A decisão do ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jhonatan de Jesus que cobra explicações do Banco Central (BC) sobre a liquidação do Banco Master lança luz não apenas sobre o caso financeiro, mas também sobre o perfil político de quem hoje ocupa uma das cadeiras mais estratégicas da Corte e sobre o avanço do Republicanos e do Centrão no controle do órgão.
Na noite desta quinta-feira (18), Jhonatan determinou que o BC se manifeste, em até 72 horas, sobre “supostos indícios de precipitação” na decretação da liquidação extrajudicial do banco do empresário Daniel Vorcaro. No despacho, o ministro aponta possíveis irregularidades na condução do processo e admite, de forma explícita, a hipótese de omissão da autoridade monetária.
O texto também antecipa a possibilidade de medidas cautelares contra o BC, incluindo a proibição de atos que envolvam alienação, transferência ou desmobilização de bens considerados essenciais à preservação do valor da massa liquidanda do Banco Master.
“Em juízo preliminar, tais elementos sugerem hipótese de que a atuação da autarquia pode ter se caracterizado, de um lado, por demora relevante na condução e no equacionamento de alternativas de mercado e, de outro, por precipitação na adoção da medida extrema de liquidação, em contrariedade ao dever legal de considerar, de modo motivado, soluções alternativas e menos gravosas para o sistema financeiro, na forma do art. 5º da Lei 9.447/1997”, escreveu o ministro.
Pressão institucional sobre o Banco Central
No despacho, Jhonatan lista cinco pontos que o Banco Central deverá esclarecer ao TCU em até três dias. Entre eles estão a fundamentação da liquidação, a análise de alternativas menos gravosas, o histórico de tratativas institucionais, eventuais divergências internas e a forma de compartilhamento de documentos protegidos por sigilo.
A liquidação do Banco Master completou um mês nesta quinta-feira. À época, o BC justificou a medida pela “grave crise de liquidez do Master e pelo comprometimento significativo da sua situação econômico-financeira, bem como por graves violações às normas que regem a atividade das instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional”.
Uma cadeira estratégica
A atuação do ministro ocorre pouco tempo depois de sua chegada ao TCU e reabre o debate sobre o caráter cada vez mais político da Corte, que exerce influência direta sobre orçamento, estatais, privatizações, concessões e grandes obras.
Jhonatan de Jesus foi indicado ao tribunal pela Câmara dos Deputados para ocupar a vaga deixada pela aposentadoria da ministra Ana Arraes. A escolha não partiu do Executivo, mas do Legislativo, e foi articulada pela liderança do Republicanos, com apoio formal de partidos do Centrão como MDB, PP, PSD, União Brasil, Podemos e PDT, além do aval do então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).
Após a aprovação interna na Câmara, o nome foi formalmente nomeado pelo presidente Lula (PT) e chancelado pelo Senado. No Planalto, a avaliação foi pragmática: a vaga não era do Executivo e a indicação já chegava respaldada por ampla maioria do Congresso.
Perfil
Ex-deputado federal por Roraima, Jhonatan construiu carreira marcada por baixa exposição pública e forte trânsito nos bastidores. Não é um quadro técnico oriundo do controle externo nem um nome de projeção nacional, mas um político considerado leal à direção partidária, um perfil valorizado em cargos de poder silencioso.
No TCU, o mandato vai até os 75 anos. Na prática, trata-se de uma posição vitalícia com capacidade de definir o ritmo de políticas públicas e o custo político de decisões do Executivo.
O avanço do Republicanos sobre o TCU
A indicação de Jhonatan se insere em um movimento mais amplo de ocupação do Tribunal de Contas por quadros oriundos do Congresso, sobretudo ligados ao Republicanos e ao Centrão. O partido, que evita embates ideológicos diretos, aposta em nomes previsíveis e discretos para funções-chave do Estado.
No tribunal, esse perfil não produz manchetes frequentes, mas influencia profundamente o ambiente institucional.
A decisão envolvendo o Banco Central, ainda em fase preliminar, coloca o ministro sob os holofotes e evidencia como o TCU deixou de ser apenas um órgão técnico de fiscalização para se consolidar como um centro de poder político.
grevista
19 de dezembro de 2025 4:38 pmO TCU sempre foi isso. Mas, na ditadura e nos governos Collor e FHC, era literalmente inepto. Com Lula I, inicia-se a fase de crescimento de seu poder e seu uso pela oposição tucana e pela mídia neo-udenista. O lulismo, na sua contínua fuga do embate com a direita, não disputa as vagas congressuais. Assim, foram criados Augusto Nardes, Antônio Anastasia, Vital do Rego como ministros e esse Jhonatan. Há um detalhe importante. O Republicanos é controlado pela IURD.
Outra questão: discutir o papel dos TCs é fundamental. Uma dúvida quanto à origem e localização na estrutura de poder do Estado Brasileiro: os TCs são poder executivo, legislativo ou judiciário ou um quarto poder (ou quem sabe quinto, dado o MP e sua autonomia)? Hoje, no meu parco entendimento, os TCs funcionam como poder autônomo.
Lopes
20 de dezembro de 2025 12:40 pmSó complementando, o TCU é composto por nove ministros, cujas vagas são assim distribuídas por força normativa:
– 3 vagas indicadas pela Câmara.
– 3 vagas indicadas pelo Senado.
– 1 vaga indicada pelo Presidente da República, de livre escolha.
– 1 vaga indicada pelo Presidente da República, dentre os auditores do TCU.
– 1 vaga indicada pelo Presidente da República, dentre os membros do MP-TCU.
Todos os indicados são submetidos a sabatina e aprovação do Senado. Ou seja, não há espaço para disputa entre o Executivo e o Legislativo nas indicações, em razão das pré-definições. O Legislativo, especialmente, sempre indicou algum político, tendo vantagem a corrente política majoritária no momento da indicação que, historicamente, sempre foi ligada à direita.