4 de junho de 2026

Desenvolvimento e espaços organizados da produção, por Cintia Neves Godoi e Sandro Luiz Bazzanella

Os projetos de Arranjos Produtivos Locais, e como foram abandonados em detrimento dos projetos de Parques Tecnológicos de Inovação.
imagem acervo Banco do Brasil

Desenvolvimento e espaços organizados da produção: dos distritos, polos, passando por Arranjos Produtivos Locais a Parques Tecnológicos.

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por Cintia Neves Godoi e Sandro Luiz Bazzanella

Compreendendo o desenvolvimento como um projeto discursivo, ideológico, contra-ideológico consideramos que este para ser construído necessita de instrumentos diversos, como por exemplo, os espaços organizados da produção.

Considerando que os modos de produção crescentemente racionalizados se espalham pelo mundo, com mais força após a segunda guerra mundial, em função das demandas de consumo da própria guerra que mobilizou diferentes localidades do mundo a produzir tudo para a sistematização das tragédias que se configurou em diversos países europeus.

Para termos uma ideia dos alcances, municípios do interior de Minas Gerais, foram destacados para produzir algodão para uniformes de combate. Ou também se pode lembrar dos investimentos na indústria siderúrgica brasileira advindo das negociações entre Getúlio Vargas e lideranças da Alemanha, dentre outros exemplos para apoiar o entendimento da dimensão do avanço dos modos de produção industrial em meio e após a segunda grande guerra.

A disseminação do modo de produção capitalista portanto, passa a ser sistemática e liderada por países como Estados Unidos, Inglaterra e outros. Mas, é preciso considerar que após a segunda grande guerra havia também a União Soviética em busca de incentivar outros países a conhecerem suas formas de organização da produção e política.

A planificação para a União Soviética se mostrava como projeto de racionalização das atividades do estado para garantir aumento da produção, e melhorias no acesso às estruturas produtivas, de consumo e de elementos para uma vida mais igualitária. Ao passo que os países capitalistas buscavam influenciar e adentrar países no sentido de combater o crescimento das ideias socialistas e comunistas.

A competição entre setores que produzem um mesmo produto, para se ter uma ideia, era atividade considerada como de alta importância na União Soviética. O programa espacial soviético, por exemplo, fazia uso do instrumento de grupos especialistas em um mesmo produto e que deveriam atuar como competidores para que esta dinâmica gerasse resultados mais rápidos. As ideias de Lênin apontam que o projeto socialista devia buscar excelência em atividades que buscarem desenvolver.

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Enriquecido pela guerra, e com um cenário de competição internacional pela liderança e influência global de maior número de países, o que nos parece é que os Estados Unidos buscam construir sua ideia de desenvolvimento como ideologia e como contra ideologia da planificação. A partir dessa conjuntura, a racionalidade produtiva ganha força também no trabalho intelectual e academias. E, com isso, ideologias e instrumentalizações são construídas como modelos e receituários para serem açambarcados para atividades, sejam capitalistas ou socialistas.

No que diz respeito à América Latina e no Brasil, houve grande esforço estadunidense de inserção de ideias, projetos, modelos, instituições e receituários por parte dos Estados Unidos. Assim, a ideologia do desenvolvimento passou a ser o horizonte utópico praticamente no momento em que surgiu.

No Brasil, diversos foram as ações e projetos para instalar instrumentos e ideais de desenvolvimento. “A Missão Cooke (1942) é considerada a primeira tentativa de diagnóstico global da economia brasileira e de seus problemas dentro de uma perspectiva de promoção do desenvolvimento do país.” Após esta missão também ocorreu a Missão Abbink (1948) “que influenciou o Plano Salte (que dava prioridade para saúde, alimentação, transporte e energia), do presidente Eurico Gaspar Dutra. Sob a chefia do economista Octavio e Gouveia de Bulhões, a missão buscou dar subsídios para políticas governamentais, uma vez que o Estado teria o papel ativo de coordenar investimentos realizados pela iniciativa privada, e o Brasil deveria aproveitar os recursos externos disponíveis, já que não tinha capital suficiente para industrialização do país” (Ianni, 1971, p. 96-98 apud Portugal e Da Silva, 2020).

