TV GGN 20h: Tudo o que você queria saber sobre o apagão no Amapá

Confira o comentário de Luis Nassif sobre o apagão no Amapá, dentre outros assuntos, no programa desta quarta-feira (18/11)

O apagão no Amapá é tema do TV GGN 20 horas desta quarta-feira (18/11). O programa começa analisando os casos de covid-19 no Brasil. A alta expressiva estaria ligada aos dias em que o sistema do Ministério da Saúde ficou paralisado, e eles estão sendo publicados retroativamente.

“Esses dados são importantes para monitorar ou indicar as ações (…) O general Pazuello não tomou uma medida, nem para esclarecer ou resolver a questão do ataque”

Na análise dos dados divulgados, foram registrados 68.182 novos casos e 756 novos óbitos no Brasil. O total geral mostra avanço expressivo na média diária de casos e de óbitos. “Sendo ajuste estatístico ou não, é impressionante a falta de proatividade do general Pazuello”

Na análise dos dados internacionais, os Estados Unidos chegam a 154 mil casos em apenas um dia, e o Leste Europeu domina os dez maiores aumentos de casos dentro da média diária de sete dias.

Mesmo tendo passado por dois picos, a França continua a liderar os casos per capita, junto com a Sérvia e a Bulgária. “A segunda onda tem picos muitos mais fortes do que na primeira onda”

Sobre a vacina da Pfizer, Nassif diz que ela precisa ser distribuída com uma temperatura de 70 graus abaixo de zero e, ao ser retirada, ela precisa ser aplicada em até duas horas.

“Cá entre nós, vocês acham possível – mesmo com a estrutura de vacinas que temos – montar todo um sistema, se você já tem dificuldades para comprar frascos para distribuir? Como você vai fazer com logística de geladeiras, e a produção necessária?”

Ao abordar o apagão no Amapá, Nassif aponta o viés ideológico de analistas da Globonews ao abordar a questão. “O que a pandemia mostrou para a gente? Quando você tem temas técnicos, você tem que ter discussões técnicas, você não pode permitir polarização, não pode permitir terraplanismo”

“Toda a imprensa está fazendo um baita trabalho contra o negacionismo, contra o fundamentalismo do Bolsonaro (…) E um dos valores fundamentais do jornalismo é fazer a mediação de informações”

“Você tem um conjunto de informações desarrumadas, e um papel central é de fazer a seleção, organizar a informação e dar a boa informação”

“Quando você entra na discussão do modelo elétrico ou de qualquer discussão que envolve privatização, é um fundamentalismo similar ao fundamentalismo da pandemia. A cloroquina do setor elétrico é a privatização”

“Quando você vai montar qualquer modelo, tem que ter as regras, uma lógica que só o Estado pode dar, e aí você o papel que pode dar para cada agente”

Quando você pega o setor elétrico, por exemplo, o papel correto seria: você tem uma disputa entre vários geradores, e você tem que ter um canal neutro, que é o canal da transmissão

Você tem três áreas em energia: a geração, a transmissão e a distribuição. Os problemas que ocorreram no Amapá foram na transmissão, e a transmissão foi privatizada (…) Como você fala que é falta de recurso público, que o problema é não ter privatização?”

Em 2008, foi feita uma licitação para a linha que ia levar energia de Tucuruí até o Amapá, e quem ganhou foi essa empresa espanhola (Isolux).

Leia também:  Paulo Guedes insiste em imposto sobre transações eletrônicas

As empresas europeias vieram para cá por uma razão muito simples: a crise de 2008 paralisou a Europa. As empresas de engenharia ficaram ociosas na Europa e passaram a vir para o Brasil.

“Essa empresa espanhola veio para cá, entrou nessa licitação de transmissão, entrou em obras no Peru, entrou em obras no Chile, entrou em obras na linha 4 do metrô e se endividou demais”

“E você tem a crise da América Latina, que vem a partir de 2014/2015 com a queda dos preços das commodities e ela não segurou a peteca. Tentou fazer um aumento de capital, não deu certo, tentou fazer uma recuperação judicial, não deu certo. Os donos foram presos por sonegação fiscal”

“A empresa entrou em uma baita crise, que entra em 2016. O contrato tinha várias cláusulas, que envolvia até a perda da concessão. Nós estávamos no governo Temer. Então, quando vem a crise, o governo Temer tinha que ter atuado, mas a privatização é sagrada.

