4 de junho de 2026

Gregório de Matos, 379 anos

Por Gilberto Cruvinel

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O poeta baiano que aniversaria neste 23 de dezembro, mais contemporâneo, impossível

Epigrama

Gregório de Mattos e Guerra

I

Juízo anatômico dos achaques que padecia o corpo da República em todos os membros, e inteira definição do que em todos os tempos é a Bahia.

Que falta nesta cidade?… Verdade.
Que mais por sua desonra?… Honra.
Falta mais que se lhe ponha?… Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste rocrócio?… Negócio.
Quem causa tal perdição?… Ambição.
E no meio desta loucura?… Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.

Quais são seus doces objetos?… Pretos.
Tem outros bens mais maciços?… Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos?… Mulatos.

Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao Demo o povo asnal,
Que estima por cabedal,
Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?… Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas?… Guardas.
Quem as tem nos aposentos?… Sargentos.

Os círios lá vem aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda?… Bastarda.
É grátis distribuída?… Vendida.
Que tem, que a todos assusta?… Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

Que vai pela clerezia?… Simonia.
E pelos membros da Igreja?… Inveja.
Cuidei que mais se lhe punha?… Unha

Sazonada caramunha,
Enfim, que na Santa Sé
O que mais se pratica é
Simonia, inveja e unha.

E nos frades há manqueiras?… Freiras.
Em que ocupam os serões?… Sermões.
Não se ocupam em disputas?… Putas.

Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.

O açúcar já acabou?… Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?… Subiu.
Logo já convalesceu?… Morreu.

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal cresce,
Baixou, subiu, morreu.

A Câmara não acode?… Não pode.
Pois não tem todo o poder?… Não quer.
É que o Governo a convence?… Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.

Gregório de Mattos e Guerra (1633/1696), o Boca do Inferno, nascido na Bahia, foi o primeiro de nossos satíricos, homem de língua destravada e fácil veia poética. Estudou humanidades em Portugal, tendo feito o curso de leis na Universidade de Coimbra. Na terra mãe foi juiz criminal e de órfãos. Voltou ao Brasil com 47 anos, sob a proteção do arcebispo da Bahia, D. Gaspar Barata. Tantas e tais fez que não só perdeu a proteção do prelado, como ainda foi degredado para Angola. Reabilitado, voltou ao Brasil, indo para Recife, onde conquistou simpatias e viveu com menos turbulência que na Bahia. É o patrono da cadeira n.º 16 da Academia Brasileira de Letras. Além de versos satíricos e humorísticos, escreveu poesias eróticas com a maior incontinência verbal.

Texto extraído de “Antologia de Humorismo e Sátira”, organizada por R.Magalhães Júnior, Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1957, pág. 05.

 

Fonte: Releituras

 

Poema de Gregório de Mattos, declamado pelos poetas Tiago Oliveita e Iago Nascimento, pai e filho respectivamente. Direção de imagens e montagem: Bruno D´ Almeida. Dezembro de 2011, Salvador, Bahia, Brasil.

 

https://www.youtube.com/watch?v=Xu4DiC-eX-o

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9 Comentários
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  1. Jair Fonseca

    23 de dezembro de 2015 3:42 pm

    Triste Bahia”, canção de

    Triste Bahia”, canção de Caetano Veloso sobre poema de Gregório de Mattos.

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=ofwV292PWR0%5D

  2. Maria Luisa

    23 de dezembro de 2015 3:46 pm

    Quem causa tal perdição?… Ambição.

    “E que justiça a resguarda?… Bastarda.
    É grátis distribuída?… Vendida.
    Que tem, que a todos assusta?… Injusta.”

    Quase 400 anos depois e ainda a mesma coisa. Pobre justiça.

    Obrigda por trazer Gregorio de Matos, Gilberto. Eh sempre bom lembrarmos nossos poetas e os bons livros que temos.

    Abraço, bom fim de ano.

  3. Ruy P F Neto

    23 de dezembro de 2015 5:56 pm

    Maior poeta brasileiro

    Esse é o maior poeta brasilerio de todos os tempos, ao lado de Castro Alves.

  4. Ruy P F Neto

    23 de dezembro de 2015 5:56 pm

    Maior poeta brasileiro

    Esse é o maior poeta brasilerio de todos os tempos, ao lado de Castro Alves.

  5. Odonir

    23 de dezembro de 2015 7:01 pm

    Gregório de Matos e sua lírica ímpar

    Muito conhecido- pelo populacho- como poeta satírico. G. de Matos tem seus versos lírico-amorosos e religiosos como os mais bonitos de nossa literatura. Lembremo-nos de quando os escreveu, inclusive.

    À MESMA DONA ÂNGELA

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=d11R0AT-rtI%5D

  6. altamiro souza

    23 de dezembro de 2015 10:44 pm

    esse poema é atualíssimo…
    a

    esse poema é atualíssimo…

    a palavra necrócio é parente da privataria tucana….

    1. Gilberto Cruvinel

      28 de dezembro de 2015 5:10 pm

      a palavra é socrócio e não rocrócio como saiu

      Altamiro,

      A palavra é socrócio e não rocrócio como saiu. É palavra criada por Gregório de Mattos, indicando roubalheira, rapinagem.

  7. Henrique Torres

    23 de dezembro de 2015 11:15 pm

    Mortal loucura

    Mais um fortíssimo poema de Gregório de Matos, lindamente musicado por Zé Miguel Wisnik

    https://youtu.be/AtVGICYRTZ0

    E aqui cantado por Mônica Salmaso

    https://youtu.be/E1fJ_Uj9UJA

  8. Crieis Kelvin

    24 de dezembro de 2015 12:31 am

    Gregório é grande…

    …mas Bandeira o considerava uma poeta menor. Dentre os motivos, os rebuscamentos formais do barroco, gongorismo e afins. ..  Para ele, o primeiro grande poeta brasileiro seria Tomás Antônio Gonzaga, cantando de forma mais natural e coloquial o ambiente brasileiro. Tem razão? Que importa a razão…

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