O modelo geral para alcançar o desenvolvimento, portanto, era a industrialização. E, não necessariamente se tratava de um projeto de avançar e sistematizar aquilo que já se formava no país, ou os elementos que se configuravam como demanda interna brasileira, como ocorreu na projeção da organização e sistematização produtiva na China a partir das ideias de Mao Tse Tung, incentivando que os primeiros passos para buscar sair do atraso seriam, por exemplo: “Nas condições atuais de guerra, todos os organismos, as escolas e a unidade do exército devem dedicarse ativamente à cultura das hortaliças e dos cereais, à criação dos suínos, à coleta da lenha, à produção do carvão de lenha; devem desenvolver o artesanato e produzir uma parte dos cereais necessários a seu sustento […] Os dirigentes do Partido, de governo e do exército em todos os
níveis, bem como os das escolas devem aprender, sistematicamente, a arte de dirigir as massas na produção. Aquele que não estuda atentamente os problemas da produção não é um bom dirigente” (Pela redução do preço dos arrendamentos, 1 de outubro de 1943)

Mas, os intentos de disseminação de um projeto de desenvolvimento obviamente não se davam apenas mirando o Brasil, mas boa parte dos países. No caso da América Latina, um exemplo marcante pode ser percebido com a constituição da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe – CEPAL. “Na América Latina, pressupostos keynesianos foram incorporados à CEPAL a partir da sua instalação, em 1948. Entre esses pressupostos, se destacaram textos como Problemas teóricos e práticos do crescimento econômico, de Raul Prebisch, publicado em 1952, e, principalmente, Introdução à técnica do planejamento, lançado em 1955, fruto do grupo misto CEPAL-BNDE, que fora presidido por Celso Furtado em 1953. Em tais obras, se admite o papel fundamental do Estado para formular propostas de desenvolvimento, entre as quais estruturá-lo para promover um avanço no patamar das rendas pela industrialização.” (Portugal e Da Silva, 2020)

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Desta maneira se percebe que havia sistematização através de missões, acordos e institucionalizações para estimular o processo de industrialização, com modelo específico de crescimento econômico e de disposição do estado nacional para fins específicos e também com produtos específicos, de acordo com interesses ou de transferências de atividades industriais obsoletas, ou vinculados aos recursos minerais disponíveis em cada país.

A construção do arcabouço teórico e conceitual para tanto se voltou, em grande medida, para o entendimento do desenvolvimento, do crescimento econômico, a partir da industrialização. A produção portanto, passa a ser o elemento central de atuação do estado, como ponte entre interesses internacionais. A racionalização desta produção interna, passou a ser configurada através das relações entre países, e especialmente de uma relação desigual.

Compreender a dinâmica produtiva, e a diferença que fazem os modos de produção, suas organizações, localizações, modos de articulação são exercícios que apoiam tanto o entendimento da realidade e suas diferenças no espaço, quanto estimulam transformações sociais de maneiras diferentes nos espaços. Por exemplo, o que se diz é que mirar em projetos de determinado tipo ou de outro, através de investimentos públicos e privados transforma regiões.

A partir deste entendimento dos usos de teorias e conceitos, instrumentalizações e investimentos financeiros, técnicos, as formas de se relacionar com o ambiente são profundamente alteradas, tecnificadas, racionalizadas e permitem mudanças nas relações de trabalho, consumo, acúmulo de riqueza e, a partir das definições de distribuição e acesso às sociedades a renda e a riqueza socialmente produzida, bem como propriedades e terras. A partir das relações entre estes elementos são constituídas as formações socioeconômicas (Marx), ou formações socioespaciais (Santos) vão dinamizar sociedades e gerar especialização produtiva, estruturação de classes sociais, criar formas de tornar nebulosa a compreensão da estrutura de classes e seus conflitos que envolvem grupos de interesses, organizações sociais, indivíduos, dentre outros aspectos.

Assim, conforme relações de poder e desigualdade de forças nas relações entre países, elites e sociedades, a expansão das formas de produção capitalistas em diferentes territórios exigem trabalho intelectual para criação de termos, expressões, ideologias e todo um arcabouço institucional, normativo, técnico para apoiar a ampliação e captura de regiões que já foram chamadas de periferia, franja capitalista, fronteira, dentre outras.

Obviamente há diversos fenômenos envolvidos na transformação da realidade a partir da racionalização das atividades produtivas. No entanto, queremos chamar a atenção aqui para a essência dos aspectos estratégicos ligados às expressões utilizadas para caracterização ou impulsionamento das atividades produtivas.

Os espaços organizados da produção são uma das formas mais importantes de impulsionar a dinamização da produção e expansão das formas de produção crescentemente racionalizadas nos diferentes espaços no contexto de conformação das sociedades burguesas e, de suas formas de produção econômica, social, política e institucional, advindas dos séculos XVI e XVII a atualidade.

Polos industriais, distritos industriais, arranjos produtivos locais, clusters, ambientes de inovação, ecossistemas de inovação, parques tecnológicos. A cada tempo, novas expressões, palavras, conceitos são criados em ambientes acadêmicos para apoiar, justificar ou analisar a racionalidade da produção industrial no mundo, e estes termos todos foram abarcados aqui no que denominamos aqui como espaços organizados da produção.

O sociólogo Jessé de Souza chama a atenção para o fato das construções acadêmicas serem responsáveis pela criação de ideias, conceitos, temas e ideologias que vão pautar os discursos midiáticos e, por vezes, as políticas e discursos empresariais e sociais. Quem cria termos e aplica significados profundos a determinados contextos nos quais se manifestam formas de produção, de extração de mais-valia, relações entre capital e trabalho é a intelectualidade, é a academia, e a partir das ideias são criadas estruturas que podem, e comumente são, de controle e domínio do processo produtivo, e da sociedade.

