Trabalhadores de Apps em Cena: Maria Eldeane de Sena, por Daniele Barbosa

Mulher, negra, nordestina e ex-moradora de rua. Atualmente universitária em História. CEO da empresa Adinkra moda. Entregadora da Cooperativa Despatronados.

Trabalhadores de Apps em Cena: Maria Eldeane de Sena

por Daniele Barbosa

Com o avanço da precariedade politicamente induzida no Brasil, estamos assistindo à uberização se transformar em um modelo para as relações de trabalho. Diante dessa grave situação, precisamos encontrar maneiras de resistir a esse projeto neoliberal de destruição de direitos, que se acelerou com a reforma trabalhista de 2017. Dentre as formas possíveis de resistência, a construção desta coluna, que intitulei Trabalhadores de Apps Em Cena, busca “reconsiderar as formas restritivas por meio das quais a “esfera pública” vem sendo acriticamente proposta por aqueles que assumem o acesso pleno e os plenos direitos de aparecimento em uma plataforma designada.”[1]

Considerando o alerta da filósofa Judith Butler de que a mídia seleciona o que e quem pode aparecer[2] e que “o campo altamente regulado da aparência não admite todo mundo, demarcando zonas onde se espera que muitos não apareçam”[3], a construção desta coluna tem o propósito de colocar na cena principal as trabalhadoras e os trabalhadores, que aqui serão os entrevistados.

Após uma pesquisa[4] publicada no ano passado, na qual busquei fazer um diagnóstico acerca do projeto político em curso no Brasil para os motoristas de plataformas digitais, propus, neste ano, a um grupo de relevantes acadêmicos brasileiros que elaborassem uma única pergunta para compor essa série de entrevistas com os motoristas e os entregadores de Apps. Foram convidados os professores Joel Birman, Luis Carlos Fridman, Márcio Túlio Viana, Pedro Cunca Bocayuva, Ricardo Festi, Simone Oliveira e Wilson Ramos Filho. Cada um deles, conforme as suas respectivas áreas de conhecimento, formulou uma questão com base nos seguintes campos temáticos: “condições de subjetivação”; “solidariedade social”; “cooperativismo e relação de emprego”; “cidade e questão racial”; “luta dos movimentos sociais”; “gênero” e “pandemia e trabalho”. Coube a mim o tema do “empreendedorismo de si mesmo”.

A ideia foi colocar a Academia na construção das perguntas e na escuta das vozes daquelas e daqueles que trabalham, no dia a dia, em condições uberizadas. A opção foi pela publicação de uma única entrevista por semana. Afinal, queremos ouvir atentamente cada um dos entrevistados nas suas vivências singulares. É imprescindível que essas vozes circulem em uma afirmação de que suas vidas importam. Acredito que agir, não de maneira isolada, mas juntos, nos coloca em solidariedade uns com os outros, além de possibilitar uma maior capilaridade do debate acerca da uberização, que cada vez mais vai dizendo respeito a todos nós. As alianças, portanto, se fazem necessárias.

Entrevista com Maria Eldeane de Sena

Mulher, negra, nordestina e ex-moradora de rua. Atualmente universitária em História. CEO da empresa Adinkra moda. Entregadora da Cooperativa Despatronados.

DANIELE BARBOSA: As recentes decisões judiciais do Tribunal Superior do Trabalho, ao negarem o vínculo de emprego entre os motoristas e as empresas de plataformas digitais, contribuem para que os motoristas e os entregadores se enxerguem como empreendedores de si mesmos?

Olha, primeiro, claro que uma atitude como essa é uma atitude criminosa, né, porque o vínculo existe. Mas, de certa forma, isso contribui. Isso acaba contribuindo com o individualismo do entregador e do funcionário por aplicativo, né. Mas essa é uma decisão criminosa e egoísta, porque o vínculo empregatício, ele é total. Mas isso acaba contribuindo sim. Uma grande questão é que, tipo, não sei se afeta a todos, porque são poucas as pessoas que têm esse senso de microempreendedorismo, ser um empreendedor de você mesmo, né. Muitas pessoas que eu conheço acabam trazendo o microempreendedorismo como uma escravidão de você mesmo, assim.

