6 de junho de 2026

Essa polícia é de matar! Por João Batista Damasceno

Assassinato do office boy Herus Guimarães Mendes é emblemático e mostra do que é capaz a política de extermínio instituída no Rio de Janeiro
Foto: Facebook Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro

Via Resistência Lírica

Essa polícia é de matar!

Por João Batista Damasceno*       

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Publicado originariamente no jornal O DIA, em 14/06/2025

Numa monarquia autocrática ou teocrática o poder se legitima como se emanasse do próprio trono ou de Deus. A ideia do poder emanando de Deus chegou a ser teorizada em obra do jurista francês Jean Bodin, de 1576, no nono ano da fundação da Cidade do Rio de Janeiro, após expulsão dos protestantes franceses.

Posteriormente a Bodin outros filósofos escreveram que o poder não emana de deus, mas se constitui por um pacto civilizatório entre os cidadãos. Assim, em 1789, os franceses fizeram uma revolução, cortaram a cabeça do rei e mostraram que seu sangue não era azul, mas vermelho como o de todos. E numa assembleia nacional constituíram um novo modelo de Estado, declarando que todo o poder emana do povo.

Nas monarquias absolutistas tinha-se a concepção de que o rei não erra e que aqueles que agem em seu nome têm a presunção de estarem realizando sua vontade. Daí a presunção de legitimidade de seus atos. Mas nas democracias, onde o poder emana do povo, os agentes públicos não podem pretender privilégios que os sobreponham aos cidadãos.

Embora seja signatário da Convenção Americana de Direitos Humanos (CADH), também conhecida como Pacto de San José da Costa Rica, o Estado brasileiro mantém a tipificação do crime de desacato. Tal crime cerceia as liberdades públicas e foi instituído em favor dos agentes públicos contra a cidadania. No Rio de Janeiro o Tribunal de Justiça editou súmula (nº 70) reconhecendo que a palavra do policial é prova suficiente para a condenação. A revisão da súmula não afastou a presunção de veracidade. Portanto, se o policial diz que foi desacatado o cidadão está no sal. O Brasil já foi condenado algumas vezes pela Corte Interamericana de Direitos Humanos pela violação ao pacto por ele firmado e ratificado em defesa dos direitos humanos. Mas a condenação recai sobre o Estado e os governantes e agentes políticos que autorizam ou legitimam as violações nada sofrem.

O assassinato do office boy Herus Guimarães Mendes, de 23 anos (é preciso dizer que tem profissão para afastar a legitimação da execução), no Morro Santo Amaro, entre os bairros da Glória e Catete na Zona Sul do Rio de Janeiro, durante uma festa junina, é emblemático e mostra do que é capaz a política de extermínio instituída no Rio de Janeiro. Se na Zona Sul, durante uma festa junina, a polícia é capaz de ferir e matar moradores, imaginemos do que é capaz à noite nas ruas e becos não iluminados da Baixada Fluminense. A supremacia das armas e da truculência acanha e subjuga qualquer resquício de cidadania. E tudo sob o manto protetor da presunção de legitimidade dos atos de autoridade e de seus agentes. É o próprio estado policial em sua mais brutal aparição!

Diante do bestial assassinato de Herus, a PM afastou 10 policiais que participaram da operação e exonerou o coronel André Batista, comandante do Comando de Operações Especiais (COE), bem como o coronel Aristheu Lopes, comandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope). Um sargento, possivelmente escalado para bucha, diz ter sido o único a efetuar disparos. A coisa ganha ares estranhos. Se era um tiroteio contra traficantes, por que somente um dos agentes teria disparado sua arma?

A violência policial é tema que me levou a iniciar escrever neste jornal em 2007. Em 16/02/2019, em artigo intitulado “A Boa Polícia” , tratei de uma incursão da PM no Morro do Fallet que causou 15 mortes. Um erro de publicação atribuiu as mortes ao Bope. Mas o então comandante do BPChq, tenente-coronel André Batista, reivindicou a operação. Ele já havia comandado o 9° BPM de Rocha Miranda. Trata-se de policial da elite da tropa, com currículo premiado. Foi o negociador do sequestro do ônibus 174, onde morreram a professora Geisa Gonçalves e o assaltante Sandro Barbosa. Além disto, é coautor do livro Elite da Tropa em parceria com o ex-capitão Rodrigo Pimentel, reformado da PM por surdez, e com o literato Luiz Eduardo Soares. O personagem André Matias no filme Tropa de Elite, teria sido inspirado em André Batista. Foi subsecretário do literato Luiz Eduardo Soares em Nova Iguaçu, na gestão do então prefeito Lindbergh Farias.

