Apenas nos três primeiros meses deste ano, o valor das apreensões de canetas emagrecedoras no Paraná, adquiridas no Paraguai, já superou o total registrado em todo o ano de 2025, mais de R$ 11 milhões em apenas um trimestre. Em Foz do Iguaçu, as canetas já são o segundo produto mais apreendido do ano, atrás apenas de celulares, impulsionadas sem qualquer limite por influenciadores digitais nas redes sociais.
As canetas emagrecedoras, com destaque para a retatrutida, são encontradas no país vizinho por até R$ 600. No Brasil, o valor gira em torno de R$ 1.500. Assim, o produto responde por quase 10% de todas as apreensões desse tipo no estado.
De acordo com levantamento feito pela Anvisa, a importação de insumos farmacêuticos para a manipulação das canetas tem sido incompatível com o mercado nacional. Somente no segundo semestre de 2025, foram importados mais de 100 kg de insumos, que seriam suficientes para a preparação de aproximadamente 20 milhões de doses.
Outro dado mostra que, em 2026, a Anvisa realizou 11 inspeções em farmácias de manipulação e importadoras, que levaram a 8 interdições por problemas técnicos e falta de controle de qualidade.
Atenção
Vendida no Paraguai sem restrição, a retatrutida é uma molécula experimental desenvolvida pela farmacêutica americana Eli Lilly que ainda está na terceira e última fase de testes clínicos. Consequentemente, não foi aprovada para uso humano em lugar nenhum do mundo e não há previsão de lançamento comercial, uma vez que a molécula só está disponível dentro de seus ensaios clínicos.
Em nota, a empresa alertou que versões não originais do candidato a medicamento “não foram testadas, não são regulamentadas e podem ser perigosas, em alguns casos, fatais”. Mesmo assim, produtos com o nome do medicamento são vendidos livremente nas farmácias de Ciudad del Este, no Paraguai, com anúncios em português nas vitrines e ampolas infláveis gigantes para atrair clientes brasileiros.
Mas a advertência da agência reguladora e da farmacêutica não afasta os consumidores. Uma advogada de 42 anos, em entrevista para aa BBC Brasil, foi flagrada na fronteira entre Brasil e Paraguai escondendo sete canetas do medicamento retatrutida coladas com fita adesiva no cóccix, cobertas por um casaco amarrado na cintura. Ao ser abordada por agentes da Receita Federal em Foz do Iguaçu, ela alegou carregar apenas um pote de Nutella.
“Tenho mais medo da gordura do que de aplicar esse medicamento em mim”, disse ela após ser descoberta. Mariane contou ter perdido mais de 20 kg em seis meses usando canetas compradas de um vendedor das redes sociais. A viagem ao Paraguai era sua primeira tentativa de economizar mais de R$ 300 por unidade indo diretamente à fonte.
A endocrinologista Carolina Janovsky, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), reforça os perigos do uso dessas versões não autorizadas. “Ninguém sabe se teve controle sanitário correto, se a dose que diz é a que tem, se está contaminado, se tem outra substância misturada”, afirma.
Há ainda o problema do transporte. As canetas precisam ser refrigeradas entre 4°C e 9°C. Quando escondidas em embalagens de salgadinhos, fones de ouvido, garrafas térmicas ou até em canos de escapamento de motos, como já foi encontrado por fiscais, elas ficam expostas ao calor. “Se a caneta estiver contaminada, quando esquenta, você está fazendo um meio de cultura de bactérias. E aí você vai injetar direto no seu corpo”, alerta Janovsky.
Casos de problemas graves de saúde e mortes associados ao uso dessas canetas foram registrados nos últimos meses. Em janeiro, uma jovem foi internada com o diagnóstico de Síndrome de Guillain-Barré, doença rara e grave que pode levar a óbito, após o uso de uma caneta emagrecedora vendida no Paraguai.
Crime organizado
Autoridades já identificam a presença de grandes organizações criminosas no contrabando de canetas. “Temos apreensões na casa de milhares de canetas quase que diariamente. São indícios bem fortes de que grupos criminosos estão operando nesse ramo”, afirma o delegado da Polícia Federal em Foz do Iguaçu, Emerson Rodrigues.
O produto atrai o crime organizado pelo mesmo motivo que atrai os consumidores: a relação entre valor e volume. “É um produto pequeno, não requer uma logística grande de veículos, como o cigarro”, explica Cláudio Marques, delegado-adjunto da Receita Federal.
Quem for pego transportando esses medicamentos pode ser condenado por crime hediondo contra a saúde pública, com pena de 10 a 15 anos de prisão.
No Congresso, tramita um projeto de lei para suspender temporariamente a patente da tirzepatida, na tentativa de baratear o acesso a tratamentos para obesidade no país. A patente só deve cair oficialmente em 2033 — e enquanto isso não acontece, a fila nas farmácias do lado de lá da fronteira continua crescendo.
*Com informações da BBC Brasil.
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