A retratação (ainda pequena) da TV Globo no caso José Mayer, por Matê da Luz

A retratação (ainda pequena) da TV Globo no caso José Mayer

por Matê da Luz

À despeito de alguns comentários no último post aqui compartilhado sobre o assédio de José Mayer contra a figurinista da TV Globo, coisas como “se fosse o Cauã Raymond, ainda seria assédio?” e “precisamos ouvir o outro lado”, reescrevo sobre o assunto hoje, especialmente para cmentar o posicionamento da TV Globo em decorrência da denúncia. 

A TV optou, conforme nota enviada à imprensa, “dar um descanso à imagem do ator” e retirá-lo da próxima novela que faria parte, O Sétimo Guardião. A decisão, segundo a opinião de alguns amigos emitida nas redes sociais, “já é um começo”. Sem querer fazer a justiceira, mas já é um começo pra você, homem-cis-hétero que não tem ideia do que é conviver fadada ao assédio somente pelo fato natural de ser mulher. 

Mulheres nascem com o terrível estigma do “essa vai dar trabalho”, me corrijam se enorme maioria dos pais não escuta isso enquanto a filha é apenas um bebê. Nós, mulheres, sofremos e vamos sofrer ainda, porque os diálogos sobre o feminismo acabam sempre caindo na lacuna da “loucura”, esta que é também culturalmente utilizada para justificar nossos pedidos de respeito e igualdade. 

Ao afirmar que “dará um descanso à imagem do ator”, a TV Globo, ainda que tenha tomado alguma decisão anterior à apuração do caso, o que é de fato positivo, perpetua que o episódio da denúncia incomodou o galã. Se não há premissa para a culpa, por que haveria para o descanso? 

Não gosto de julgamentos pré-aprovados mas, honestamente, é exaustiva a sensação de que uma denúncia desse porte deve conter muito mais evidências de que aconteceu do que de que não aconteceu. Por que ainda não entrevistaram os que participaram de uma das cenas públicas do assédio? Por que não escutaram as outras mulheres que, caladas, escutaram os assédios em um grupo menor? Por que a maior rede de televisão em território nacional não dá o exemplo e vai em busca de evidências paupáveis, positivando o seu “padrão Globo de jornalismo”? Exautão? Apenas esta denota direito de descanso. 

Que se façam incansáveis as Sus, as minhas e as nossas mulheres que carregam, mesmo sem querer ou ter experienciado na pele, as marcas do assédio, este que vira abuso e promove marcas que infeccionam até as gerações seguintes. Que se façam incansáveis as denúncias, anônimas ou devidamente assinadas, que não têm medo da compania adjetivada da loucura ou da auto-promoção. Onde é que já se viu uma mulher pensar que será promovida por ser vítima de agressões? No Brasil, isso é costumeiro. Golpe, armação, finjimento – estas são também palavras utilizadas para que os olhos do machismo sejam ainda e por muito tempo, as lentes pelas quais seremos olhadas. 

Mas, como bem disseram meus amigos hétero-cis-normativos, “já é um começo”. Podia, apenas, ter começado direito. 

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