A guerra entre Ucrânia e China não tem sido travada apenas entre exércitos e grupos armados, mas também em termos de discurso, comunicação e em torno da movimentação do cenário político e econômico global.
O jornalista Luis Nassif compara tal contexto com o jogo de xadrez – “quando você mexe uma peça, você muda todo o equilíbrio do tabuleiro”, disse Nassif na TV GGN 20 horas desta sexta-feira (04/03).
Lucas Leite, professor da FAAP e doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUCSP), concorda com tal contextualização.
“Quando a gente pensa que cada país pode ser um peão, pode ser um rei ou pode ser uma torre, em uma alusão à forma como cada um se caracteriza nesse grande xadrez global”, diz Leite.
No caso das grandes peças, as chamadas rainhas do tabuleiro, seriam justamente as maiores potências globais existentes no cenário atual – Rússia, Estados Unidos e a China.
“Muito se questionou sobre a posição da China em relação à atuação no conflito. Só que, hoje, seria mais interessante nós percebermos como a China tem se mostrado cautelosa não é de agora. É de 20, 30, 40 anos”, explica o professor da FAAP.
Segundo Lucas Leite, o processo de transformação do ordenamento atual, teve mostras em transição justamente porque nós conseguimos perceber que a Rússia peita os EUA como não poderia ter acontecido há 20 anos ou talvez menos, no caso da guerra do Iraque, por exemplo, ou em outros conflitos recentes (…)”
Quanto ao posicionamento chinês, Leite diz que a cautela tem sido adotada há algum tempo, e ela está diretamente ligada à sua forma de enxergar a sua estratégia de inclusão no cenário global.
“(A estratégia da China) não é pelo conflito, não é necessariamente pelo bater de frente, por criar uma atmosfera assertiva ou por bancar custos muito altos em torno de conflitos ou crises”, explica Lucas Leite.
O acadêmico lembra o papel estratégico que a China tem exercido na manutenção do sistema financeiro e econômico global. “Sem a presença chinesa, por exemplo, na crise financeira de 2008, nós não teríamos tido uma recuperação rápida (…) Para a China, por exemplo, os efeitos daquele momento não são os mesmos”.
China como mediadora da guerra?
No caso específico da crise entre Rússia e Ucrânia, Lucas Leite diz que seria interessante para a China aceitar um papel de mediação do conflito. “Seria interessante para a China apontar-se como mediador? Seria, justamente para tentar mostrar o seguinte: não é por que eu sou oposição nesse momento, que eu faço críticas ao ordenamento (…) que necessariamente ela tem que tomar uma posição assertiva”.
Ao mesmo tempo, Leite lembra que “a Rússia tem armamentos estratégicos e táticos que, em último caso de uma guerra maior ou de uma intervenção que ameace a sua soberania, poderiam ser utilizados”.
Nesse cenário, o assunto passaria a ser uma guerra mundial ou mesmo nuclear, o que não vai acontecer, na visão do professor da FAAP. “Então, a Rússia tenta contornar isso tudo – tenta-se de alguma forma suprimir a economia russa para justamente tentar pressionar os russos à mesa de negociação”, pontua Lucas Leite.
O professor lembra ainda que, diante das fortes sanções impostas pelo Ocidente, a Rússia pode procurar a China “em busca de uma alternativa para sua indústria e também em termos de transações financeiras (…)”.
Em termos políticos, Leite diz que o presidente russo Vladimir Putin “assumiu um cálculo difícil de ser feito, assumiu um risco muito grande e que, hoje, também está lidando com problemas”, citando ainda os problemas causados à economia e à população da Rússia mediante as sanções ocidentais.
O papel da mídia no confronto
Sobre a mídia do confronto entre Rússia e Ucrânia, Nassif diz que “um dos grandes problemas que você tem na cobertura, e não é só desse caso – são das coberturas em geral (…)”, o que pode ser explicado sobre a divisão das mídias.
“Você tem um primeiro time que é a chamada mídia de opinião – que é aquela que discute os grandes temas nacionais – vale para os EUA, para a Europa, para o Brasil”, diz Nassif.
