4 de junho de 2026

Na Maré, morre Marcos Vinícius, mais uma vítima da violência policial

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Jornal GGN – Marcos Vinícius da Silva, de 14 anos, um adolescente morador do Complexo da Maré, é mais uma vítima da violência que aumentou com a intervenção no Rio. O menino foi baleado durante uma operação policial, nesta quarta-feira, e morreu antes de conseguir ser socorrido, por demoras na liberação de ambulância na entrada da comunidade.

À mãe, o menino disse, antes de morrer, que viu de onde veio o tiro. Disse que partiu de um blindado. E perguntou à mãe: “Ele não viu que eu estava com roupa de escola, mãe?”. Não, não viu. Se viu, não se importou. É apenas mais um menino de comunidade.

O pai, cheio de dor, contou que o menino tentou ir para a escola. Estava atrasado. Mas resolveu voltar para casa ao ouvir os primeiros tiros disparados do helicóptero da polícia. Perto de sua residência, deu de cara com o caveirão, de onde partiu o tiro que atingiu o garoto na barriga.

A Polícia Civil, em nota, informou que a Delegacia de Homicídios da Capital abriu inquérito para apurar ‘as circunstâncias da morte de Marcos Vinícius’. As circunstâncias são conhecidas. Diz também que ‘a utilização de helicóptero em operações, como ocorridas na quarta-feira, se dá para a garantia da segurança de toda a população. Não há qualquer registro de que alguém tenha sido atingido por tiros da aeronave empregada na operação da Maré’.

O Observatório de Favelas se pronunciou sobre o assassinato do menino Marcos Vinicíus na Maré. Clama pelo fim da intolerância, que assola o país, e faz vítimas. Tantas desgraças atreladas ao crescente desprezo pela democracia. E pela vida. Leia a nota a seguir.

NOTA DO OBSERVATÓRIO DE FAVELAS SOBRE A AÇÃO POLICIAL NA MARÉ

Rio de Janeiro –  – No cenário atual, vemos o mundo dominado pela onipotente intolerância contra diversas populações, o recorrente autoritarismo de muitos Estados e o crescente desprezo à democracia. Mesmo assim, pudemos comemorar, nos últimos tempos, medidas como a descriminalização do aborto na Irlanda e na Argentina e a legalização da maconha no Canadá. São pequenas vitórias que nos permitem respirar e recuperar energias para enfrentar atos dominados pela barbárie social, política e econômica.

Nesse quadro, o Brasil foi dominado por forças políticas que representam essa desumanização de forma escancarada, sem pudor ou compromisso com qualquer perspectiva republicana ou democrática. E o território onde esse domínio do desprezo em relação à vida em seu sentido pleno se revela com mais intensidade é o Rio de Janeiro, onde temos um fantoche no cargo de governador que traduz a expressão maior da falência ética, política e econômica do estado.

Nos tornamos uma território sem lei, sem regras, onde a força bruta e irracional nos retira toda a esperança. Onde, em nome da vingança pela morte de um policial, servidores do Estado se tornam assassinos que se dirigem com todo o seu ódio e preconceito contra o povo das favelas e periferias. Essas pessoas que deveriam cuidar da nossa proteção, que são o braço armado do Estado para nos proteger das violências, dos crimes e criminosos, se tornam mais bárbaros que quaisquer outros.

Os disparos de um helicóptero contra uma área residencial, expressão maior da violência ocorrida nesta quarta-feira, 20/06/18, na Maré, lembra cenas da guerra contra o Vietnã, vergonhosamente perdida pelos EUA. Uma guerra insana, arrogante, monstruosa, que revelou toda a prepotência e fragilidade do país que ainda se arroga baluarte da “democracia ocidental”. Não é diferente aqui nessa ação bélica, tão imoral e absurda quanto, contra a população das favelas cariocas promovida, comandada e definida por forças de segurança do Estado.

Nesse momento, depois de contarmos os nossos mortos, adolescentes e jovens que mal têm direito a algum tipo de identidade, só temos lágrimas, dores, sofrimento e luto indignado para trazer nesse texto. Os mesmos sentimentos que tínhamos há 100 dias, quando assassinaram Marielle e Anderson. Vamos reagir, vamos recuperar a energia, vamos continuar lutando pela radicalização da democracia, pela humanidade plena, para superar ódios e as violências.

Mas, por favor, nesse momento, nos deem direito ao choro, à tristeza, ao sentimento de perda de sentido da vida, à incapacidade de suportar tanta violência; nós também, militantes empenhados na construção de uma sociedade livre e democrática, temos esse direito. Nos deem algum tempo, queremos respirar, queremos deixar as lágrimas virem, queremos sentir que ainda há sentido em continuar acreditando que esse Rio de janeiro, esse país, essa humanidade ainda possui chances de sair da barbárie ao conquistar direitos plenos à vida.

