5 de junho de 2026

Proliferação de UPPs no Rio é preocupante, diz socióloga

Enviado por Gunter Zibell

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Do Terra

Socióloga: UPPs têm dificuldade de se sustentar

Por Paula Bianchi/RJ

Os recentes confrontos nas regiões do Rio de Janeiro que já receberam Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) e o descontentamento dos moradores, que teve seu ápice com o assassinato do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza por PMs da UPP da Rocinha em junho, levantam dúvidas sobre a perenidade do modelo, implementado pelo governador Sérgio Cabral (PMDB), que deixa o Palácio da Guanabara no final do mês. Se antes as UPPs eram vistas como ilhas de tranquilidade, agora casos de violências nas comunidades ocupadas são comuns. Apenas em fevereiro, uma policial militar morreu ao ser baleada na UPP do Parque Proletário, na zona norte da cidade, e o coordenador geral das UPPs, coronel Frederico Caldas, foi ferido ao ser surpreendido por um tiroteio na Rocinha no domingo.

Para a socióloga Julita Lemgruber, primeira mulher a comandar o sistema penitenciário do Rio de Janeiro entre 1991 e 1994 e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes (Cesec), o modelo não tem como se sustentar no longo prazo. Ela define a política de segurança pública do Rio como “esquizofrênica” ao pregar o modelo de polícia de proximidade em parte do território e fechar os olhos para a violência e a letalidade dos agentes no resto do Estado. “Falamos da garotada lá no Flamengo que está querendo fazer justiça com as próprias mãos, mas o que a gente não vê é que eles estão replicando um modelo que o estado desenvolve no dia-a-dia.”

Terra – O modelo de Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) se sustenta para além do governo Sérgio Cabral?
Julita – A UPPs têm dificuldades de se sustentar no longo prazo seja em que governo for. Mesmo que venha um governo que se proponha a dar continuidade ao programa, a modalidade de policiamento que as UPPs propõem implica em um número de policiais muito grande. Era mais fácil quando você só tinha meia dúzia. Todo o mecanismo de controle, tanto interno quanto externo, tinha mais chance de funcionar. Crescer nesse ritmo frenético – e estamos chegando a 40 UPPs, que é a meta até a Copa do Mundo -, é preocupante. A possibilidade de controlar a violência e a corrupção diminui muito. E é o que estamos vendo. O caso do Amarildo foi o mais emblemático, mas temos visto com frequência episódios envolvendo corrupção nessas unidades de polícia pacificadora.

Terra – Qual seria a alternativa à UPP?

Julita – Já houve no passado tentativas de policiamento comunitário que tinham mais chances de dar certo, mas que foram abandonadas por motivos políticos diversos. É algo que precisa ser construído com os moradores. A UPP é um modelo que se expandiu muito rápido e sem a devida articulação com as comunidades. No Cesec fizemos um levantamento com mais de 700 policiais e o que eles mais lamentam é a dificuldade de relacionamento. Eles são vistos pelos moradores como uma força militar de ocupação, a comunidade se sente invadida no seu cotidiano. Não adianta pensar que você vai entrar com uma força de milhares de policiais em 40 áreas diferentes e vai conseguir azeitar a relação entre polícia e comunidade com facilidade. Não nesse ritmo. Por outro lado, há uma questão que, para mim, é a questão central: o Rio de Janeiro tem uma política de segurança pública esquizofrênica. Se por um lado há uma tentativa de estabelecer um policiamento comunitário, de proximidade, como o governo chama, por outro a polícia continua a funcionar da mesma maneira no resto do território do Estado. Esse episódio que ocorreu depois da morte lamentável da policial militar Alda Rafael Castilho na UPP do Parque Proletário é um exemplo. O que houve no dia seguinte? Foi uma ação de vingança. Falamos da garotada lá no Flamengo, que está querendo fazer justiça com as próprias mãos, mas o que a gente não vê é que eles estão replicando um modelo que o Estado desenvolve no dia-a-dia. Mataram a soldado, no dia seguinte a polícia foi lá e matou meia dúzia. E não importa se essa meia dúzia era bandido ou não. A polícia não tem que matar. A polícia do Rio de Janeiro é a mais violenta e a mais letal do mundo.

Terra – Ao não condenar veementemente essas mortes na UPP do Proletário e as ocorridas em outras operações, como a ação que deixou dez mortes no Complexo da Maré em junho, você acha que o governo, de certa forma, apoia essa violência da polícia?