A polícia violenta, mas incorruptível, retratada no filme Tropa de Elite 1, decorre da concepção de uma “boa polícia” da qual falam o literato Luiz Eduardo Soares, da Uerj, e os formuladores do curso de Segurança Pública, da UFF. Em suas formulações, a “boa polícia” há de ser incorruptível, mas pode ser violenta, pois corrupção é uma opção; é um desvio pessoal. Mas a violência é um desígnio inevitável da atuação policial.

Terminei aquele artigo dizendo que nos resta apelar para o Tribunal Penal Internacional, para que a cadeia de comando da política de extermínio e aqueles que para ela concorrem, por não exercitarem o regular controle externo da atividade policial, sejam julgados por eventuais crimes contra a humanidade, assim considerados os massacres, a desumanização, os extermínios e as execuções. O texto me propiciou um irado telefonema do então governador e bloqueio nas redes sociais, o que me tira o sono até hoje.

Em 08/05/2021 voltei ao tema em artigo intitulado “Polícia fluminense matou mais 27”, analisando a incursão da Core no Jacarezinho, na mais letal operação policial da história do Rio de Janeiro, salientando dúvida, fundada em precedentes, sobre efetivo confronto e exercício de legítima defesa.

Punir alguns policiais e manter a política de extermínio é a receita para legitimar a continuidade das execuções dos indesejáveis. Mas às vezes os matadores erram na execução e até a mídia reclama.

*João Batista Damasceno é Doutor em Ciência Política pela UFF e professor associado da UERJ

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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3 Comentários
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  1. evandro

    14 de junho de 2025 8:57 pm

    Se me permitem, relembro uma frase utilizada em outro contexto (lembram-se?), mas que aqui se aplica perfeitamente: eu tenho medo

  2. Lênin and The Ulianovs

    15 de junho de 2025 7:35 am

    Mais e mais do mesmo.

    Textos superficiais, com a pretensão erudição de algumas citações e cronologias, misturada com algumas informações sobre os aspectos internos e contradições operacionais, para dar credibilidade ao arrazoado.

    “A boa polícia” e a “má polícia”, seria um sofisma.

    Porém, ele acredita que possa haver, um dia, a polícia sem corrupção e sem violência.

    Não, Pedro Bó, não haverá, não no capitalismo de periferia.

    E nem onde se chama primeiro mundo, olha a polícia nos EUA, e como as coisas andam por lá: aqui o alvo é o preto, lá, o imigrante, ponto em comum: pobres.

    Polícia do capital é polícia de classes, de hierarquia de classes.

    Não, Pedro Bó, o poder não emana do povo, e nunca foi exercido em seu nome.

    O capitalismo tolera algumas formalidades de “igualdade”, eu disse tolera, mas nunca permitirá que o povo governe através de seus outorgados.

    Em países periféricos, esses ajustes tendem a completa corrosão das pretendidas formas de controle social, que sim, desandam em aparatos de extrema violência e segregação.

    Sugiro assistir qualquer entrevista de Helio Luz sobre o tema.

    Será muito mais esclarecedora que esse tipo de texto sensacionalista.

    Arf, isso cansa…tenham santa paciência.

  3. Carlos

    16 de junho de 2025 12:59 am

    Compro o jornal O Dia aos sábados sempre que tem artigo do dr. Damasceno. Faz valer a pena.
    Infelizmente o jornal, em nome de uma dita “pluralidade” costuma dividir a página com um ou outro bolsonarista merdeiro o que estraga a leitura pois corremos o risco de ler indevidamente algum parágrafo destes imbecis bolsonaristas.
    Mas voltando para o artigo, nunca é demais elencar os arbitrios das polícias brasileiras mesmo sabendo inútil, pois executivos canalhas continuarão ignorando o extermínio em troca de sua manutenção no poder ou, em sua maioria, por covardia mesmo.

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