Direção do Observatório de Favelas

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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5 Comentários
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  1. Romanelli

    22 de junho de 2018 2:35 pm

    qq presidente terá que

    qq presidente terá que definitivamente enfrentar este problema cedo ou tarde

    SEGURANÇA PUBLICA não pode ser colocado em confronto com qq política de respeito aos direitos humanos e a legalidade

    O BRASIL de mais de década crava, armado ou desarmado, 60 mil mortes por violência ano 

    Os políciais são treinados pra matar ..os marginais em número crescente devido aos déficits sócio-econômicos revidam, pra viver e não morrer, reagem, e no meio, num clima de GUERRA, confundido ora por um ou outro lado, fica a população indefesa ou refém 

    enquanto perdurar esta clima de fla flu partido das facções de ambos os lados, não vejo chances da coisa melhorar

     

  2. Francisco Andrade

    22 de junho de 2018 3:29 pm

    estado bandido !

    de forma sincronizada, …enquanto a #globogolpista distraí o povão alienado com o circo da copa do mundo, a #repúblicadosladrões ( e assassinos), mata crianças entre a população pobre, … mas, para o povo burro, … o importante mesmo é o cabelo do neymar…

  3. Fábio de Oliveira Ribeiro

    22 de junho de 2018 4:12 pm

    Pois é… o mais engraçado é

    Pois é… o mais engraçado é que a imprensa (refiro-me especialmente a F e ao ) reclama muito de quem puxa o gatilho, mas protege o verdadeiro mandante das execuções policiais extra-judiciais no Rio de Janeiro: o TJ-RJ (com o com tudo).

    https://www.conjur.com.br/2018-jun-22/juiza-nega-liminar-vetar-tiros-helicopteros-favelas-rio

    E se os “manos” dos morros começarem a fazer nas luxuosas escolas particulares da Zona Sul o que os juízes mandam os policiais fazer nas favelas? PS: Esta pergunta é meramente retórica. A história recente prova que “manos” dos morros tem mais ética do que alguns juízes cariocas.

  4. João de Paiva

    22 de junho de 2018 5:33 pm

    Quem lê Foucault e Bourdieu não se surpreende

    Chego a considerar ingenuidade dos que compõem o Observatório das Favelas externarem por meio de texto visão como:

    “Onde, em nome da vingança pela morte de um policial, servidores do Estado se tornam assassinos que se dirigem com todo o seu ódio e preconceito contra o povo das favelas e periferias. Essas pessoas que deveriam cuidar da nossa proteção, que são o braço armado do Estado para nos proteger das violências, dos crimes e criminosos, se tornam mais bárbaros que quaisquer outros.”

    Sim, os policiais são pessoas, serers humanos e servidores do Estado, com atribuições e obrigações previstas em Lei. Mas essa história de que o sistema judiciário e o aparato de força/repressor do Estado foi criado e mantido para proteger e dar segurança à população é uma das falácias mais longevas que conheço. Quem tiver dúvidas disso deve estudar sobre a era medieval e moderna, o período da Inquisição e dos Suplícios Públicos, que só foi abolido no Século XIX e países da Europa e Américas, mas ainda presente em muitos outros do hemisfério oriental. A pena de morte, castigo que não se pode reparar se aplicado a aum inocente, é legal em muitos países ditos “civilizados”, como EEUU. Os suplícios e outros castigos públicos foram substituídos pela prisão e pelas torturas feitas às escondidas; Michel Foucault conta os horrosres dessa transição no clássico “Vigiar e punir – nascimento da prisão”. De forma complementar Pierre Bourdieu mostra que as sociedades ocidentais consolidam a violência institucional do Estado contra os indivíduos de formas variadas, umas violentas, como já demonstrara Foucault, outras mais sutis, como a segregação das pessoas em classses sociais, mostrado de forma cristalina no clássico La Distinction.

    Portanto é ingenuidade ou desinformação acreditar que num país cujo ranço e violência escravocrata nunca deixaram de existir o papel do braço judicial-repressor do Estado seja  dar proteção e segurança às parcelas excluídas e marginalizadas da população.

  5. ze sergio

    22 de junho de 2018 6:42 pm

    BIPOLARIDADE ESQUERDOPATA EM 40 ANOS REDEMOCRATAS

    O Fanatismo Ideológico explica a situação que este país vive. Não existe VIOLÊNCIA POLICIAL. Existe VIOLÊNCIA. E o Policial é vitima também desta barbarie. Por sinal, no estado do RJ onde o Pai do Governador Sérgio Cabral, Sérgio Cabral também, recebe vultosa indenização por ter sido considerado Perseguido do Regime Militar. Critico daquele período de governo, quando no RJ os números de assassinatos e violência não eram nem um milésimo dos atuais ( e já eram absurdos), principalmente durante a gestão do seu Filho. Publicava  no PASQUIM, Jornal de Sátira às Políticas Governamentais e os escandâlos animalescos na Segurança, Saúde, Transporte, Educação, Saneamento, Violência,….Nada como um dia após o outro. “A Verdade Vos Libertará”. Enfim fica escrachado que tal Elite, sempre foi parte e cumplice do grande golpe caudilhista e fascista dos Quartéis e Elite Civil construído a partir da Ditadura de 1930. Lobo em pele de cordeiro. Farinha do mesmo saco. A violência durante o último períuodo do Regime Militar foi absurda. A Esquerdopatia com sua farsante Constituição Cidadã conseguiu suplantá-la em centenas de vezes.  

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