5 de junho de 2026

Sempre tivemos candidato nas eleições presidenciais, menos agora, diz diretor do The Clinic

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“Sempre tivemos candidato nas eleições presidenciais, menos agora”, diz diretor do The Clinic

por Maíra Vasconcelos

Especial para o Jornal GGN

Única alternativa fora dos jornais de linha editorial de direita, o semanário The Clinic, pela primeira vez desde sua criação, não apoia nenhum candidato nessas eleições. Em conversa em um café na bonita Avenida Providencia, o diretor do único meio impresso de esquerda no Chile, Patricio Fernández, afirmou que não há identificação com nenhum dos candidatos. A capa do jornal, poucos dias antes do primeiro turno, no último domingo, foi a foto de Pinochet rindo, com a frase, “Não queriam democracia? Aí estão os candidatos, he he…”.

Fernández afirmou que o debate sobre uma lei que regule o mercado das empresas de comunicação é ainda inexistente no Chile. Acredita também que, nessa eleição, caso Sebastián Piñera (2010-2014) seja eleito, em 17 de dezembro, ele irá paralisar as reformas sociais do atual governo de Michelle Bachelet, mas não retroceder. Não aposta em ações muito bruscas, pois Piñera deverá evitar as mobilizações de rua, como as marchas pela educação pública, em agosto de 2011. Patricio escreve colunas para o The New York Times, em espanhol.

No mapa da imprensa escrita chilena, como encontra-se o The Clinic?

No Chile, a imprensa escrita é feita por dois grandes grupos, que é o El Mercurio e o grupo Copesa, dono do La Tercera. Cada um desses grupos é dono de vários jornais. O Mercurio é proprietário de jornais regionais e o Copesa tem La Tercera, La Cuarta, a revista Qué pasa, o jornal La hora (proprietário também de diferentes rádios). El Mercurio é de uma direita muito conservadora e Copesa e La Tercera também são de direita, mas uma direita mais nova, como dizer.. O El Mercurio representa uma classe social, de um mundo cultural, como a antiga direita chilena. Copesa, o dono é Álvaro Saieh, que é de uma riqueza nova, digamos. Mas, no Chile, imprensa de esquerda ou de outro setor não há nada.

O The Clinic surgiu como um panfleto, quando Pinochet foi preso em Londres. Era composto mais por escritores, poetas, pintores, desenhistas, e foi crescendo aos poucos, até se converter na revista mais lida do Chile, em determinada época, e agora temos também um site do The Clinic que é muito lido. Mas a falta de diversidade de imprensa no Chile é um dos assuntos que tem sido mais comentado, lamentado e analisado desde o retorno da democracia. Ou seja, há muito pouca imprensa no Chile, muito pouco plural.

E The Clinic é a alternativa hoje aos leitores?

Claro, totalmente. O The Clinic nasceu para rir, burlar e combater a memória de Pinochet, é um meio de centro-esquerda e não militante, de forma alguma. Mas sempre tivemos candidato nas eleições presidenciais, desde que o semanário existe, menos agora.

Foi uma decisão editorial?

Bastante, porque acredito que o que nos acontece, é o mesmo que a um grupo importante de chilenos, que pertencemos a um certo mundo político e cultural, mas que não nos vemos representados por nenhum candidato. É um mundo que está dividido em vários candidatos, em distintos grupos políticos, então é de se esperar que agora que estão na oposição seja gerada uma conversa em busca de um caminho comum. O The Clinic pertence um pouco a isso, mas sobretudo é uma imprensa de falta de respeito, sem ideologia nítida, mas com uma curiosidade, com ânimo de jogar, de buscar, mais que de defesa por uma convicção, ou seja, nós não protegemos nenhum mundo de pensamento, andamos extraviados pela vida, andamos perdidos (risos).

Nunca se discutiu a democratização da comunicação no Chile, sobre uma lei que regule o mercado das empresas de comunicação audiovisual?

Não, nunca se falou de uma lei de meios. Agora, no programa de governo de Guillier, há uma proposta de lei de meios. A concentração dos meios de comunicação sempre foi um assunto de debate, principalmente no mundo político, mas nunca foi feito nada. Nesse país, o capitalismo e o livre mercado se converteram em religião, uma fé absoluta, então qualquer coisa que interfira nessa liberdade econômica, seja nos meios ou em qualquer outro setor, resulta como inaceitável. Mas já chegará o momento de se discutir. É um debate que está por vir, ainda não existe.

Nessas eleições, como se comportou a imprensa chilena e que influência pode chegar a ter no resultado do segundo turno?

Acredito que a imprensa tem sido muito dura e muito hostil com o governo de Michelle Bachelet. Tem tido como um coro midiático que a tem tratado com muito desprezo. Nessa eleição, tem funcionado nesse mesmo sentido. É uma imprensa muito de direita. Mas, agora há de se considerar que nem tudo é a imprensa tradicional, existe a internet e as redes sociais, e tudo isso tem um funcionamento que é difícil, às vezes, de detectar como acontece. Para essas eleições, sei que a campanha de Piñera contratou bots, que são como robots que colocam mensagens nas redes sociais, como twitter, facebook, ou geram climas, um monte de opiniões.