Julita – A diferença é que hoje nem o Sérgio Cabral nem o (José Mariano) Beltrame (secretário estadual de segurança) falam abertamente que essa é a modalidade de segurança pública que eles desejam, embora no passado isso já tenha acontecido. No início do seu primeiro governo, Cabral deu força a esse tipo de estratégia violenta da polícia. Ele dizia que a polícia dele não era covarde, que enfrentava. Depois aconteceram alguns episódios e eles tiveram que voltar atrás. Hoje o governo está inclusive premiando batalhões que conseguem diminuir a violência letal e devemos aplaudir isso. Mas no cotidiano essas ações continuam a acontecer e não são suficientemente ou adequadamente punidas. Não é só a Corregedoria que é corporativa ou a Polícia Civil que fecha os olhos. É também o Ministério Público (MP) que arquiva esses casos todos como autos de resistência. Todos os atores dentro do sistema de justiça criminal tem uma participação nisso. Todos têm culpa no cartório. Se a violência letal da polícia no Rio de Janeiro não é freada efetivamente, embora já tenha diminuído, é também porque não há uma mensagem clara que isso é inadmissível.

Terra – Você acha que as formas existentes de controle da polícia são suficientes?

Julita – Evidente que não. Precisamos de um órgão externo de controle forte, autônomo e independente. As ouvidorias de polícia quando foram criadas, em meados dos anos 90, vinham de uma discussão de que o norte desses órgãos seria a independência e a autonomia. Qualquer democracia que possa se orgulhar de funcionar como uma democracia tem um controle externo da polícia forte, e nós não temos. A Constituição diz que quem faz controle externo da polícia é o MP, só que o MP faz controle do inquérito. Ele não faz o controle das ações policiais na rua, da violência, da corrupção. Essa ideia estava muito clara dentro da proposta do primeiro governo Lula, mas isso nunca se concretizou. Estamos nos encaminhando para o fim do governo Dilma e isso nunca foi trabalhado como política pública, algo com que o governo federal realmente se preocupasse. Essa é uma questão que ter que ser induzida pelo governo federal.

Terra – A desmilitarização da Polícia Militar seria um caminho?

Julita – A desmilitarização da PM é um primeiro passo que já deveria ter acontecido há muito tempo. Temo uma estrutura vinculada a todo um arcabouço legislativo da época da ditadura. As PMs como forças auxiliares do exército. Toda essa estrutura precisa mudar, mas não adianta só isso. Precisamos de uma reforma das polícias muito mais audaciosa, agressiva, que pode estar começando na medida em que a PEC 51 está tramitando no congresso. Essa PEC pretende desconstitucionalizar as polícias, dar autoridade, legitimidade aos Estados para organizar suas polícias de acordo com as suas necessidades locais.

Terra – Quanto tempo mais a UPP pode se manter?

Julita – Tudo pode acontecer. A Copa do Mundo está aí, não sabemos como será. Há no ar uma série de preocupações. Que as manifestações se tornem mais violentas, rolezinhos se multipliquem como forma também de pressão, há preocupação de que grupos dentro das unidades prisionais possam provocar situações fora dos muros… Hoje, tentar imaginar nesse futuro próximo o que vai acontecer com as UPPs, o que vai acontecer com a política de segurança do Rio de Janeiro, é muito difícil. Até porque temos eleições no fim do ano. Dependendo de quem for eleito se espera uma política de segurança que não seja esquizofrênica. Que tenha a mesma proposta para todo o território do Rio de Janeiro.

Cintia Alves

Cintia Alves é jornalista especializada em Gestão de Mídias Digitais e editora do GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

13 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Francy Lisboa

    20 de fevereiro de 2014 2:24 pm

    Eu não veja nada de anormal

    Eu não veja nada de anormal nesse tipo de matéria, toda ação está aberta a crítica, até vindas daquele não tem coragem de tomar qulquer tipo de decisão. A cada dia me certifico que não é para qualquer um deliberar. Suas decisões, monocráticas ou não, sempre serão questionadas. Assim, por mais estranho que possa parecer, admiro nesse ponto  muitos politicos que tiveram coragem de ir e tnatr por suas ideias, mesmo as mais idiotas possiveis. Entrou no ringue e não quer levar porrada? Té aparecendo até o coitadinho do torcedores de Vasco e Atletico paranaense que se fufu naquele fatidigo dia.