JOEL BIRMAN: Quais foram os impasses na vida laboral e social que conduziram os motoristas e os entregadores para esse tipo de trabalho tão depreciado socialmente e como a incursão do sujeito na condição de motorista e de entregador, ao lado de sua condição precarizada anterior, seria a fonte interminável de culpa, vergonha, angústia e depressão, como pedras angulares de suas condições de subjetivação?

Então, eu vou falar por mim, porque eu acredito que acaba se tornando algo mais, uma resposta mais concreta e verídica, se eu responder por mim. Quando eu comecei como entregadora, eu fazia duas faculdades: uma de História e uma de Direito. E eu precisava de um trabalho que não me prendesse, que não me obrigasse a estar nele oito horas por dia, quarenta e quatro horas semanais. E que, mesmo assim, mesmo assim, além das quarenta e quatro horas semanais,  quando você trabalha de carteira assinada, quando você trabalha num emprego formal, você ainda cobre mais doze ou vinte quatro horas, além das quarenta e quatros horas trabalhadas para esse empregado, porque você recebe telefonema em casa. Tem todas outras questões que envolvem esses trabalhos de carteira assinada. Então, eu precisava de algo que me desse uma liberdade, é, de horário. E, por isso, eu comecei com as entregas. Na época, eu tava passando muita necessidade. É. Eu não tinha uma bike e aí foi um amigo meu que falou assim: “Pô, aproveita o pessoal que entrega com as bags, pô, começa”. Aí, eu falei para ele: “Pô, mas eu não tenho bike”. Aí, ele é catador. Ele foi e falou assim: “A gente arruma uma no lixo pra você”. E a minha primeira bike de entrega foi uma bike do lixo, porque, tipo, pô, quando a pandemia veio, eu me sustentava das bolsas da universidade e do murinho da UNIRIO. Na UNIRIO, a gente tem um murinho, que a gente coloca coisas pra vender. E aquilo sustenta a nossa passagem, sustenta várias alimentações. Então, quando a pandemia veio, eu acabei ficando sem ter o que fazer assim. Eu não tinha mais as minhas rendas, que não estava mais na universidade, porque ela estava fechada. Não tinha mais a renda do murinho. E eu não sabia o que fazer. E aí esse amigo me deu a ideia de procurar, de tentar entrega, porque o emprego formal, para mim, não era viável. Eu sou uma mulher negra, nordestina, ex-moradora de rua e passei para a universidade pública. Então, para mim, deixar de estudar era impossível, intragável e impensável. Então, a gente começou catar. Ele conseguiu um quadro. Depois a gente conseguiu dois pneus. E a minha primeira bike de entrega, ela foi do lixo sim. Na época, as entregas não eram precarizadas. Era uma boa entrega. Eu conseguia fazer nas poucas horas de trabalho, que eu trabalhava somente de meio dia às três. E, depois, eu trabalhava de seis às sete e meia, mais ou menos. E ainda conseguia fazer trezentos reais semanais assim. Então, dava para pagar meu trabalho, dava para pagar várias coisas. Hoje em dia, é impossível tirar esse valor nesses dois picos de horário. Você precisa trabalhar, hoje você precisa rodar noventa quilômetros por dia para tirar isso, o valor que a gente tirava inicialmente, antes da precarização do serviço. Antes do dobro. Primeiro dobrou, depois triplicou e depois quadriplicou o número de demandas de pedido de entregadores para entrar nas plataformas. Por isso, a precarização aconteceu. Além das empresas tratarem, já tratavam seus entregadores como descartáveis, mas agora aumentou muito pela demanda de pedidos de entregadores, né. A demanda acabou aumentando e a precarização acabou sendo cada vez mais visível sim. Então, as minhas dificuldades, que me fizeram entrar para o mundo das entregas, foi exatamente essa. Não poder ter um emprego formal, né, e também precisar, precisar trabalhar para não passar fome. Não ter que desistir da universidade. Não ter que voltar para Pernambuco sem realizar o meu sonho e o sonho da minha família, que eu sou a primeira da família a cursar a universidade. Então, para mim, não tinha escolha. Então, eu trabalhava de manhã. Eu trabalhava de meio-dia às três. Trabalhava de tarde. E aí, durante as madrugadas, quando os meus amigos estavam disponíveis, a gente trabalhava de madrugada também, de meia-noite às duas da manhã, de meia-noite às três. Depois a gente ia pra casa. A profissão, ela tem muitos preconceitos, né. Mas a maioria, a maioria dos preconceitos iniciais da profissão, eles só foram realmente pegando veracidade, quando começou a acontecer a precarização dessa profissão, né, porque todo mundo achava que entregador não ganhava bem. Mas entregador que trabalhava oito horas por dia acabava ganhando três mil reais. Três mil, quatro mil. Tinha amigo que tirava esse valor antes da precarização inicial. Hoje em dia, entregador não tira mais que mil e quinhentos reais. Então, acaba que era um grande preconceito o salário do entregador de aplicativo. Hoje em dia, é uma verdade esse preconceito. Outros preconceitos que a gente sofre muito e que eu acho que é um dos cernes principais de problema, de problema mental dos entregadores é o fato da gente ser considerado bandido, né. Você passa um racismo e um preconceito fudido todos os dias. Além de ser encaminhado pela porta de serviço, a gente passa por várias questões. Somos considerados bandidos, né. Somos maltratados. E eu, como mulher, sou sexualizada todos os dias. É impossível. Eu tenho que trabalhar. Eu costumo trabalhar sempre de roupa de ciclista, porque economiza as minhas roupas. Eu sou uma mulher pobre. Então, tipo, eu não tenho roupa diária. Então, eu acabo colocando como uniforme as minhas roupas de ciclista, que foram doadas. Então, eu trabalho de roupa de ciclista, que é uma roupa mais apertada. Mas, no início, era muito difícil, porque eu era sexualizada todos os dias por trabalhar com legging, com roupas muito próximas do corpo. E isso fazia com que minha autoestima fosse caindo assim, porque, ao contrário do que muita gente pensa, a sexualização, ela acaba desenvolvendo vários outros problemas, várias outras problemáticas no intelecto feminino. Mas acho que esses são os dois pontos, que é, no caso das mulheres, a sexualização e considerar-nos incapaz de fazer o trabalho também. Tem esse problema psicológico muito forte. “Ah, eu não sabia que mulheres podiam fazer isso! Ah, eu não sabia que mulheres podiam, seriam boas motoqueiras!” Assim, a gente é muito desconfigurada nesse sentido pela sociedade, pelos aplicativos, entre outras coisas.

