Mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) revelam que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e o publicitário Thiago Miranda atuaram de forma coordenada para tentar conter o trabalho investigativo da jornalista Malu Gaspar, colunista do jornal O Globo. A ofensiva incluiu uma devassa em dados privados da profissional e a elaboração de uma proposta de contratação milionária com o objetivo de interromper a cobertura sobre fraudes na instituição financeira.
Os diálogos, obtidos de celulares apreendidos, ocorreram entre março e abril de 2025. O período coincide com o agravamento da crise no Banco Master, que teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central (BC) em novembro daquele ano, após o fracasso nas negociações de incorporação com o Banco de Brasília (BRB).
Devassa na vida pessoal
A insatisfação de Vorcaro se acentuou após reportagens que apontavam fragilidades no caixa do banco para honrar compromissos de curto prazo. Em 31 de março de 2025, o ex-banqueiro escreveu a Miranda afirmando que precisava “frear a Malu Gaspar” porque ela “iria dar trabalho nos próximos dias“.
No dia seguinte, Vorcaro sugeriu mudar o foco das ações: “Vamos ter que tentar pegar algo dessa mulher no pessoal.” Miranda, que então comandava o Grupo LeoDias e a agência Mithi, prontamente assentiu: “Exatamente. Ela joga baixo. Vou revirar a vida dela. Alguma coisa vamos achar.“
O relatório técnico aponta que o publicitário repassou ao ex-banqueiro dados restritos da jornalista, como endereço residencial, contas bancárias, rendimentos mensais e informações de veículos. Contudo, em mensagens subsequentes, o próprio empresário reconheceu o insucesso em encontrar fatos desabonadores. “Nem multa na CNH dela encontrei“, escreveu. Dias depois, desabafou: “Realmente, meu amigo, não tem absolutamente nada.“
Proposta milionária para censura
Diante do fracasso em obter materiais para desgaste público, a estratégia migrou para a tentativa de cooptação. Miranda e Vorcaro cogitaram usar veículos como a revista IstoÉ e a estrutura do Grupo LeoDias para formular uma oferta financeira robusta que tirasse a jornalista de O Globo.
“Eu preciso arrumar uma forma de calar essa mulher“, registrou Miranda.
A PF localizou nos arquivos apreendidos uma minuta intitulada “Carta Proposta Malu Gaspar”. O documento previa o pagamento de luvas contratuais de R$ 1,5 milhão e um salário fixo mensal de R$ 120 mil para que a jornalista assumisse um programa diário de economia e política em uma plataforma digital de Miranda.
Os investigados chegaram a acreditar que as negociações avançariam, mas recuaram quando perceberam que a cobertura jornalística continuava ativa e contundente. “Malu e Lauro vieram com mais fúria após a abordagem“, reclamou Vorcaro em 24 de abril, referindo-se também ao colunista Lauro Jardim.
Em seguida, ordenou: “Não sei como ficaram as tratativas, mas acho melhor abortar.” Miranda rebateu mantendo a linha de intimidação: “Eu vou por outro caminho. Vou descobrir algo. Eles não são santos.”
Modus operandi e violência
A tática de intimidação contra profissionais de imprensa já havia motivado decisões severas da Justiça Federal. Na ordem de prisão expedida em março de 2026 contra Daniel Vorcaro, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), apontou indícios de que o ex-banqueiro utilizava uma estrutura paralela, apelidada de “A Turma” e coordenada por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, para constranger opositores.
Na ocasião, a investigação apontou que o grupo cogitou forjar um assalto violento contra o jornalista Lauro Jardim para interromper a divulgação de reportagens negativas sobre os negócios do ex-banqueiro.
Em posicionamento oficial, O Globo repudiou “a devassa ordenada pelo investigado na vida da colunista Malu Gaspar” e classificou a conduta como uma tentativa explícita de “calar a voz da imprensa“. O jornal cobrou investigação rigorosa por parte das autoridades e reiterou que seus profissionais não se deixarão intimidar.
A defesa de Thiago Miranda informou que não teve acesso à totalidade das mensagens e arquivos que constam no inquérito e, por essa razão, não se manifestaria sobre o mérito das conversas. Os advogados também criticaram o que consideram “vazamento seletivo” de peças processuais sob sigilo. A defesa de Vorcaro não se manifestou.
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