Mas aqui estamos acostumados a viver com uma imprensa muito de direita, ninguém mais estranha, como se fosse um dado de causa e, portanto, tem uma presença e difusão dos candidatos de direita superior aos de esquerda. A imprensa é claramente alinhada com Piñera, assim como Piñera está alinhado com o mundo empresarial. Os canais de televisão no Chile são propriedade das mesmas grandes fortunas chilenas. Mas é verdade também que há espaço para todo tipo de opinião dentro dessa imprensa, mas a linha editorial e o marco onde tudo isso fica encaixado é de direita.      

E suponhamos que ganha Piñera, de quais mudanças políticas se tem falado, e o que pode acontecer de diferente?

Acho que não teríamos mudanças muito bruscas. Acho que o primeiro que Piñera faria é deter as reformas de transformação social que começou Bachelet, não continuaria com a reforma na educação. Mas não acredito que irá retroceder nessa matéria, porque já são conquistas asseguradas. Há uma direita muito conservadora e muito extrema que gostaria suprimir novamente a lei do aborto, que não se possa abortar nas três causas (estupro, risco de vida da mãe e má formação fetal), mas não irão conseguir.

Acredito que Piñera irá se dedicar, principalmente, a ativar a economia, de não prosseguir com os direitos sociais e de parar esses progressos. Mas, como te digo, não sou dos que acreditam que é necessário gritar porque Piñera irá retirar tudo e devolver o Chile há 10 anos, não será assim. Se assim fosse, teria uma oposição muito forte, porque Piñera terá muito pouco voto, o apoio real de Piñera é a maioria dos que votaram, mas é muito minoritário em termos de país. Se vota menos da metade da população, por exemplo, e você pensa que a metade dessa metade vota por Piñera, ele tem o apoio de 20% dos chilenos, mais ou menos. Então, qualquer coisa muito violenta que faça, terá mobilização nas ruas. No seu governo anterior, todas as marchas da educação, das centrais hidroelétricas Hidroyasén, quando saiu muita gente ás ruas. Acho que agora Piñera não vai querer mexer muito nas coisas, para que isso não volte a acontecer. E não saia às ruas, novamente, uma oposição muito forte.    

 

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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2 Comentários
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  1. Brasileira

    23 de novembro de 2017 2:33 pm

    A Esquerda que a  Direita

    A Esquerda que a  Direita ama: vai catar coquinho, não aguento mais essa gente desmiolada que finge que não sabe o que está em jogo….

    1. Maíra

      24 de novembro de 2017 2:34 pm

      Meio de esquerda tem que apoiar candidato de esquerda?

      Por mais polemico que seja um meio de comunicação de esquerda não apoiar nennhum candidato de esquerda, em uma eleição presidencial, esta é uma decisão editorial como seria outra qualquer, política e econômica também. Com a diferença de que a direita sempre tem um candidato, pois pode ser mais vantajoso do ponto de vista de ter anunciantes. Políticos e donos dos meios de comunicação, como sabemos, muitas vezes, coincidem em seus interesses e se utilizam mutuamente, e isso é o que caracteriza os grandes meios.

      Fora da hegemonia dos grandes grupos de mídia, a voz jornalística dita alternativa precisa fazer-se ver como mídia e ter possibilidade de acesso mais competitivo ao mercado dos meios de comunicação, e isso pode acontecer com candidato ou sem candidato, com linha editoral partidária ou fora da partidarização do veículo. A sustentação de um meio, qual seja a sua linha editorial, tem “apenas” que poder ter possibilidade de competir no mercado e isso depende de política pública para a democratizar a comunicacao. Depois, o que é política editorial, militância jornalística, que cada mídia possa se expressar politicamente e o leitor decidir segundo sua preferencia.

      Comentando o caso do semanário The Clinic, acredito que um meio de esquerda que decida por nao apoiar a uma candidatura de esquerda, marginalizada pelos outros meios massivos, que não tem a sequer a foto nos jornais, nunca, e foi o destaque das eleições chilenas, que é o caso da coalizão Frente Ampla, há de se esperar que a sociedade comece a perceber a falta de direito á informação, cobre do poder público e do governo a discussão sobre a democratização da informacao. O impresso, ou qual veículo de mídia seja, não tem que cobrir buracos da ausência do Estado e do poder público. Que possa militar, por qual bandeira for, o meio que assim quiser ou que também prefira a esse universo não pertencer.

      **

      Ao acompanhar as eleições no Chile, desde Santiago, vejo que a coalizão Frente Ampla, da candidata Beatriz Sánchez, é absolutamente ignorada pelos meios impressos locais, ainda tendo sido os grandes vencedores do primeiro turno, em presidenciais e no parlamento; não há foto, não há chamada, não há título que mencione a FA, nem foto de Sánchez. O que não acontece com a centro-esquerda, do candidato Alejandro Guillier, que, sim, tem mídia, ainda que façam campanha a Sebastián Piñera, mas é feita a cobertura de Guillier. Sánchez não tem nenhuma voz, somou nada mais que 20,27% dos votos para presidente.

      No panorama da comunicação privada marcadamente partidária, essa que se faz na maioria dos países da região (arisco dizer), com o padecimento da mídia pública e estatal, existe a consequência de não pertencer ao mercado (e não falo apenas do massivo), que torna certo jornalismo como sendo periférico, como são os meios ditos alternativos aos hegemônicos, é assim formado um cenário nada plural e diverso, além de vermos marginalizado o direito á informação.

       

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