E nada se fez nesse período. A empresa foi empurrando com a barriga, em 2017/18 conseguiu recuperação judicial aqui no país, e só em 2020 acabou vendendo a parte da transmissão para um desses fundos que compram empresas quebradas. E a ANEEL deixando passar tudo

Eles tinham três transformadores. Um estava queimado, o outro explodiu e o terceiro pegou fogo. Ou seja: não tinha nem o backup. Nem o backup

Eu estava vendo na Globonews, e o Adriano Pires (que defende a privatização a qualquer preço) falando que a culpa foi da Dilma por ter praticado populismo tarifário – em 2008, ela exigiu que, para licitação, houvesse a oferta da menor tarifa. Ou seja, se o papel do Estado não é exigir a menor tarifa para proteger os consumidores, para que que é? (…) A empresa quebra 12 anos depois, e o Adriano Pires fala que a culpa foi da Dilma em 2008

“É complicado pelo seguinte: se você não tem uma discussão despolitizada, técnica, tudo aquilo que você quer em relação a covid-19, você tem que ter em relação ao setor elétrico. Estamos falando de segurança nacional que está no meio”.

“Vocês estão vendo o que está acontecendo no Amapá, é um negócio tão ou mais relevante do que a pandemia. A pandemia vem e passa, a questão elétrica não – se você não tomar uma atitude agora, você vai comprometer o futuro de uma forma irreversível”.

“Mas a discussão é só em cima de bordão, é que nem a cloroquina do Bolsonaro. Se der um pepino qualquer, ‘não, é falta de investimento do governo e resistência à privatização’. Não se dão ao trabalho nem de estudar o que está acontecendo, para saber que a crise foi de uma empresa privada”

“Significa que tem de tirar as empresas privadas? Não. Significa que, se você não tiver uma racionalidade para aproveitar a crise e fazer uma discussão profissional”, debatendo o papel de todos os agentes para gestão, inclusive em casos de crise”

“A Inglaterra, que é um país privativista de Margareth Thatcher, mantém as linhas de transmissão estatais, que sabe que é uma questão estratégica até para permitir a competição do setor privado.

Leia também:  A violência racista e a responsabilidade da Polícia Federal

Quando você transforma o problema de um setor complexo, como o elétrico, em uma questão de privatização versus estatização, você está dando força lá na ponta para enfraquecer a visão técnica da ANEEL, a visão técnica da ONS, e abre espaço para lobby. A ignorância tem consequência

O mínimo que se exige aqui, depois de todo esse trabalho da pandemia, é você trazer a ciência e a análise técnica para outros pontos da vida nacional.

Sobre o segundo turno das eleições, Marília Arraes ultrapassou João Campos e, em São Paulo, pesquisas mostram que a diferença entre Bruno Covas e Guilherme Boulos caiu para 16 pontos.

Nassif entrevista Ronaldo Bicalho, do Instituto Ilumina, abordando a questão do modelo elétrico. Bicalho explica que o setor elétrico brasileiro tem especificidades muito grandes e, na verdade, “é um setor elétrico único no mundo”

O setor elétrico brasileiro é único não só em cima da opção pelo hidráulico, mas também pela questão do uso conjunto de reservatórios, aproveitando a escala e a geografia favorável do país

“Você tem uma caixa de água, e onde está sempre entrando água em alguma parte (…) É uma máquina que foi concebida para operar em conjunto, como se fosse uma máquina só.

“A principal característica do sistema elétrico brasileiro é sua unicidade”, dia Bicalho. “E esse conjunto, essencialmente, são os reservatórios e os conjuntos de transmissão”

Quando se faz a chamada transição para o mercado, se tem início a fragmentação do setor e, segundo Bicalho, “você vai implodindo o setor por dentro”

“O que o PT fez em seu governo foi viabilizar uma coisa que o governo FHC não teve competência para fazer, mas foi a competição pelos leilões. Mas isso foi fragmentando, introduzindo novos agentes”

E a presença de novos agentes exige um grande trabalho de coordenação, e Bicalho cita o caso de uma subestação no Distrito Federal, onde chegam cinco linhas de transmissão, de cinco empresas diferentes.

“Uma coisa que ficou claro no Amapá: “ao fazer uma linha de transmissão, você não tem economia de escala (…) Quando o cara fala que não tem pessoal para manutenção, não tem recurso, quantos equipamentos para check up?”