LUIS CARLOS FRIDMAN: Como combater um patrão que é uma tela e como despertar a solidariedade para a luta por melhores condições de trabalho entre os companheiros submetidos à mesma situação?

Olha, é uma pergunta bem complexa e que exige uma resposta muito complexa. Porque qualquer coisa que a gente faça, sabe, um pequeno passo, sempre contribui para o despertar do próximo, né. E, no meu caso, eu me uni a alguns grupos, como Entregadores antifascistas. Eu faço parte de uma cooperativa chamada Despatronados. É, estive em Rio das Ostras com a outra cooperativa chamada Magricelas. E estou sempre em contato com outras cooperativas, que estão juntos nessa função de, na função de combater essa tela, né. Porque a tela em si, ela não é o nosso patrão. Por trás da tela, existe um grande magnata. E existe um grande conglomerado de empresas que comandam e fazem aquele número, o algoritmo da, do aplicativo funcionar. Então, não é o aplicativo. A primeira coisa que a gente precisa desmistificar é exatamente isso. O meu patrão não é uma tela. O meu patrão é o capitalista por trás do algoritmo do telefone. E funciona. Porque, por exemplo, nós fomos a Rio das Ostras. E, em Rio das Ostras, o IFOOD tava surrupiando o kit de covid dos entregadores. Não estava pagando salário em dia. Então, nós fomos a Rio das Ostras para fazer uma greve geral dos entregadores. Nós chegamos lá no primeiro dia e a greve seria no segundo, no terceiro dia. Quando nós chegamos e começamos a falar com os entregadores e coisa e tal, no segundo dia da nossa estadia em Rio das Ostras, o aplicativo chamou. A OL do aplicativo chamou os entregadores para uma reunião. Pagou os salários que estavam atrasados. E, para os nuvens, tentando evitar a paralisação do terceiro dia, que seria no terceiro dia, tentando evitar a paralisação, eles colocaram promoção de três reais a mais. Coisa que não havia acontecido há muito tempo na cidade. Então, assim, teve promoção de dois reais a mais. Teve promoção de três reais a mais, dependendo do horário. Aconteceram coisas. Quando a gente levanta a voz, acaba tudo acontecendo. E a gente sabe que foi diretamente ligada à chamada pela greve que isso aconteceu, porque quem trabalhava dentro da OL recebeu mensagem dizendo que, pô, por causa da tentativa de paralisação, a gente tá chamando vocês para conversar, né. Então, assim, a gente sabe que diretamente estava ligado à tentativa de paralisação. E eu acho que essa é uma das formas que a gente tem que cumprir. Desmistificar que é uma tela, porque não é uma tela. A gente precisa saber quem tá do outro lado. Precisa saber que tem uma pessoa do outro lado. Precisa saber que essa pessoa é uma pessoa capitalista. Precisa saber que essa pessoa, ela faz só o intermédio do trabalho, porque ela não trabalha. Então, ela só faz o intermédio do trabalho. Então, ela ganha sem trabalhar. Então, se ela ganha sem trabalhar, ela é uma pessoa desnecessária nesse sentido. E é contra essa pessoa que a gente precisa lutar. Então, eu acho que esse é o primeiro ponto, né. O segundo ponto pra acordar, pra despertar para o trabalho mesmo, é fazer com que a gente consiga caminhar na prática. Ideologicamente temos muitas diferenças, mas, na prática, todo mundo é trabalhador. Todo mundo é entregador, seja o entregador de pessoas, como o motorista de aplicativo, seja o entregador de comidas, pelo Uber eats, IFOOD, entre outras empresas. Na prática, nós somos todos explorados. Então, a gente tá tentando caminhar no conjunto da prática, porque no conjunto da ideologia a gente realmente tá um pouco distante um do outro. Mas, na prática, a gente está caminhando pelo mesmo caminho. Então, é isso.

MÁRCIO TÚLIO VIANA: É melhor ser cooperado do que empregado e, se for, por quê?

Sim. É. Eu hoje trabalho em uma empresa também como ajudante de cozinha e eu faço entregas. E, nas entregas, eu sou cooperada. Eu faço parte da cooperativa e eu também tenho outros meus jeitos de entregar, que é pelos aplicativos. E eu sou sócia. Desculpa, sócia não. Eu sou um membro. Eu tenho um contrato com uma empresa de entregas courier, né. E a melhor opção para mim, o que mais rende e o que menos exige de mim hoje, é a cooperativa. Ela é a que menos me explora. Então, de alguma forma, eu prefiro a cooperação do que a exploração. A diferença entre ser empregado e ser cooperado é exatamente essa. Num você coopera. No outro, você é explorada.

PEDRO CUNCA BOCAYUVA: Como você vê os muros, as divisões, os diferentes lugares na cidade e a questão racial marcando sua atividade?

Cara, a maioria dos entregadores são negros. Eu sou uma mulher negra. Os muros da cidade e as portas nunca foram abertas pra mim. E a questão racial, ela está entranhada em todas as profissões que existem. É. Na entrega, essa questão racial, ela reflete no racismo diário, que é a entrada pela porta de serviço do entregador, que é o pedido de retirada da bag ou de deixar a bag, que é seu instrumento de trabalho, do lado de fora do prédio. E, pô, você não poder entrar. Mas a bag é um instrumento de trabalho, que é necessário que o entregador ande com ela pra comida não esfriar, pra comida não cair, pra comida não derramar. E aquilo ser retirado apenas na hora, na frente do cliente. É. E isso também é o racismo. Eu sou aluna de História na Universidade Federal, né, aqui do Rio de Janeiro. E eu costumo dizer que racismo é afastamento. E, como o racismo é afastamento, o que que acontece? A sociedade, ela é racista com o entregador quando ela coloca ele num lugar afastado dessa sociedade, colocando esse entregador numa caixinha. Por exemplo, eu tenho um amigo que ele precisou entregar tortas e ele não podia subir. Ele não pôde subir com a bag para o apartamento da cliente. E a torta escorregou da mão dele e ele teve que pagar a torta. Você consegue entender a diferença entre o que é necessário pra você efetuar o seu trabalho e a obrigação de você não ter o direito de subir com o seu objeto de trabalho, né? O médico, ele sobe com a maleta dele, mas o entregador, ele não pode subir com a bag dele para o apartamento. Isso pra mim é racismo. Isso pra mim é afastamento social.

