Nubank: postagem pode ter gerado conflito de interesses

Dolores Guerra
Dolores Guerra é formada em Letras pela USP, foi professora de idiomas e tradutora-intérprete entre Brasil e México por 10 anos, e atualmente transita de carreira, estudando Jornalismo em São Paulo. Colabora com veículos especializados em geopolítica, e é estagiária do Jornal GGN desde março de 2014.
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Nubank enfrenta críticas por possível conflito de interesses após CEO compartilhar postagem controversa sobre evento de Jordan B. Peterson.

Foto: Divulgação/Nubank

O Nubank encaminhou uma nota aos seus funcionários no último dia 18 de junho minimizando as notícias envolvendo a CEO e fundadora Cristina Junqueira sobre evento divulgado pela plataforma conservadora Brasil Paralelo.

Recentemente, a CEO-fundadora da banca digital usou suas redes sociais para agradecer o convite recebido para a palestra do escritor canadense Jordan B. Peterson na cidade de São Paulo, como parte de sua turnê internacional para a divulgação do livro We Who Wrestle With God, promovido pela Fronteiras do Pensamento e divulgado pelo Grupo RBS e Brasil Paralelo. 

Contudo, o tema não apenas chegou a ocupar os trend topics nas redes sociais, como muitos usuários mencionaram cancelar suas contas em protesto. Simultaneamente, as ações do banco caíram 1,18%. 

Segundo a Agência Pública, o comunicado enviado diretor de operações da Nubank, Youssef Lahrech, teve três pontos como fundamentos:  

a) a recusa, por fatores jurídicos, em mencionar o caso do ex-funcionário Konrad Scorcipiano, que atualmente trabalha para a Brasil Paralelo;

b) a defesa de que o post da CEO Cristina Junqueira em agradecimento ao convite realizado pela produtora “não violava nosso Código de Conduta”; e

c) que a Nubank mantêm “uma posição estritamente apolítica”.

Uma nota similar foi divulgada ao público no dia seguinte

O Código de Conduta da Nubank

Pese a declaração de Lahrech, o compartilhamento de Junqueira pode ter esbarrado na cláusula de Conflito de Interesses do Código de Conduta da Nubank.

“Conflitos de interesse ocorrem quando os Nubankers se encontram em situações em que suas decisões podem ser influenciadas por interesses pessoais, em vez dos interesses da Companhia”, diz o manual de uso interno. 

Entre os exemplos de possíveis contextos de Conflito de interesses listados estão: “atividades externas profissionais, fornecedores e parceiros de negócios, presentes e entretenimento (grifo nosso), parentesco ou relacionamentos pessoais próximos ou investimentos pessoais em concorrentes”.

Considerada um dos rostos da marca, Junqueira poderia ter comprometido a imagem de marca que preza pela diversidade e inclusão como seus valores.  Ao ser questionada pela reportagem, a Nubank apenas reproduziu a nota de esclarecimento pública.

“Queremos que os nossos clientes nos amem fanaticamente” 

O primeiro valor do Código de Conduta da Nubank parece ter sido arranhado. Após a repercussão da publicação de Cristina Junqueira, a NuCommunity, fórum do site dedicado para a interação entre os fãs da marca, entrou em um intenso debate sobre a posição da banca digital sobre o ocorrido. 

Foto: Fórum NuCommunity

O caso Konrad Scorcipiano

Esse não é o primeiro episódio em que a Nubank é relacionada com a extrema-direita: seu ex-Engenheiro Senior de Software, Konrad Scorcipiano, chegou a ser apontado como fundador e principal administrador do 55chan, fórum responsável por organizar e disseminar discurso de ódio, segundo reportagens da Agência Pública e The Intercept Brasil. 

Criado em 2007, o 55chan foi um dos primeiros fóruns anônimos brasileiros a abrigar conteúdo de pornografia infantil e antissemitismo, além de celebrar ataques a escolas. Concorrente do Dogolachan, fórum que fomentou as ameaças e ataques que levaram à criação da Lei Lola (que viabilizou a investigação de casos de misoginia online pela Polícia Federal), o 55chan apenas encerrou atividades em 2021. 

