Qual é a porta de saída do Bolsa Família?

Por ArthurTaguti
 
 
Concordo e discordo.
 
Bolsa Família como medida emergencial é uma ideia maravilhosa de política pública, pois além do custo “barato” em termos orçamentários (0,5% do PIB), transforma em direito algo que sempre foi considerado “favor”, vide coronéis que na época das eleições compravam votos por “um par de sapatos ou um saco de farinha” (grande Herbert Vianna).
 
Por outro lado, nunca é bom esquecer que programas de transferência de renda tal qual o BF foram gestados nos corredores do Banco Mundial/FMI, que elegeram-no como substitutivo não dispendioso (de novo, 0,5% do PIB) para os gastos sociais do Welfare State (ou tentativas de), que pretendiam (e conseguiram, em parte) desmantelar com o Reaganomics, Thatcherismo, Consenso de Washington e outros.

 
Você erra, quando julga o BF desnecessário, uma vez que já foram comprovados os efeitos benéficos do programa para a cidadania, economia e, melhor, dignidade dos nossos descamisados. Mas acerta em cheio quando indica que o Bolsa Família cumpre exatamente o papel previsto pelos burocratas do financismo internacional: substitutivo do (muito dispendioso) investimento em educação básica, tanto que esta política pública foi celebrada mundo afora pela Economist, Banco Mundial, FMI e outros.
 
Que Lula queira aparecer em spots televisivos dizendo que “enquanto eles reclamam, o Bolsa Família só faz crescer” é compreensível, em termos eleitorais. Mas em termos de um planejamento bem estruturado para levar real desenvolvimento ao país, ou uma discussão séria sobre os rumos do governo, o papo é outro.
 
Nós não estamos mais em 2003, em 2006, sequer em 2010; agora, neste final de ano, o PT completa 11 anos de poder federal e 50 milhões de pessoas, ou seja, 1/4 da população, encaram R$ 152,00 como a salvação da lavoura, sendo que o principal líder do partido não fala de educação como principal mote, nem de pesquisa/tecnologia, mas de Bolsa Família, que fatalmente crescerá. Ora, que porta de saída este programa tem, se ao invés de sua paulatina redução de beneficiários, eles só fazem crescer?
 
Foi estabelecido um consenso de que todo crítico do Bolsa Família é um reacionário. Mas mesmo os “reaças”, apesar de movidos por um inequívoco sentimenti anti-povo/anti-pobreza, tem seu quê de razão. Se o governo federal, desde 2003, tivesse colocado a educação básica como pilar central de seu governo, junto com o combate a miséria extrema  (sim, é possível fazer isto pois, como já dito, o BF demanda 0,5% do PIB), quais as expectativas de desenvolvimento que estaríamos esperando para as próximas décadas?
 
Porta de saída não é só ensinar o beneficiário atual do Bolsa Família a ser motorista de ônibus, eletricista ou encanador. No máximo torna o cara de miserável para pobre, o que é um avanço, mas não quando buscamos nos comparar a China como países em processo de ascensão. Tampouco é uma solução dar cotas ao filho deste encanador; sim, cotas também são um avanço, mas não substituem uma educação básica de qualidade, motor necessário para formar bons cientistas, pesquisadores, intelectuais e professores.
 
Porta de saída mesmo é investir maciçamente em educação básica para que o filho do beneficiário possa se instruir para poder se tornar um bom engenheiro, bom advogado, bom médico, bom professor, bom pesquisador, enfim.
 
Como até agora não se viu o governo federal construindo a tal “porta de saída”, não chega a ser tão absurda a afirmação do AA  de que se faz populismo, uma maneira torta de fidelizar votos com um ótimo (cabe ressaltar aqui) programa. Afinal, os 50 milhões que dependem do programa votam no PT, certo? Vai saber para que direção iriam se o Estado começasse a ofertar educação de qualidade…

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1 comentário

  1. Como se a sociedade não

    Como se a sociedade não precisasse do Motorista de ônibus, do Eletricista e do Encanador.

    A porta de saída é pagar salários justos para esses profissionais, é pagar o que o serviço deles vale, ou então faça o seguinte: faça você mesmo a instalação elétrica de sua casa. Será que é capaz?

     

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