Volta e meia as torcidas organizadas perpetram cenas de selvageria nas arquibancadas dos estádios. Em todas elas há pessoas dispostas a massacrar adversários. Os motivos parecem ser vários: ressentimento e frustração, fanatismo, exibicionismo, desajustes mentais, emocionais e sociais. Sentir-se em grupo é fundamental, tanto por uma questão de segurança – ou covardia – como pelo exibicionismo característico de quem precisa se afirmar como machão dentro do grupo e, principalmente, para si mesmo.
Haveria bem menos dessas pancadarias se os brigões pegassem cadeia para valer. Mas, sabemos que a mídia repercute o espetáculo e o usa para vender jornais e as autoridades aproveitam para fazer declarações óbvias e bombásticas. Quanto aos dirigentes de clubes dizem que não tem com os facínoras qualquer relação, quando é sabido que não só não os enfrentam como apoiam essas torcidas, apesar das repetidas demonstrações de violência e do prejuízo que causam, pois afastam torcedores dos estádios.
Do lado das torcidas há muita gente que, de fato, só quer torcer, lideranças que tentam evitar as agressões. Mas, antes de tudo, estes querem o crescimento dos filiados e manter a liderança, o que exige cumplicidade com os mais radicais, afinal, a torcida do adversário é adversária e às vezes até mesmo outra organizada do mesmo clube são rivais a serem eliminadas. Então, como não intimidá-las, como não se mostrar mais agressivo e violento? Por outro lado, os filiados que cercam os dirigentes ficam em número insignificante perante os demais membros da torcida nos dias dos grandes jogos. Quem tenta impor limites pode acabar vítima, no mínimo perder liderança. Resta pois fazer como na Inglaterra: detectar os que iniciam conflitos, os que dele participam, os que estimulam, processá-los, determinar punições variadas, mas suficientes para desestimular a estes e para que sirvam de exemplo aos demais ainda não alcançados pelos processos.
Na última explosão de violência, no jogo entre Vasco e Atlético do Paraná, tivemos ainda a irresponsabilidade do Ministério Público, fiscal da lei, que proibiu a polícia militar de separar as torcidas. Deu no que deu, deveria também ser punido, mas sabemos que isso não acontecerá. Continua a defender que sendo evento particular, não cabe à polícia policiar. Um raciocínio tão idiota que se poderia dizer que a polícia não deveria intervir nem quando os torcedores estavam se matando, pois ainda estavam em um evento particular. Depois, quanto da renda dos clubes, remuneração dos jogadores, dos torcedores, não são pagos como impostos? Não reza a Constituição que a segurança é obrigação do Estado? Não consta que eventos fazem exceção.
Os que participam das agressões na verdade tem o mesmo DNA psíquico. Se por acaso, ainda garotos, aqueles agressores do Vasco fossem morar no Paraná, poderiam ter se transformados em torcedores do Atlético e então atacariam os do Vasco com a mesma irracionalidade.
Finalmente, assusta o aspecto francamente agressivo de parte da população, em qualquer regime. Há sempre os dispostos a quebrar estações do metrô, queimar ônibus, os que matam em grupos menores ou até individualmente. Sempre existiram, pela história compuseram esquadras fascistas, torturadores, grupos de carecas, gangues que agridem imigrantes ou cidadãos indefesos, até mesmo moradores de rua. Hitler conseguiu reunir o maior número deles, 4 milhões de alemães escolarizados, nas SA, horda tão incontrolável que ele mesmo decidiu extinguir, mas tão só para criar a SS, igualmente composta de facínoras, mas mais disciplinada e ideologicamente fanatizada. Juntou essa gente toda em meio ao povo alemão, então um dos mais educados da Europa. Stalin, por sua vez, juntou muitos milhares em suas polícias políticas, como a KGB. As ditaduras latino-americanas, Chile e Argentina à frente, fizeram algo parecido, extraindo torturadores e assassinos apenas dos meios militares. O Brasil seguiu de perto. O ser humano é um laboratório. Os psiquiatras e sociólogos devem ser invejados, tem um campo inesgotável de observação.
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