Scorcipiano teria deixado a administração de 55chan em 2010 – mas o engenheiro manteria seu discurso nas redes sociais e era conhecido no interior da Nubank como uma pessoa que “gerava muita treta, mesmo sendo tecnicamente excelente”. 

Os problemas começaram quando em maio de 2016, a participação de Scorcipiano em um evento da Associação Python Brasil (APyB) foi questionada devido às suas postagens xenofóbicas. Naquela ocasião, o então funcionário da Nubank havia declarado que “A Dinamarca tem um problema de estupro. O problema do estupro é causado por diversidade. #DiversidadeÉEstupro”.

Foto: Reprodução/ Twitter

Konrad foi excluído do rol de palestrantes em um comunicado público. Ainda assim, o engenheiro foi mantido pela Nubank até 2018. 

Desde 2020, Konrad ocupa a função de Chief Technology Officer (CTO) do portal conservador Brasil Paralelo, além de ter finalizado um curso de Economia Austríaca pelo Instituto Mises Brasil.

Um dos produtos dos quais ele é gestor seria a Liberty Tech, uma comunidade para profissionais de tecnologia que une “técnica e valor da busca da Verdade”.

Esse ambiente seria um contraponto “à politização e a presença de ideologias [que] transformam o ambiente profissional em um fardo psicológico”, gerando espaços que “levem mais em consideração um grupo de ideias do que as habilidades técnicas”.

Quem é Jordan B. Peterson?

O ex-professor de psicologia da Universidade de Toronto tornou-se um dos maiores best-sellers de auto-ajuda ao impulsionar o enfrentamento com a chamada “cultura woke” e “marxismo cultural”.

Em sua coluna do Uol, o psicanalista Christian Dunker definiu o psicólogo canadense como “verniz de autoridade e ciência necessário para neutralizar o rancor da reação antifeminista, que geralmente associamos com a figura do brutamontes desajeitado, reivindicando que seu lugar teria sido tomado por estrangeiros e efeminados”.

Dunker afirma que, ao buscar fundamentos biológicos neuroevolutivos e na linguagem (no caso das narrativas míticas e religiosas) para atender “para nossas necessidades sociais de regulação de emoções”. Assim, Peterson conseguiria despolitizar a questão ao imprimir sua “própria ideologia como ‘não ideológica’”. 

Quem foram os apoiadores do evento?

A palestra de Jordan B. Peterson foi realizada pela Fronteiras do Pensamento, um projeto da Delos Bureau, empresa pertencente ao grupo DC Set Group (responsável pela Tomorrowland), sendo uma das maiores empresas de conhecimento e alta cultura do país.

O objetivo da Delos é a criação de plataformas culturais ligadas a grandes pensadores e tem o Fronteiras como produto principal. Além da plataforma digital de cursos e suas redes sociais, o Fronteiras conta com uma série de conferências presenciais ao longo do ano em algumas capitais. 

Nesta ocasião, a Brasil Paralelo e o Grupo RBS apoiaram com a divulgação da apresentação. Procurado por nossa reportagem, o Grupo gaúcho de comunicação declarou não ter “vínculo com qualquer conferencista do Fronteiras do Pensamento nem com a Brasil Paralelo”, alegando apenas veicular “ mídia de todas as palestras do Fronteiras do Pensamento”. 

O Grupo RBS veicula mídia do Fronteiras do Pensamento desde 2013, divulgando conferências de diferentes pensadores ao longo dos anos. A empresa foi co-realizadora até 2021, quando passou a ser somente media partner do projeto, assim como de dezenas de eventos no RS”, concluiu a nota. 

Quanto aos pensamentos de Jordan B. Peterson, o Grupo RBS afirmou se opor “a qualquer tipo de preconceito e discriminação”. 

Até a finalização desta matéria, o Fronteiras do Pensamento não havia respondido aos nossos questionamentos, mas estamos abertos para futuras manifestações. 

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2 Comentários

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  1. Recentemente foi veiculada um comercial do Nubank, estrelado pela Gesele Bunchen, no qual ela dizia maravilha do Nubank, entre elas ela diz que o Nubank, é incrível. Após uma pausa, ela pewrgunta;O que você está esperando? Vem! Na ocasilao eu imaginei uma hipotética resposta: Estou esperando ele se tornar um banco crível! Aproveito para indagar: Será que desnudaram o Nu bank?

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