6 de junho de 2026

Artigo no BMJ propõe repensar sistemas de saúde na Amazônia a partir de saberes tradicionais

Parteiras já conciliam práticas biomédicas e ancestrais para oferecer cuidados em áreas extensas e de difícil acesso
Marcelo Camargo - Agência Brasil

Pesquisadores brasileiros de diferentes áreas defendem, em artigo publicado no British Medical Journal (BMJ), que os sistemas de saúde da Amazônia precisam passar por uma reformulação profunda diante do avanço das mudanças climáticas, do aumento de eventos extremos e do agravamento da insegurança alimentar. A proposta inclui incorporar os saberes tradicionais e considerar as demandas específicas das populações que vivem no território amazônico.

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No contexto da realização da COP30 na região e da elaboração recente de um plano nacional de saúde e clima pelo Ministério da Saúde, o artigo aponta caminhos para adaptar o Sistema Único de Saúde (SUS) à realidade amazônica. Entre eles estão a criação de indicadores capazes de captar as particularidades locais e a valorização de práticas de cuidado ajustadas às condições ambientais, sociais e culturais da região.

Segundo Gabriela Di Giulio, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) e uma das autoras do texto, o setor da saúde demorou a se inserir no debate sobre a emergência climática, especialmente no que se refere à adaptação. “No entanto, ele deveria ser protagonista, visto que os eventos extremos, como ondas de calor, enchentes e tornados, têm se intensificado e afetado cada vez mais pessoas”, afirma. Di Giulio também integra a coordenação científica do Programa BIOTA-FAPESP.

Para os autores, repensar a saúde na Amazônia sob uma perspectiva crítica de sustentabilidade exige o fortalecimento de estratégias que articulem conhecimentos tradicionais, científicos e políticos. Entre as recomendações está a adoção de modelos de vigilância em saúde baseados na comunidade e ancorados em epistemologias indígenas.

O artigo também destaca a importância de valorizar os saberes tradicionais ligados à alimentação, como forma de conter a expansão do consumo de alimentos ultraprocessados. Em algumas localidades, essa abordagem híbrida já é adotada pelo sistema público de saúde. Um exemplo citado é o trabalho das parteiras, que conciliam práticas biomédicas e ancestrais para oferecer cuidados em áreas extensas e de difícil acesso.

Os pesquisadores defendem um modelo de adaptação orgânica que reconhece rios e florestas como agentes ativos dos processos de saúde e doença, além de considerar os povos tradicionais como detentores de conhecimentos fundamentais para a resiliência climática. Nesse contexto, o artigo recorre ao conceito de “territórios fluidos”, amplamente utilizado pela Fiocruz Amazônia.

De acordo com Leandro Giatti, professor da FSP-USP e coautor do estudo, o rio é o principal meio de transporte e acesso aos serviços de saúde na região, mas sua imprevisibilidade impõe desafios que não se encaixam nos modelos convencionais. “Nas duas últimas secas, em 2023 e 2024, por exemplo, comunidades inteiras ficaram isoladas. O rio secou. Portanto não tinham acesso à saúde, não tinham posto de saúde, a equipe de saúde não conseguia chegar às áreas afetadas”, relata. Ele acrescenta que a seca agravou problemas como doenças transmissíveis, contaminação da água e fome, reforçando a necessidade de que o sistema de saúde se adapte a essas condições.

Em uma análise mais ampla, Di Giulio alerta que a manutenção do atual modelo de desenvolvimento, aliada ao descumprimento de acordos climáticos, pode colocar em risco a sociobiodiversidade amazônica — elemento essencial para reduzir o sofrimento social e os impactos da emergência climática.

O texto ressalta ainda que os povos indígenas possuem uma concepção integrada de saúde, que engloba dimensões espirituais, sociais e ambientais. Doenças como malária e COVID-19 são compreendidas não apenas sob o ponto de vista biológico, mas também como reflexo de desequilíbrios causados por ações humanas, pelo desrespeito à natureza e à violação de territórios considerados sagrados.

Historicamente, a Amazônia foi tratada como um espaço destinado à exploração econômica, com políticas públicas que ignoraram a presença e os direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais. Segundo os autores, essa lógica resultou em perda de biodiversidade, destruição de territórios sagrados e impactos severos sobre a saúde física e mental das populações locais.

Dossiê

Além do artigo sobre os sistemas de saúde na Amazônia, o grupo publicou outros três trabalhos, compondo um dossiê dedicado às relações entre mudanças climáticas e saúde. Um dos textos analisa como a atuação de mulheres indígenas no enfrentamento da COVID-19 no rio Negro pode inspirar respostas a emergências climáticas. Outro discute a necessidade de novas formas de governança socioambiental na Amazônia e seus efeitos na adaptação às mudanças do clima. O quarto artigo problematiza o esforço brasileiro para sediar a COP e retomar o multilateralismo, ao mesmo tempo em que o país enfrenta contradições internas, como a exploração de petróleo e a tramitação de projetos de lei considerados antiambientais.

“Buscamos, neste dossiê, trazer um olhar decolonial, a partir das nossas pesquisas, experiências e análises, para dar maior prioridade a temas que emergem das especificidades e complexidades do Sul global, tensionando também os espaços editoriais de periódicos, que muitas vezes refletem a visão do Norte global”, afirma Di Giulio.

O grupo reúne pesquisadores da FSP-USP, da Universidade de Brasília, da Universidade Federal do Amazonas, da Fiocruz Amazônia e da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca.

O artigo Health systems in the Amazon need to be reimagined for a more sustainable future está disponível em: bmj.com/content/391/bmj.r1925.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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