5 de junho de 2026

Ponderações sobre as indicações brasileiras ao Nobel

Comentário ao post “A politicagem no prêmio Nobel

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Eu acho super certo lembrar desses ex-possíveis brasileiros. Mas não vamos deixar árvores, ainda que importantes, impedir a visão da floresta.

A comissão do Nobel solta relativamente poucas informações. O que lembro de já ter visto:

– enganos acontecem e são assumidos (o que lembra aquela discussão toda sobre teses e ciências e resultados.) Stálin foi indicado 2 vezes (e felizmente não ganhou), Gandhi foi indicado 6 vezes, e também não ganhou. E julgadores são humanos, não inteligências artificiais. 

– as informações são abertas apenas após 50 anos.

– para os mais recentes prêmios da paz (não vi sobre os outros) tem havido cerca de 200 indicações por ano.

– as indicações não devem ter uniformidade nenhuma. Reitores de universidades, laureados do passado, presidentes de parlamentos, membros da própria fundação. Há muitos caminhos para indicar. 

– deve ser possível pesquisar quantos indicados havia por ano até 1961, períodos de Lattes e Chagas.

– talvez seja possível identificar o número total de indicados brasileiros até então.

– todo ano se fala de Lula e sim, é possível ele ter sido indicado, portanto. A peneira de indicação é uma coisa, a de prêmio é outra. Mas sabemos que uma meia dúzia de indicados ao Nobel da Paz o foi depois de receberem algum dos prêmios que ele também recebeu (Woodrow Wilson, da Unesco, da Fao, etc. Em um post de dez./2010 eu pesquisei isso, só não sei de cor.)

Bom, algumas coisas que podemos pensar para baixar nossa bola a respeito (eu não tenho nenhuma predileção especial para isso, ao contrário, mas ultimamente tem havido tanto esse clima ufanista/patriótico, ao meu ver um pouco exagerado, que só estou tentando ser um pouco o “advogado do Diabo” da coisa.)

– essa insatisfação do brasileiro com o Nobel não é nova. Tem um tanto de “inveja da Argentina” (que teve uns 5, em diversas áreas.) Há a tentação de buscarmos eventuais injustiças, o que é válido. Mas pensemos: mesmo que tivéssemos ganhado (o Brasil tivesse ganho) os 3 citados (e talvez haja outros casos não elencados), não seria pouco para o tamanho e população do Brasil? 8a. economia do mundo lá desde meados dos 1970? 5a. maior população há mais tempo?

– se houve 200 indicações/ano numa área só, deve haver no mínimo uma dezena em cada uma das outras. Milhares e milhares ao longo de décadas. Muito heterogêneas. Se no Brasil olhamos isso nos comparando em relação ao mundo, vai haver países onde a discussão será “fraticida”. O que aconteceu com Chagas ou Lattes, politicagem ou não, deve acontecer todo ano às dúzias para japoneses, alemães, americanos, britânicos, russos e cia. Não ajuda tanto lembrar poucos casos possíveis para o Brasil. Dá um alívio no ego, mas a realidade é que o Brasil não é visto como pólo de inovação. (Isso pode até atrapalhar o processo todo de ser indicado… Se países fossem seres humanos, com seus defeitos e qualidades, que arquétipo de personalidade representaria? Pense-se nisso com vagar… Como alguém procurando emprego, procurando sócios para um empreendimento…)

– Isso de Hélder Câmera não é oficial, posto que há menos de 50 anos. Mas é muito provável, tanto que dizem o número de vezes. Mas quanta gente importante e lutando nas mais variadas ditaduras da mesma época não havia? Os anos 1960 e 1970 foram efervescentes, injustos mas felizmente também com muitos lutadores. Nem precisamos lembrar dos ganhadores da época. Nem vale a pena lembrar dos erros. A intenção do prêmio é prestigiar a inovação e, no caso do da paz, manter à tona e em alta conta sentimentos de luta e coragem e boa vontade. E, se a Fundação fosse precipitada (pode ser – e é – às vezes) não teria a reputação que tem. Nem os brasileiros manteriam essa frustração. (Fico lembrando agora, será que Zerbini não terá sido indicado?)

– Também já se falou de Chico Xavier. Se foi fato uma indicação não sei. Mas eu acharia uma indicação bem feita. 

Noves fora as injustiças possíveis – e que não há razão para crer serem fatalmente “anti-Brasil” – , a questão é que o Brasil não é famoso por “massa crítica”. Em quase nada… Emplaca 4 ou 5 filmes no Oscar. De uns 200 que concorreram a essa categoria de filme estrangeiro. Oscar é superficial? É, mas então porque sempre se fala nele? É superficial enquanto um filme brasileiro não ganha… Vamos pra Cannes, Berlim ou Veneza. Alguns prêmios em cada um em décadas. Não parece pouco do mesmo jeito? Em áreas mais subjetivas como a literatura. Será que o Brasil (na forma de seus governos, universidades, fundações e tudo o mais ao longo dos tempos) faz o trabalho de divulgação que deveria? O Brasil olha cultura como produto exportável ou apenas aceita passivamente a demanda quando alguém de fora descobre? A USP foi estimulada quando o Brasil era “mais moderno”, anos 1950. Blz.  A USP está quase sempre nessas listas de 100 maiores, 200 melhores e tal. Mas o Brasil produz 1 de cada 30 dólares do mundo, não faria sentido ter umas 3 ou 5 universidades nessas listas? Quando é ano de Olimpíadas, o mesmo quadro. E por falar em “quadro”, como anda a Bienal? Está com o mesmo vigor de, digamos, até os anos 1990?

Eu nem imagino o mar sem fim de dificuldades que as áreas tecnológicas e de ciências naturais devem enfrentar no Brasil. Mas possivelmente muitos colegas podem desfilar rosários a respeito… É claro, o Brasil é muito grande, tem muitos recursos humanos e financeiros, temos muitas realizações a celebrar. Mas essa sensação de sempre ficar devedor relativamente ao mundo não vai passar fácil. Talvez sejamos um país que precise de psioterapia breve de auto-ajuda… 😉

Ai meu Santo Expedito dos prêmios e indicações perdidos, é hoje que serei linchado… 3…2…1…


Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados