6 de junho de 2026

MPF denuncia ex-delegado do DOPS por incineração de 12 cadáveres durante a ditadura

Entre os anos de 1973 e 1975, os cadáveres foram destruídos na Usina Cambahyba, em Campos, por Cláudio Antônio Guerra

O Ministério Público Federal denunciou o ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), Cláudio Antônio Guerra, de 79 anos, pelo crime previsto no artigo 211 do Código Penal, por ocultação e destruição de 12 cadáveres, nos anos entre 1973 e 1975, por meio de incineração em fornos da Usina Cambahyba, em Campos, Norte-Fluminense.

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Sob a forma de confissão espontânea, depoimentos reunidos no livro Uma Guerra Suja, Cláudio Antônio Guerra relata que de 1973 a 1975, recolheu no imóvel conhecido como “Casa da Morte”, em Petrópolis (RJ), e no Destacamento de Operação de Informação e Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), na Tijuca, os corpos de 12 pessoas, levando-os para o município de Campos dos Goytacazes (RJ), onde foram incinerados, por sua determinação livre e consciente, nos fornos da Usina Cambahyba.

Para o MPF, Cláudio Antônio Guerra agiu por motivo torpe (uso do aparato estatal para preservação do poder contra opositores ideológicos), visando assegurar a execução e sua impunidade, com abuso do poder inerente ao cargo público que ocupava. “Assim, com o objetivo de assegurar a impunidade de crimes de tortura e de homicídio praticados por terceiros, com abuso de poder e violação do dever inerente do cargo de delegado de polícia que exercia no Estado do Espírito Santo, foi o autor intelectual e participante direto na ocultação e destruição de cadáveres de pelo menos 12 pessoas, nos anos de 1974 e 1975”, argumenta o procurador da República Guilherme Garcia Virgílio, autor da denúncia.

Além da condenação pelos crimes praticados, pede-se o cancelamento de eventual aposentadoria ou qualquer provento de que disponha o denunciado em razão de sua atuação como agente público, dado que seu comportamento se desviou da legalidade, afastando princípios que devem nortear o exercício da função pública.

Provas – A confirmação nominal dos corpos levados por Cláudio Antônio Guerra para incineração ocorreu em diversos depoimentos prestados à Procuradoria da República no Espírito Santo. Além da confissão, testemunhas e documentos confirmaram a autenticidade dos relatos de Cláudio Guerra.

As doze pessoas citadas por Cláudio constam na lista de 136 pessoas dadas por desaparecidas da Lei 9.140 de 1995, que “reconhece como mortas pessoas desaparecidas em razão de participação ou acusação de participação em atividades políticas, no período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979”.

O MPF argumenta que não se pode considerar os crimes praticados pelo ex-delegado na Lei da Anistia, tendo em vista que a referida lei trata de crimes com motivação política. “Não importa sob que fundamentos ou inclinações poderiam pretender como repressão de ordem partidária ou ideológica, sendo certo que a destruição de cadáveres não pode ser admitida como crime de natureza política ou conexo a este”, pontua.

Destaca-se ainda que sentença prolatada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, no caso Gomes Lund versus Brasil, em 24 de novembro de 2010, a qual estabeleceu para o país a obrigação de investigar não apenas o episódio conhecido como Guerrilha do Araguaia, mas também outros episódios de igual natureza, visando a identificação dos autores materiais e intelectuais do desaparecimento forçado de pessoas, não se aplicando, a esses casos, a Lei da Anistia, tendo em vista o caráter permanente de crimes que, por constituírem crime de lesa-humanidade, não são abrangidos pelo ordenamento doméstico, seja por anistia ou por prescrição.

Incineração dos corpos – Em seu depoimento, Cláudio Antônio relatou que havia preocupação nos órgãos de informação, por parte dos coronéis Perdigão e Malhães, de que os corpos daqueles que eram eliminados pelo regime acabassem descobertos, movimentando a imprensa nacional e internacional. Ele narrou que uma das estratégias de sumir com os corpos consistia em arrancar parte do abdômen das vítimas, evitando, com isso, a formação de gases que poderia fazer com que o corpo emergisse. Ainda segundo ele, os rios constituíam a preferência para afundamento dos corpos, dado que no mar “a onda traz de volta”.

Nesse contexto, Cláudio informou que sugeriu o forno da Usina Cambahyba, como forma de eliminação sem deixar rastros, dado que já utilizava a usina e seus canaviais para desova de criminosos comuns, do Espírito Santo, em razão de sua amizade com o proprietário da usina.

Para retirar os corpos na Casa da Morte, Cláudio relatou que encostava o carro no portão e recebia, em seguida, de dois ou três militares, os corpos ensacados em sacos plásticos. Ao chegar na Usina, passavam os corpos para outro veículo, que ia até próximo dos fornos, sendo então colocados na boca do forno e empurrados com um instrumento que lembrava uma pá, e, ainda, que o cheiro dos corpos não chamava atenção por causa do forte cheiro do vinhoto.

Foi realizada em 19/08/2014, reconstituição no local, com a presença de Cláudio Antônio Guerra, com a confirmação de que a abertura dos fornos era suficientemente grande para entrada de corpos humanos.

*Da assessoria da Procuradoria da República no Rio de Janeiro

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7 Comentários
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  1. Renato Lazzari

    1 de agosto de 2019 7:39 pm

    Ótimo, muito bom, reparação indispensável.

    E agora, entre muitas outras obrigações, fica faltando o MPF agir contra os crimes de lesa pátria que estão sendo perpetrados ao Brasil pelos golpistas HOJE. Já prenderam Dallagnol? Sergio Moro? Olha que tem que ser prisão imediata, hein? Soltos eles continuariam a delinquir, destruiriam provas, fariam conchavos e achacariam juízes e testemunhas.

    A propósito, o MPF não faz nada uma vez que é uma instituição. Quem pode fazer são pessoas. Quem do MPF decidiu que justo agora, depois de 7 anos do livro publicado, chegou a hora de denunciar o ancião Claudio Guerra? Bolsonaro deve estar bem contente com punição ao delator do golpe de ’64, né?

  2. Carlos Elisio

    1 de agosto de 2019 8:04 pm

    Agora uma delação premiada pega o resto do bando assassino.

    1. peregrino

      2 de agosto de 2019 12:10 am

      ainda mais se entregar ou dizer onde pode ser encontrado o mapa com locais de desova em áreas militares por todo Brasil, mas principalmente no RJ, cercado por guaritas como se fosse um paiol

    2. J.Marcelo

      2 de agosto de 2019 12:26 pm

      Carlos Elísio tem vários vídeos do Cláudio Guerra sugerindo até nomes para “entrevistas”só q não moveram uma palha e olha q faz tempo isso,a esquerda tem culpa também pq não fizeram nada,só cosmético!!!

  3. Anônimo

    1 de agosto de 2019 8:44 pm

    É preiso responsabilizar (julgar) todos os envolvidos, não somente o Claudio Guerra.

  4. J.Marcelo

    1 de agosto de 2019 11:18 pm

    O pastor Claudio Guerra é um grande homem,se arrependeu e abriu o jogo,como entende-se no próprio texto ele é peixe pequeníssimo e sobrou pra ele,depois do seu depoimento abriu-se uma guerra q se estende até agora,a direita ficou muito brava com a sujeira exposta e a comissão nacional da verdade e foi pra cima com tudo da esquerda,ESSE HOMEM É O PRINCÍPIO DE TUDO,O FOGO Q ACENDEU O PAVIO DA BOMBA BRASIL,PRONTO!ESCREVÍ !!

  5. Rui Ribeiro

    2 de agosto de 2019 10:44 am

    “Senhor Deus dos desgraçados!
    Dizei-me, Vós, Senhor Deus,
    Se eu deliro… ou se é verdade
    Tanto horror perante os céus?!…
    Ó mar, por que não apagas
    Co’a esponja de tuas vagas
    Do teu manto este borrão?
    Astros! Noites! Tempestades!
    Rolai das imensidades!
    Varrei os mares, Tufão! …”

    Castro Alves

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