“(Na mídia de opinião) você tem um Financial Times, um Washington Post, um New York Times – aqui no Brasil seria aquele subconjunto representado pela Globo, Valor, Folha, Estadão em outros tempos, Veja. Depois você tem a mídia popular, aquela que pega temas do momento, gosta de sangue, e a mídia regional”
“O grande problema que nós temos no Brasil é o seguinte: sempre que você pega qualquer cobertura, seja uma cobertura de um crime, seja uma cobertura de uma guerra da Ucrânia, a chamada mídia de opinião, aquela que devia aprofundar mais, ela não consegue avançar além da análise de um caso”, diz Nassif.
Confrontos como o atual envolvem vários casos a serem analisados e interligados. Um exemplo disso envolve debates recentes sobre o papel do Itamaraty. “Você tem o mundo inteiro contra a Rússia, querendo sanções severas. Daí você tem a China e o Brasil condenando a invasão, condenando a Rússia, mas querendo deixar portas abertas para negociação”, explica Nassif.
“Daí você põe um segundo fato: é possível qualquer solução que não seja negociação? Não é possível. Você tem duas soluções possíveis – ou a Rússia vence e ocupa a Ucrânia e fica uma guerra infindável, ou a Rússia é derrotada. A Rússia não pode ser derrotada, porque ela tem um arsenal atômico”, lembra Nassif.
Diante da impossibilidade de colocar a Rússia nas cordas, a única possibilidade se dá pelas vias diplomáticas – onde China e Brasil vão se habilitar.
“Daí você tem outros itens. Por exemplo: você tem os EUA tirando a Rússia do sistema SWIFT, cercando a Rússia de todos os lados. Mas você tem a China, que desponta como uma nova potência. Então, dentro desse jogo, o que vai acontecer com a China trazendo a Rússia para baixo dela?”, questiona Nassif.
Veja mais a respeito desse debate na íntegra da TV GGN 20 horas. Clique abaixo e confira!
jOSÉ OLIVEIRA DE ARAÚJO
6 de março de 2022 9:26 amFace ao grande envolvimento da OTAN no envolvimento do conflito, ocorreu=me a seguinte pergunta: A OTAN é uma organização ofensiva ou defensiva?
Acredito que para começar responder a questão, precisamos formular duas perguntas:
1 . Desde a sua criação, qual país membro da OTAN já foi invadido?
2. A OTAN já invadiu algum país não membro da mesma?
José Carvalho
6 de março de 2022 11:08 pmEm poucos momentos se demonstrou, como nessas questões envolvendo todos os vários interesses em jogo, um posicionamento tão infeliz como foi o dos atuais líderes das mais importantes Nações da EUROPA. Numa conduta absolutamente desconectada dos envolvimentos mais centrais envolvendo todo o Continente, não houve um único líder europeu, capaz de refletir de maneira mais profunda as complicações consequentes de um conflito entre Ucrânia e Rússia. Que não ficariam restritos apenas em um confronto entre dois países. Mas que traria implicações de alcances econômicos, sociais e de desenvolvimento para toda a Europa.
A insensatez em focar e se orientar pautados apenas pelo posicionamento anti-Rússia devido ao alinhamento com os EUA, fez com que se deixasse de lado os interesses de todas nações europeias, a quem deveriam representar. Nenhum empenho foi feito para evitar o conflito, que afeta todas as populações e o futuro do Continente. Por quanto tempo todos terão que conviver com instabilidades e insegurança, além da permanente ameaça de algo pior acontecer.
Todos agora querem se fazer de bons moços com as ajudas humanitárias, enquanto enviam mais armamentos, colocando gasolina na fogueira. A ausência de boas lideranças, que olhem com maior profundidade assuntos tão delicados ficou evidenciado. Jogar as responsabilidades somente na Rússia, desconsiderando quais os interesses envolvidos no ingresso da Ucrânia sobretudo na OTAN, soa ingênuo demais para a importância de todo o Continente.
O distanciamento dessas visões ideológicas em relação a uma maior objetividade e análise amplificada, torna-se completamente necessário caso se queira respeitar a inviolabilidade dos países.