  2. Ed Döer

    20 de fevereiro de 2014 3:09 pm

    Parte do problema é que a

    Parte do problema é que a implantação de UPPs deveria ter sido acompanhada com alguma forma de legalização do comércio de drogas, talvez estabelecendo um comércio local no local “ocupado” para minar a presença do tráfico ilegal de forma definitiva. Pois considerando o número de favelas no RJ, é praticamente inviável “ocupar” todas. Fora a questão das milícias, que é outro tipo de problema.

  3. xtecnico2

    20 de fevereiro de 2014 3:29 pm

    Mal executado

    As UPPs foram uma boa ideia, mas completamente mal executada.

     

    Há uma ocupação policial…. e ponto. Ocupação esta que, dizem as más linguas, nas maiores favelas foi combinada (negociada) com o tráfico antes para poder tudo sair como esperado.

     

    Na prática não acredito que diminua a violência, apenas a realoca. Meu medo é isto ser uma panela de pressão, e em algum momento explodir. Sempre que há ocupação da UPP em alguma comunidade também há migração dos traficantes para outra. É uma conta que no final não fecha.

     

    Torço demais para tudo dar certo e que eu seja apenas pessimista, afinal moro no Rio de Janeiro.

  4. Gilson AS

    20 de fevereiro de 2014 3:46 pm

    Creiam, quem sabotam as Upps

    Creiam, quem sabotam as Upps são os próprios policiais corruptos.

    Para os maus policiais não há interesse na pacificação, pois perdem uma grande fonte de renda que vem do tráfico.

    Sabem porque está havendo confronto em algumas comunidade pacificadas ? Porque os policiais corruptos recebem “arrego” do tráfico. Quando os policiais corruptos querem dá uma de machões, e bater de frente com o tráfico, há uma reação e revolta do tráfico, como temos visto.

    As Upps só darão certo quando os policiais deixarem de receber arrego.

    Sabem quando isso vai acontecer ? Vai ser difícil, pois onde rola dinheiro com facilidade há grandes possibilidades de haver corrupção.

    Simples !

  5. Filipe Rodrigues

    20 de fevereiro de 2014 4:33 pm

    Que o governo Cabral tem

    Que o governo Cabral tem interesses excusos não resta dúvida, bandidos são avisados e tem tempo para fugir antes da intalação das UPPs, a única favela de milícia que está pacificada é a do Batan (onde aqueles jornalistas foram torturados), junto com a Cidade de Deus (por ser conhecida e atrair turistas devido ao filme) são as únicas da zona Oeste com UPPs. Na favela que liga o aeroporto do Galeão através da Linha Vermelha, já foi instalada uma UPP?

    Agora, dizer que a proliferação das UPPs é preocupante, francamente, era melhor com os traficantes???

    O Beltrame é competente, o Rio ainda está melhor que São Paulo e Minas na segurança pública. Outro complicador é o péssimo ministro da Justiça da Dilma.

     

  6. C. Acácio

    20 de fevereiro de 2014 4:50 pm

    A alternativa às UPP´s , é a

    A alternativa às UPP´s , é a descriminalização das drogas. É preciso dar um basta a essa guerra estúpida entre o exército do tráfico e a polícia militarizada. Só nesse parágrafo três absurdos foram disparados : exército do tráfico , polícia militarizada e guerra . Os três precisam ser banidos do quotidiano de nossas vidas e a maneira de fazê-lo é retirando do estado o direito de legislar sobre o que faz do seu corpo , o cidadão. Que fique para o estado a punição da consequência …

    1. Injetado

      21 de fevereiro de 2014 12:22 am

      Que drogas? Qualquer droga?

      Enquanto houver drogas como crack, heroína, cocaína, etc., haverá tráfico. Mesmo com a maconha liberada.

      Há crimes derivados pelo próprio uso de drogas, ainda que liberadas. Pessoas que usam crack ou heroína roubam, se prostituem e mesmo matam, pois estão … sob o efeito de drogas! Não estão cidadãos. Serão, na melhor das hipóteses, besteirões. Na pior, viciados até o mais baixos níveis de himanidade (ex. crack).

      Talvez alguma liberação (sou favorável à da maconha, com comercialização controlada) diminua (o tráfico), mas aumentará o uso e não acabará com o crime.

      Sob hioótese alguma comunidades com dezenas de milhares de cidadãos podem existir à margem da sociedade,sob controles paralelos.

      Ruim com UPP? … Muito pior sem ela.