RICARDO FESTI: Quais são os desafios para efetivar a articulação de uma luta unificada entre os trabalhadores de plataformas digitais (entregadores, motoristas de aplicativos etc.)?

Bom, eu costumo falar que Marx, ele se revira no túmulo, né. Porque, quando ele disse da mais valia, ele acreditava que o proletariado, ele vendia apenas a sua força de trabalho. Hoje a gente não vende só a nossa força de trabalho. Hoje a gente vende a força de trabalho, o material que vai ser utilizado para o trabalho. A gente vende o celular, que é por onde vai ser, né, o maquinário para você fazer. E a gente, além disso, ainda vende todo o modelo econômico para ser feito. Então, a principal dificuldade que a gente tem de fazer uma luta unificada é que, nessa escravidão moderna de trabalho assalariado, as mentes estão cada vez mais ocupadas. E, quanto mais ocupadas as mentes estão, menos tempo elas têm para se manterem acordadas e sóbrias para a luta. Então, o capital, ele acaba conduzindo esse cansaço e essa exaustão do trabalhador e mantendo isso para manter o trabalhador sobre controle. Mantendo o trabalhador sobre controle e mantendo o trabalhador afastado um do outro. Porque você acaba colocando os trabalhadores em competição quando você nivela. Tipo, você pode ser nível diamante, você pode ser nível 2, nível 3. Você acaba colocando, mantendo o trabalhador exausto e não sóbrio e desacordado e ainda em competição com o outro trabalhador. Essa é a maior barreira que a gente precisa quebrar, que é ficar um pouco mais exausto, para permanecer sóbrio, para permanecer na luta.

SIMONE OLIVEIRA: Como se dão as relações de gênero no trabalho por aplicativo no que tange à adesão e admissão à plataforma, relação com os clientes, cooperação, segurança e exposição à violência e assédios?

Então, eu acho que eu tinha falado um pouco sobre isso, como nós mulheres e essa divisão de gênero, ela é violenta dentro da profissão, né. As mulheres e as pessoas LGBTQI+, elas são violentadas todos os dias. Na adesão no aplicativo, acredito que a gente tem uma mínima vantagem, porque os aplicativos, eles costumam ter, eles costumam facilitar a entrada de mulheres. Tanto que alguns homens, eles pedem para as mães, para as esposas fazerem a conta nos aplicativos, porque são liberadas de forma mais rápida do que os homens. Então, na adesão no aplicativo, existe essa facilitação de que as mulheres, pra que as empresas tentem dar uma equilibrada um pouco maior, porque isso lucra pra empresa, né. É um lucro pra empresa ter mulheres. Eles não podem ser só majoritariamente homens, porque senão eu também, eu acredito que eles não estariam nem aí. Então, tem essa questão. A gente tem uma facilitaçãozinha de entrada no aplicativo. É, no que tange aos relacionamentos, é muito raro você vê grupos de mulheres nos pontos de entrega. E as poucas mulheres que estão, estão sempre sendo excluídas desses grupos masculinos de entregas e tal. Então, as mulheres, elas tendem, se vê uma outra mulher entregando, hoje você vê até bastante mulheres, entregando. Mas, quando vê, tem sempre esse aconchego, esse carinho de mulheres sendo mais próximas de outras mulheres. Porque, na verdade, o grupinho masculino de entregas, eles são mais fechados. Eu não tive acesso a tantos grupos masculinos. Então, eu entregava praticamente sozinha. Eu, mais uma amiga e um amigo, que é LGBT também. Então, a gente acabou se unindo e fazendo. Começou a fazer as nossas entregas da madrugada nesse trio assim. É, então, nos relacionamentos, eles são mais ou menos assim. E, no que tange às motogirls, elas são extremamente rechaçadas. Como se mulher não pudesse dirigir de moto e ser motogirl, né. Então, assim, a violência nesse sentido dos motociclistas, em relação às mulheres, é um pouco maior do que dos biker em relação as biker girls. Então, tem essa diferenciação também. Em relação aos clientes, o que acontece é o seguinte, o cliente ele se admira quando é uma mulher entregando. Pelo menos, o que eu percebi era: “Nossa, você é mulher! E como é que você consegue pedalar? Como é que você consegue chegar aqui? E não dói? Você pode fazer isso?” Geralmente, costuma ser uma surpresa pra ele que uma mulher seja capaz de fazer aquele tipo de serviço. Na visão dos clientes, a maioria dos clientes, a visão é que a mulher, ela não consegue fazer esse tipo de trabalho também. Então, eu via que era muita surpresa, mas também, em alguns momentos, eu via que tinha um acolhimento melhor. Por exemplo, os meus amigos reclamavam que não conseguiam banheiro. Eu consigo banheiro com mais facilidade. Então, assim, se eu pedir para tomar uma água ou ir num banheiro, alguns prédios deixam com que eu faça sim. Então, acaba que tem um meio termo aí dos clientes não entenderem bem e como eles acabam achando que nós não poderíamos estar fazendo aquilo, eles são um pouco mais gentis com as mulheres, né. E acabam oferecendo água. Acabam perguntando se você está bem. Então, sei lá, é um misto de, pô, eu tô sendo um