Contradições entre diálogos por rádio e depoimentos põem em dúvida o motivo da presença da Polícia Militar (PM) no maior baile funk da zona sul de São Paulo, em Paraisópolis, na madrugada de 1 de dezembro de 2019, quando uma ação deixou nove jovens mortos.
Diversos questionamentos assombram o processo movido contra 12 policiais que estavam na operação no local, conhecido como “baile da Dz7”.
Mas, o que de fato aconteceu em 21 minutos naquela madrugada, período em que houve um “apagão” nas comunicações entre as viaturas e a central da polícia?
De um lado, moradores da comunidade e testemunhas no processo afirmam que o episódio teria sido “arquitetado” pelos policiais em uma vingança contra a comunidade pela morte de um colega, um mês antes.
Já a PM afirmou que a ação foi iniciada após policiais que faziam um patrulhamento na região terem sido surpreendidos por disparos feitos por dois suspeitos a bordo de uma moto.
Contudo, contradições entre diálogos por rádio e depoimentos dos policiais põem em dúvida a própria versão da PM, conforme apuração do jornalista José Dacau, no Uol.
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A comunicação registrada
Com base na transcrição da comunicação de áudio no Centro de Operações Policiais Militares (Copom), um pelotão da Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicleta (Rocam) fazia patrulhamento na comunidade quando teria sido surpreendido por dois suspeitos em uma moto XT-660.
Às 3h41, um dos PMs pediu apoio na rede do Copom, dizendo que o garupa da moto atirou contra as equipes na rua Herbert Spencer. Segundo a informação passada pelo policial, a dupla fugiu em sentido oposto ao baile.
Já às 3h43, a tenente Aline Ferreira Inácio – que comandou a operação – perguntou, pelo rádio, se os PMs estavam “sem novidade” [não estavam feridos]. Outro PM da Rocam respondeu que sim.
Às 3h44, os primeiros carros que cercaram o baile começaram a chegar pela rua Herbert Spencer e um policial informou que a multidão estava correndo da viatura.
No minuto seguinte, um policial da Rocam informou que perdeu de vista a XT-660 e que a perseguição havia acabado.
Às 3h48, aconteceu a última comunicação entre os policiais e a central, com o Copom perguntando sobre os suspeitos.
Depois disso, houve 21 minutos de silêncio nos rádios enquanto acontecia o cerco ao baile funk.
A contradição
Na delegacia, no entanto, os policiais deram uma localização diferente sobre o local onde os supostos tiros teriam acontecido: no cruzamento da avenida Hebe Camargo com a rua Rudolf Lotze.
Ainda, a rota de fuga dos supostos suspeitos também foi oposta ao registrado na comunicação pelo rádio. De acordo os depoimentos, os suspeitos teriam entrado de moto no meio do baile e o garupa teria continuado os disparos de pistola.
No local apontado nos depoimentos, foram apreendidas cápsulas de pistola calibre 380, que a perícia comprovou, mais tarde, que não foram disparadas naquela noite.
O local do início da ocorrência é a peça principal para esclarecer se os policiais agiram ou não deliberadamente para se vingar da comunidade.
A versão dos moradores
No dia da ação da PM, testemunhas contaram que os policiais militares fizeram mais de uma incursão na comunidade e que durante essas entradas jogaram bombas para intimidar e dispersar os frequentadores do baile.
Há relatos de que os PMs passaram falando: “Podem curtir que tá acabando”, enquanto davam risada.
Segundo os depoimentos, os policiais também quebraram lâmpadas na viela do Louro, onde mais tarde muitas pessoas foram encurraladas e os nove jovens acabaram morrendo por não conseguirem respirar.
De acordo com um pastor Igor Alexsander Gonçalves Amorim, que ajudava a cuidar dos jovens que passavam mal em dia de baile, moradores da comunidade estavam preocupados com o aumento da violência policial naquele fim de ano.
A reação da PM teria sido intensificada depois da morte do sargento Ronaldo Ruas Silva, que trabalhava no 16º batalhão, o mesmo dos 12 réus.
No dia 1 de novembro de 2019, o sargento Ruas fazia parte da “Operação Pancadão” quando foi baleado durante uma abordagem a um suspeito na rua Herbert Spencer. Sua arma falhou, ele foi ferido e morreu. PMs que o acompanhavam atiraram no criminoso, que também morreu.
Moradores relataram ao pastor que os policiais do patrulhamento estavam ameaçando “1 por 15″. A expressão significa que, a cada PM morto, 15 pessoas da comunidade pagariam com a vida em retaliação.
O socorro das vítimas
No processo, também há contradições sobre o por quê o socorro às vítimas demorou uma hora.
Segundo a comunicação registrada no Copom, o tenente Diego Felício Novaes informou dificuldade em socorrer as vítimas porque as equipes estavam “encurraladas” por “cerca de mil indivíduos”.
Mas, imagens feitas por moradores da comunidade e por uma câmera de segurança entre o final da operação e o socorro mostram as viaturas e policiais circulando calmamente pela comunidade.
Só às 5h, os feridos chegaram na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e do Pronto-Socorro do Campo Limpo. De acordo com os depoimentos das médicas, todas as nove pessoas chegaram com parada cardiorrespiratória, sem sinais vitais e foram submetidas a tentativas de reanimação.
A acusação enfatizou que nenhum dos PMs comunicou no rádio que o socorro eram para vítimas em parada cardiorrespiratória, tento em vista que os policiais têm treinamento de primeiros socorros durante toda a carreira,
Com isso, para a acusação, não foi estabelecido o grau máximo de prioridade e a informação dada pelos PMs induziu o Copom ao erro.
Vale ressaltar que o tenente Novaes não é réu no processo.
As mortes
Na madrugada de 1 de dezembro de 2019, havia entre 5.000 e 8.000 pessoas no baile, no quarteirão da rua Ernest Renan — entre as ruas Rudolf Lotze e Herbert Spencer, segundo estimativa da Polícia Civil.
Quando a polícia passava pela multidão, o som era desligado e as pessoas se dispersaram. Os PMs iam embora, o som era ligado e a festa voltava.
O baile seguiu assim até as 3h41, quando o pedido de apoio de um PM da Rocam mudou tudo.
Em meio a ação da PM no baile, entre disparos de bombas e balas de borracha, as pessoas correram para dentro bares, casas e vielas, inclusive a do Louro, onde encurralados e espremidos os nove jovens acabaram não conseguindo espaço para inflar os pulmões e respirar.
Oito das vítimas, entre 14 e 23 anos, morreram por asfixia e um por traumatismo, segundo o laudo necroscópico.
A investigação
Nesse caso, 31 policiais foram investigados e 12 se tornaram réus e respondem por homicídio com dolo eventual, quando se assume o risco de matar, e lesão corporal.
Os depoimentos judiciais, no entanto, só devem começar a ser colhidos a partir de junho de 2023.
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