       

       

  7. Só Ociólogo

    20 de fevereiro de 2014 4:53 pm

    Prefere-se a dominação do tráfico?

    Ora, a UPP, perfeita ou não, retomou o controle da sociedade sobre comunidades que somam milhões, antes à mercê do tráfico, além de ganhar com e disseminar o uso de drogas, prostitução, etc. impondo toques de recolher, definido o que pode e o que não pode, pedágios, a lei do silêncio, o aliciamento de crianças para o crime e tantas outros absurdos e inaceitáveis sequestros de mínima cidadania.

    Eu mesmo já expressava desde o início que todo este processo (evidentemente bem sucedido, só compararr com o “antes”) precisaria de permanente revisão e manutenção. E é feito por uma polícia imperfeita (mas a prefiro à traficantes perfeitos), sujeita a desgaste e corrupção (no mundo também, em diferentes graus).

    Queiram ou não, boa ou ruim, a polícia pertence à sociedade, que o tráfico apenas a deteriora, ganhando com ela. As milícias são um controle também para-social e descontrolado. Só a polícia tem (chance de) controle social.

    O que precisamos é melhorá-la, assim como tudo neste país, reflexo da composição de sua própria sociedade. 

    Num país centenariamente desacertado como o nosso, isso certamente requer muito esforço, trabalho e perseverança.

    É assim na política, no Judiciário, na mídia, até no nosso nível empresarial, etc. Querer a perfeição ou escandalizar as imperfeições é apenas atrapalhar a evolução das boas (embora não completas ou definitivas) soluções

    É só olhar a infame polêmica do “Mais Médicos”…

    O que queremos? Um país perfeito? Um estado definitivo de coisas?

    Ou melhorar continua e consistentemente?

     

    PS: Tenho respeito pela Julita, que embora um tant(inho) ingênua, é interessada no tema e suas soluções. Mas como sempre, qualquer crítica é sempre sequestrada pela mídia como oportunidade política de destruição vazia.

     

  8. Durvaldisko

    20 de fevereiro de 2014 6:09 pm

    Julita é  tucana juramentada.

    Julita é  tucana juramentada. Pergunte seriamente o que houve com a proposta de  desmilitarização da PM.Melhor,  sua extinção. Plantaram-se  por  quase um ano,grupo de pressão composto por oficiais  das PMs dos principais estados da federação assediando  os parlamentares do congresso. Problema  é que   ex governadores tem  lá suas dívidas com as PMs de seus estados. Desencroar   o que os  milicos  se esmeraram por fazer ao longo   de  21  anos ,não  é tão fácil. Cabral pode  ter seus defeitos,talvez o  maior,na ótica  de Julita é não pertencer a sigla  de FHC.

  9. Orlando de Sousa

    20 de fevereiro de 2014 6:36 pm

    UPP é melhor
    As UPPs são o único caminho viável para uma mudança em relação a segurança pública aqui no Rio, o Cabral tem razão em defender  esse projeto. 

    1. evandro condé de lima

      20 de fevereiro de 2014 7:33 pm

      Enquanto as favelas

      Enquanto as favelas mantiverem a estrutura “urbana” que há, pode tirar o cavalinho da chuva.

  10. Rodrigo C Moreira

    20 de fevereiro de 2014 8:59 pm

    Podem anotar. Com o tempo o

    Podem anotar. Com o tempo o projeto vai murchar e as UPP’s irão se converter em milicias. 

  11. Cristiana Castro

    21 de fevereiro de 2014 1:19 am

    Não acho que a D. Julita deva

    Não acho que a D. Julita deva se preocupar com as manifestações e com uma possível ordem de dentro dos presídios para ataques na Copa, a menos que isso já esteja decidido; ou seja, a turma cheiros que já fez sua parte, sai de cena e entram os que vão seguir com o caos mas dessa vez armados.

    Problema bem simples de ser resolvido: Primeiro qq manifestação é de responsabilidade de quem convoca, isso sempre foi assim, só com os coxinhas é que a coisa foi amaciada; sempre o percurso é informado as autoridades para que a segurança dos manifestantes bem como o direito de ir e vir de quem não está no evento estejam garantidos. Ou seja, quem convoca uma manifestação contando com a mínima possibilidade de um grupo armado ” inflitra-se” nela, ou é louco ou tá fechado com esse grupo. Como não estamos tratando nem de um caso e nem de outro pode tirar essa preocupação da cabeça, D. Julita.

Recomendados para você

Recomendados