pouco mais cuidada, mas eu tô sendo, ao mesmo tempo, chicoteada como uma pessoa que não é capaz de fazer aquilo. E que não pode estar fazendo aquilo. E, quando, na verdade, eu escolhi ser entregadora, né. Eu fui para a entrega e fui para a entrega consciente do que era entrega. Consciente de que eu precisaria estar pedalando pesado, que eu precisaria subir ladeiras pedalando e coisa e tal. E que eu sou capaz de fazer isso como qualquer outro homem. No que tange à violência, eu, por exemplo, fui banida da Rappi, porque eram meia-noite e quarenta e cinco de um domingo e eu recebi uma entrega para subir a Santo Amaro, que é uma rua que tem aqui na Glória. E o cara falou assim: “Ah, você sobe e o portão tá aberto. Você entra direto.” E eu: “Como assim entra direto?” Ele: “Ah, é uma casa. E a casa fica nos fundos de um terreno e você entra direto.” E eu falei pra ele: “Olha, eu não vou subir, porque eu tô sozinha.” Neste dia, os meus amigos não estavam comigo. “E eu não vou subir, não vou entrar. O senhor sai no portão.” E ele falou que não iria sair no portão. E eu falei para ele: “Então, vou cancelar a corrida.” E ele ficou insistindo naquilo e eu me senti extremamente assediada, como se eu tivesse que, por ser entregadora, entrar no portão, onde estaria um homem. E eu não sabia qual era a situação numa noite escura de domingo. E eu não quis fazer essa entrega. E ele me denunciou pra conta e eu acabei perdendo. E, além disso, quando eu trabalho à noite, é, essa violência, ela é explícita, né. Você recebe cantadas, além do limite de cantadas, assovios e outras coisas. E, durante o dia, por exemplo, o acidente de trabalho que acontece. Por exemplo, eu quebrei, eu trinquei três costelas. E não recebi nenhum apoio dos aplicativos, nenhum tipo de salário, nenhum tipo de auxílio-doença dos aplicativos. Então, a segurança é zero pro entregador. O entregador não tem segurança. Se ele, por exemplo, se machucar ou se acidentar ou acontecer alguma coisa com ele, na verdade, ele acaba sendo punido e colocado no bloqueio frio, que foi o que aconteceu comigo. Eu passei quase quatro meses no bloqueio frio e aquilo me fez entrar em depressão, porque era a minha única renda no momento de trabalho. Eu não tinha outra renda. Eu tive que morar de favor na casa de outras pessoas, porque eu não recebi auxílio, não recebi nenhum tipo de ajuda de custo das empresas de aplicativos. E, durante todo esse processo emocional, eu tentei me suicidar. Escrevi carta e tudo, de suicídio. E, se não fossem amigos para estarem comigo e o meu companheiro naquele momento, eu não estaria hoje aqui. Não estaria hoje aqui lutando. Não estaria hoje aqui falando das empresas e falando com tanta veemência de que a gente precisa lutar contra o capitalismo selvagem e agressivo que existe hoje, né, porque, economicamente falando, a gente precisa sobreviver. Mas a economia, ela pode ter outra forma de, ela pode ter outra forma de se manter economicamente as pessoas. Como cooperativas, como “n” outras coisas. Rojava, por exemplo, que é um território autônomo. A economia de Rojava, ela é um misto entre capitalismo, entre o capitalismo não agressivo e cooperativas. Uma economia cooperativada.

WILSON RAMOS FILHO: Quais são os impasses que os motoristas e os entregadores de plataformas digitais têm enfrentado durante a pandemia da Covid-19?

Os impasses é taxa baixa, poucas chamadas, porque o número de entregadores cresceu muito. Então, a precarização, ela trouxe diminuição no preço das entregas, diminuição na quantidade de entregas e hoje eles colocam a gente para agendar horário de trabalho. Então, hoje em dia, nós precisamos trabalhar como se fôssemos um trabalhador de carteira assinada, com todos os deveres que um trabalhador de carteira assinada tem, mas sem a carteira assinada. Sem nenhum tipo de vínculo, sem nenhum tipo de benefício, que a carteira assinada tem. E outra coisa, muita gente fala assim: “Ah, mas e o MEI? Como que o MEI funcionaria? O MEI é uma coisa boa, porque você é empreendedor de você mesmo!” O MEI, se você tem um contrato, já pré-agendado, em que você é obrigado a aceitar aquele contrato, então você não é a outra parte. Você não é uma outra parte naquele contrato. Você está sendo forçado a assinar um contrato leonino, que é o que acontece nas empresas. O MEI, ele não tem o direito de negociar. Se você não tem o direito de negociar, você não é uma pessoa jurídica ativa nesse contrato. Então, você é só um empregado que, nesse caso, está livrando a empresa, está livrando a empresa de processos jurídicos, porque ele já tem contratos pré-aprovados. Se você não aceita aquele contrato, você não pode negociar. Você não pode dizer que é baixo, você não pode negociar nenhum tipo de entrega. Então, se o MEI, se a outra empresa, juridicamente falando, se a outra empresa não tem o direito de negociar o contrato, nem tem voz para negociar esse contrato, ele é só um empregado que aceitou aquela reivindicação. Acho que é isso.

CONSIDERAÇÕES FINAIS DE MARIA ELDEANE DE SENA: Eu queria agradecer também. Acredito que, pra nós, a luta, ela precisa ser feita, não só por categorias, mas numa unificação dos trabalhadores. Porque, assim como, na escravidão, eles separaram para poder manter. Eles separaram as famílias, os filhos, para manter os escravos condenados e alinhados, porque eles não conseguiam se comunicar com outros das suas mesmas tribos, o capitalismo, ele faz a mesma coisa. Ele separa os trabalhadores por categoria para que essas categorias não conversem entre si. Dessa forma, a gente não consegue uma unificação da luta da classe trabalhadora. Então, é chamar outras classes trabalhadoras para se unirem, para perceberem que é isso que o capitalismo provoca, essa separação de categorias, para que a gente não tenha uma luta unificada. E, se a gente conseguir ultrapassar essa barreira da divisão de trabalhadores, a gente vai conseguir uma sociedade muito mais livre, muito mais coletivista, né, e cooperativada, do que a gente tem hoje. É isso. E agradecer também.


[1] BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. 1ª ed. RJ: Civilização Brasileira, 2018, p. 14.

[2] Ibidem, p. 62.

[3] Ibidem, p. 42.                                               

[4] BARBOSA, Daniele. A precariedade politicamente induzida e o empreendedor de si mesmo no caso uber: Sob uma perspectiva de diálogo entre Butler, Dardot e Laval. RJ: Lumen Juris, 2020.

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