‘O que Bolsonaro fez no palco da ONU não tem precedentes’, dizem embaixadores experientes

Jamil Chade: O que se viu no palco foi um presidente com um discurso ainda mais radicalizado, intolerante e nacionalista que nas demais reuniões internacionais

Bolsonaro durante discurso na abertura do Debate Geral da 74ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas. Foto: Alan Santos/PR

Jornal GGN – “Não posso acreditar no que estou ouvindo”, escreveu um diplomata ao jornalista brasileiro Jamil Chade, especialista em relações internacionais. “Ele (Bolsonaro) acabou de perder a última chance de ser respeitado”, disse outro representante que faz parte da cúpula das Nações unidas.

“Há algo mais extremo que essa visão de mundo?”, disse ainda um terceiro diplomata. “Acho que nunca começamos nosso trabalho nesse tom”, lamentou por outro lado um representante do Brasil ao colunista. “Quando será a próxima eleição?”, escreveu um experiente embaixador asiático para o repórter.

Essas foram algumas das manifestações feitas antes mesmo de o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, concluir seu discurso de pouco mais de 30 minutos que realizou nesta terça-feira na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York,

“Bolsonaro fez um discurso de guerra, repleto de termos e inimigos dos anos 60 e 70: a ameaça socialista e a necessidade de impedir que nossa soberania seja questionada”, avalia Chade.

“Mas, acima de tudo, ofendeu a muitos naquela sala. Num trecho comentado por vários diplomatas, ele alfinetou os demais governos e entidades, alertando que eles tinham aplaudido os presidentes brasileiros que, por ali, tinham passado”, completa o articulista.

“Sua insistência em citar a Bíblia, os cristãos e Deus foram vistas com cautela, num sinal de que tentará redirecionar a agenda internacional com base nesses valores. ‘Ele esqueceu que preside sobre um país diverso’, disse um diplomatas. Ele ainda chocou ao falar das vítimas entre os policiais e não citar os números de mortos pela polícia no Brasil”, prossegue Chade.

Foram vários os pontos surpreendentemente vexatórios à diplomacia brasileira no discurso de Bolsonaro. Um deles foi o fato de, entre todas as lideranças internacionais, Bolsonaro fazer elogios apenas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

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Ao se referir às demais nações, em um espaço criado para promover o respeito mútuo no quadro internacional, o presidente Bolsonaro dispensou ataques e, por diversas vezes, usou as palavras soberania e pátria.

O mandatário do Brasil fugiu da responsabilidade quando falou da Amazônia, insistindo que o Brasil mantém a maior parte do seu território protegido e, ainda, falou em revisar a demarcação de terras indígenas, afirmando que os índios querem desenvolvimento via exploração de minério.

Nesse momento, Bolsonaro atacou o Cacique Raoni, que desde os anos 1980 se constituiu como uma liderança indígena brasileira que luta pela preservação ambiental e direito dos povos originários.

Segundo o presidente do Brasil, Rauni é usado como “peça de manobra”. Camila Asano, coordenadora de programas da Conectas Direitos Humanos, entrevistada na coluna de Jamil Chade, disse que “Bolsonaro distorce argumentos sobre autonomia dos povos originários para negar direitos que a própria Constituição garante”.

“Categoricamente, anuncia que não promoverá novas demarcações de terras indígenas. É extremamente grave que o presidente tenha usado a Assembleia Geral da ONU como palanque para atacar uma liderança indígena e ameaçar a segurança jurídica das terras ianomâmis e Raposa Serra do Sol, que já estão demarcadas”, afirmou.

Bolsonaro atacou ainda ONGs, imprensa internacional, e o “espírito colonialista” de países que se manifestaram pela proteção da Floresta Amazônica como um bem da humanidade.

“Bolsonaro também surpreendeu com sua nova apologia às ditaduras do Cone Sul, desta vez feita sem citar nomes. Experientes embaixadores brasileiros admitiram que o que ele fez no palco da ONU não tem precedentes na era democrática do país e poderia se igualar à apologia a um torturador que ele fez em pleno Congresso Nacional, ainda quando era deputado”, destaca Jamil Chade.

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“Ele justificou o Golpe de Estado de 1964 e as demais ditaduras na região, num tom radicalmente oposto ao que disse José Sarney quando falou no mesmo palco, nos anos 80. Naquele momento, ele lembrou que o Brasil ‘saiu de uma longa noite autoritária’ e se apresentava ao mundo como uma democracia”, lembra o articulista.

*Clique aqui para ler a coluna de Jamil Chade na íntegra.

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8 comentários

    • As coisas não são tão simples o fato de um congressista pedir abertura de um processo de inpecheameant não significa que conseguirá seguir adiante com o mesmo lembre-se que tentaram o mesmo com Clinton e isso evidência que a questão de um novo mandato de Trump não é coisa difícil. Um inpecheameant numa democracia é algo que causa um desgaste profundo na mesma e em suas instituições então até adversários de Trump geralmente irão contra tal investida até mesmo porque ao contrário daqui lá às instituições são sólidas e independentes, Trump passará mas o estado e suas instituições ficarão (transformadas é claro talvez mais fortes talvez mais fracas). O nosso problema é que não possuímos instituições tão fortes , uma posição geopolítica ou econômica vantajosa como os EUA.

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  1. O que será que leva esse débil mental a colocar-se contra o mundo e segurar nos sacos do Trump e do Netanyahu ?
    Isso é um cretino! Que tipo de “política externa” é essa?
    Até agora já atacou a França, a Alemanha, a Noruega, a China, a Venezuela, Cuba e o Mundo Árabe.

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  2. Bolsonao pensa que ta em 1964, na Guerra Fria, precisamos de um presidente que resolva os problemas do presente e que não use a história do Brasil como justificativa de ficar falando merda.

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