Outro exemplo citado por Bicalho é o blecaute que ocorreu nos EUA em 1965. “O que fazer? Tem que ter margem de reserva e aumentar a reserva para que possa ser distribuída pelo sistema e não ficar muito caro”

Quando você divide demais, a empresa não tem equipamento, pessoal, recursos para fazer isso. A questão fundamental no Amapá é simplesmente uma questão de fragmentação”

“Se o setor foi montado para montar como uma coisa só, me desculpe, mas a lógica da competição é da fragmentação, do enfrentamento. A lógica é o exercício de autonomia do empresário, mas você fez uma lógica que foi fragmentando e fazendo vários puxadinhos”

“O setor elétrico no mundo e no Brasil, antes dessa crise gigantesca, já passava por uma grande transformação (…) Os agentes brasileiros fazem o seguinte: operam no curto prazo e na agenda individual, não tem visão de conjunto”

Leia também:  TV GGN 20h: O raio-X das eleições nos Estados

O comentarista Vinícius Amaral aborda o impacto da reforma administrativa sobre os municípios: “se for aprovada a reforma administrativa apresentada pelo governo, as próximas eleições podem definir que servidores públicos entram e que servidores públicos saem do serviço público”

“A PEC 32/2020 traz uma série de mecanismos que permitem que boa parte, senão a totalidade, dos servidores do serviço público possam ser substituídos a cada eleição, por conta da perda de estabilidade”

“Conforme proposta do governo, apenas as carreiras típicas de Estado teriam direito a estabilidade”.

Nos municípios, grande parte dos servidores são dedicados a áreas como saúde e educação que, no entendimento do governo, não seriam carreiras típicas de Estado, e não estariam protegidas pela estabilidade”

“Com isso, esses servidores poderiam ser demitidos a cada troca de governo – aliás, foi exatamente isso o que o presidente Bolsonaro disse em entrevista no ano passado”

Outro mecanismo que aumenta a fragilidade é o fim da exigência de que os cargos em comissão precisem ser ocupados por um percentual mínimo de servidores efetivos, e que cargos de confiança sejam ocupados por servidores de carreira.

“Com a proposta do governo, todas essas funções poderiam ser indicadas livremente – o que poderia abrir até 500 mil novos cargos indicados politicamente nos municípios”

“Ao invés da proposta do governo reduzir esses problemas da influência política no serviço público, ela deverá aumentar isso, abrindo espaço não apenas para o patrimonialismo, mas permitindo que se faça tentativas de compras de votos por emprego no serviço público”.

O terceiro mecanismo é a expansão da possibilidade de contratação de servidores temporários. “A PEC institucionaliza a possibilidade de servidores temporários para todas as atividades”

“Tudo aquilo que puder ser feito por demanda, poderá ser feito por servidores temporários. Ao invés de contratar professores por concurso público, poderiam ser contratados para ministrar uma disciplina em um certo ano letivo, fragilizando ainda mais a prestação do serviço público”

“Com isso, a gente vê que a proposta de reforma administrativa do governo pode trazer um grande retrocesso para a prestação do serviço público nos municípios”, diz Amaral

Para Nassif, o que acontece no Brasil com o desmonte do Estado ‘é terraplanismo’. “Você quer fazer negócios, você vende a ideia de que tudo o que vem do setor privado é bom – é igual a cloroquina do Bolsonaro”.

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

3 comentários

  1. Acompanho o Nassif faz muito tempo. Desde quando era comentarista de economia na TV. Pessoa séria e com conhecimento. Sabe o que diz e dá credibilidade. Mas Nassif precisa separar uma privatização da Eletrobras da Petrobras. Poderia elencar várias razões para ser favorável a privatização da Petrobras. Uma delas é que a gasolina no Brasil é mais cara que em Portugal que importa 100% de petróleo. Não façam a conversão com esse euro = 6,30 reais. Façam com o euro no tempo de Lula e Dilma. Tenho outros vários argumentos. É o caso da falida Varig. Nunca foi empresa para brasileiros. Em 1995 comecei a viajar para a Europa. Sempre Varig. Até pesquisar preços. A Air France era muito mais barata. TAP e Iberia idem. E aeronaves muito mais novas. Em 2000, as aeronaves da AIR France já tinham em suas poltronas, uma tela com filmes, jogos etc para cada passageiro. O bar era aberto toda a mnadrugada e vc se servia. Enfim, são verdades que devem ser ditas. A Eletrobras é diferente da Petrobras. A Petrobras é muito boa para seus funcionários. Como a varig. Para os brasileiros, não.

  2. Este senhor tem uma visão extremamente limitada. Possivelmente um comerciante sem visão do conjunto do Pais. Como viajava muito para o exterior deve carregar a pior de todas as dependências que é a dependência mental. Ele não percebe que o capital privado brasileiro não tem absolutamente nenhum compromisso com a viabilização de um país soberano. Para ser mais atual, a avenida paulista e a cidade de Deus já definiram a associação com o capital externo e o futuro é a escravidão branca. A governança é cada vez mais externa. Não existe um fator de coesão capaz de unir o povo e mudar o seu destino no Brasil

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome