Zema é um Bolsonaro de férias, por Francisco Fernandes Ladeira

Não é só ignorância e ódio à ciência; também é um cálculo eleitoral: o governador mineiro é um dos cotados a ocupar o posto de Bolsonaro

Agência Brasil

Zema é um Bolsonaro de férias

por Francisco Fernandes Ladeira

Entre analistas políticos, há uma máxima, bastante difundida, porém de autoria incerta, que diz ser o liberal um fascista de férias. Adaptando esta premissa ao atual contexto brasileiro, podemos dizer que Zema, principal nome do Partido Novo, é um Bolsonaro de férias.

Não bastasse o fato de o ex-presidente inelegível, durante os piores momentos da pandemia da Covid-19, ter adotado discursos e posturas negacionistas e antivacina (o que contribuiu decisivamente para centenas de milhares de infectados e óbitos por causa do novo coronavírus), agora foi a vez do governador de Minas Gerais decretar que não será obrigatório apresentar comprovante de vacinação para se matricular na rede estadual de ensino.

A medida de Zema vai contra orientação do Ministério da Saúde, que sugere a exigência de vacinação e, consequentemente, também contraria o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que estabelece ser “obrigatória a vacinação das crianças nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias”. A “justificativa” para a medida bolsonarista de Romeu Zema é a evasiva palavra de ordem “defesa da liberdade” (nesse caso, “direito de infectar o outro”).

Não se trata apenas de ignorância e ódio à ciência; também é um cálculo eleitoral: o governador mineiro é um dos cotados a ocupar o posto de Bolsonaro como candidato da extrema direita para enfrentar o PT na próxima eleição presidencial.

Como o país voltou a crescer, gerar empregos e, ainda por cima, recuperou a respeitabilidade no cenário internacional, cada vez mais a extrema direita deixará de lado questões econômicas e se voltará para requentar discursos negacionistas, teorias conspiratórias e a chamada “pauta dos costumes” (tomara que a esquerda não caia nessa arapuca, como ocorreu em 2018). Não por acaso, recentemente Zema afirmou que, no Brasil, “homem branco, heterossexual e bem-sucedido é rotulado de carrasco”. Só faltou falar em “racismo reverso”.

Por outro lado, um efeito colateral positivo dessa bolsonarização de Zema é demonstrar, para quem ainda tinha dúvida, a verdadeira face do Partido Novo, uma espécie de “extrema direita personnalité”. Basta lembrar que o próprio governador de Minas Gerais, em seu perfil no Instagram, já compartilhou uma frase atribuída a ninguém menos do que Benito Mussolini.

Portanto, aquela piada “a culpa não é minha, eu votei no Amoêdo!”, para se referir aos eleitores envergonhados de Jair Bolsonaro mediante ao desastre do governo do “mito”, não cola mais. Ambos apresentam o mesmo projeto de país: a aplicação da política neoliberal de terra arrasada.

Para terminar este pequeno texto, cito outra conhecida anedota política de autoria desconhecida. Um liberal e um fascista entram num restaurante. O garçom prontamente pergunta: “Mesa para um?”.

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Francisco Fernandes Ladeira é doutorando em Geografia pela Unicamp. Autor de catorze livros, entre eles “A ideologia dos noticiários internacionais” (Editora CRV).

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Redação

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