que antes era o antilulismo (ou antipetismo) que não ousava dizer o nome, é agora o bolsonarismo que não ousa dizer o nome. Mais alguns degraus abaixo na (in)evolução do ser humano, espécime brasil.
E talvez, lá na frente, sejamos obrigados a agradecer a Bolsonaro, por ter sido o responsável por essa espetacular saída do armário do fascismo brasileiro. No que diz respeito à classe média e média alta, é claro, pois o pobre de direita (e eu moro em bairro pobre de Salvador, estou cercado por eles, de todos os lados), vítima de uma ignorância e incapacidade cognitiva que sequer sabe que existe e o domina, proclama seu bolsonarismo aos quatro ventos, com orgulho. Bolsonaro está, ainda que sem querer, revelando o verdadeiro (mau) caráter de boa parte desse enigmático animal de hábitos hedonísticos e imensurável estupidez: o brasileiro.
Bom, tudo bem: digamos que eu teria feito melhor se começasse esse comentário dizendo: Desculpem, mas boa parte (metade?) do povo brasileiro é uma bosta. É que ontem lembrei-me de uma antiga reportagem especial da Rede Globo, na voz de William Bonner, uma daquelas matérias apologéticas, melosas, sobre “a maravilha de povo que esse país tem”; palavras do Bonner, que retive na memória, bem como o tom de voz igualmente meloso, sabujo.
Ele tinha razão de dizer isso. É uma maravilha de povo – especialmente o público alvo dele, as já mencionadas classes média e média alta, que declara nas pesquisas voto em Tebet e Ciro, e, diante da esfinge-urna, digita 17 (em 2018) e 22 (ontem). É uma maravilha de povo, essas classes média e média alta, que, na hora H, diante do horror de ver Lula ganhar a eleição em 1º turno (traduzindo: ver voltar negros e pobres às universidades, aos aeroportos, aos shopping centers, etc.,etc.,etc.) cede ao desejo, consciente ou inconsciente, de eleger quem os proteja dessas desgraças.
Desculpem, mas que bosta de classe média e média alta que nós temos.
Quanto ao povo de verdade, só me resta usar as palavras bíblicas: Perdoai-os, Senhor, eles não sabem o que fazem.
Ainda assim, eu acredito, não em Deus, mas na matemática, e Lula vence no 2º turno. A menos que mais uma leva de insuspeitos enrustidos saia do armário.
Sei não, depois dessa, eu acredito em qualquer coisa, de Saci Pererê à classe média humana, consciente, e solidária.
Anônimo
3 de outubro de 2022 8:21 amExcelente artigo, alguém , por favor, envia p o Lula!!!!!
Pelo amor de Deus!
Sonia Maria Soares
Zeca Neiva
3 de outubro de 2022 9:09 amÉ, definitivamente vivemos em uma sociedade reacionária escravista. Além disso, supondo que Lula vença, como governar num mar bolsonarista mesmo sem Bolsonaro? Desesperador!
Phelipe Higgins
3 de outubro de 2022 10:56 amNão vejo nenhum analista político explicando o efeito da ascensão de Bolsonaro contrariando as pesquisas que apontavam diferença entre os dois de 8 a 10 pontos percentuais. Não, as pesquisas não estavam erradas. Lula só não levou no primeiro turno, pois fez um comentário desrespeitoso com o pessoal do interior paulista, sua frase infeliz: “Parece um capiau do interior paulista”. Com essa frase tirou votos de si mesmo, levando uma surra no interior de Sâo Paulo e mostrando quão raso e vulenerável é o voto do eleitor. Mexeu com os brios do interiorano de Sâo Paulo e sacou de si votos que iriam garantir a margem de erro que o elegeria no primeiro turno…..
Jose Geraldo Vieira da Costa
3 de outubro de 2022 1:57 pmLula é a última resistência na luta contra a necrose política que se iniciou em 2018 e se aprofundou em 2022. O próximo Congresso a ser empossado reunirá as criaturas mais cruéis, canalhas, hipócritas, violentas e corruptas que este país já produziu. Lula precisará reunir todas as forças progressistas em torno de uma aliança programática e ainda terá que compor com as eventuais dissidências da direita moderada e centro. Mas acima de tudo terá que fazer um governo austero e sem corrupção com o povo mobilizado o tempo todo. Será provavelmente o seu governo mais difícil.
Zezinho
3 de outubro de 2022 6:27 pmO Brasil está rachado.
Brasil contra o Brasil.
20% de abstencoes. Quinta parte dos eleitores inscritos. Os pobres evangélicos foram mobilizados pelas igrejas. A esquerda precisa mobilizar o eleitorado pobre, faminto, com trabalho precário.
Sair da bolha das redes. Enfiar o sapato no barro.
Anônimo
4 de outubro de 2022 8:53 amBom ler Maringoni ! Há correções na campanha que percebi, mas como votei no Lula, Haddad e Psol, não percebia que certas táticas não estavam funcionando para garantir o 1.turno !
Ivone Estrela dias
4 de outubro de 2022 7:16 pmÉ preciso descobrir um a maneira de alcançar o seguimento evangélico para diminuir esse onda de manipulação.
Luiz alberto Melchert de carvalho e Silva
7 de outubro de 2022 8:30 amOs omentários mostram que os leitores estão mais inteirados do que o autor. A questão é, como eu pus na mainha última matéria, a revolução evangélica, que sugiro ao autor. As rteligiões evangélicas arrasaram, por exemplo, a cultura afro. Hoje, pertencer aos ritos africanos é visto como pertencer ao diabo. Até mesmo os ritmos africanos tornaram-se pecaminosos. Em pouco tempo, já não teremos escolas de samba, que se tornarão instrumento do demo. Ao tirar as tradições da maioria de nossa população, ficou fácil impor um pensamento individualista e cópia do calvinismo americano. As igrejas evangélicas, não a religião, são o maior inimigo da brasilidade.