Não se trata de definir um conceito ou expressão em detrimento de outras, nem de fechar em si mesmo os usos, apropriações e significados destas expressões, pois sabemos que é possível encontrar associações de toda ordem seja no ambiente acadêmico, político e empresarial. Mas se trata sim, de chamar a atenção para possibilidades de entendimento da essência do que se projeta, e se institui a partir dos usos das expressões, e da alteração destas ao longo do tempo.

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Assim, no tempo e no espaço, a cada nova forma de caracterizar o que ocorre ou o que virá carrega essencialmente formas de pensar as relações de poder, de produção, bem como relações de controle e racionalidade das relações sociais, técnicas e produtivas.

Importa aqui, não falar sobre todas as expressões cunhadas para o que estamos chamando de espaços organizados da produção. Como exercício de resgate na memória podemos citar expressões como distritos industriais, polos industriais, cadeias produtivas, sistemas produtivos, arranjos produtivos locais, clusters, ambientes de inovação, ecossistemas de inovação, parques tecnológicos.

Especialmente vamos considerar duas formas de pensar estes espaços. Uma delas é através a expressão “Arranjos Produtivos Locais”, e outra de termo mais recente “Parques Tecnológicos”.

Neste sentido, sabemos que “Arranjos Produtivos Locais” são uma forma de entender e estimular as relações entre empresas e as potencialidades locais, regionais, envolvendo setores diversos da sociedade e envolvendo o Estado como agente dinamizador das relações produtivas seja qual for o setor produtivo, desde têxtil, até produção de alimentos, ou de setores de tecnologia. Trata-se de um termo que abarca e estimula diferentes setores produtivos, independentemente de seu grau de inovação e tecnologia envolvido, importa considerar a rede, organização da rede e alcance de melhorias em produtos, e melhorias nas diferentes partes de uma rede produtiva.

Por outro lado, “Parques Tecnológicos” são compreendidos como estruturas criadas para receber empresas que se destacam por suas capacidades inovadoras e, que em função de tal condição tem a potencialidade de contribuir de forma significativa com o desenvolvimento tecnológico, produtivo e, social, local e regional. Desta maneira, não se trata de receber nestes espaços empresas que não atendam certo grau de inovação, ou empresas que não buscam inovação, e portanto, muitos setores e tipos de pequenas e médias empresas voltadas à demandas regionais, nacionais, não buscam ou alcançam este tipo de espaço especializado.

De maneira assim, sucinta, é possível chamar a atenção para o fato de que houve grande investimento no debate e em estruturas de suporte aos “Arranjos Produtivos Locais”, especialmente dos anos 1990 a 2000, e posteriormente começam a haver estímulos às estruturas conectadas à inovação.

É possível constatar contudo que parece haver um perfil diferente entre as duas formas de estimular o ambiente produtivo, uma voltada ao processo de produção industrial, em rede, com suporte e estímulo às diferentes cadeias de fornecedores, envolvendo pequenas e médias empresas, de diferentes setores, com o Estado articulando de maneiras diversas estas estruturas conectadas.

No que diz respeito aos Parques Tecnológicos, Ambientes de Inovação ou Ecossistemas de Inovação, se percebe um estímulo mais direto às empresas, especialmente fornecedoras de serviços, e de produtos ligados ao desenvolvimento de sistemas, softwares e especialmente produtos usuários de serviços e produtos de grandes corporações como Apple, Google, Facebook. Estes também recebem suporte e estruturas do Estado, que se apresenta mais como fornecedor de bases, espaços, prédios, equipamentos vinculados às universidades, gerando fornecimento de estrutura pública para que as empresas se articulem como capilaridade de grandes empresas internacionais de sistemas, o Estado também se apresenta como fornecedor de mão de obra, com formação qualificada pelas instituições de ensino superior, fomentando empreendedorismo e inovação para jovens e adultos, que vão se vincular diretamente a estas ofertas conectadas internacionalmente.

Se utilizarmos as ideias de horizontalidade e verticalidade de Milton Santos (2008), para analisar atores ou agentes envolvidos nestes processos, parece haver conexões mais horizontais em investimentos de Arranjos Produtivos Locais, e mais verticais nas estruturas de Parques Tecnológicos. Nos investimentos em Arranjos Produtivos Locais como espaço organizado da produção, as empresas se articulam em rede em contiguidade geográfica, e nos Parques Tecnológicos muitas empresas vão se articular com empresas fora do país.

Assim, por um lado, as estruturas de Arranjos Produtivos Locais estimulavam pequenas e médias indústrias de setores diversos, e Parques Tecnológicos são, por essência, vinculados ao setor de tecnologia da informação, comunicação e desenvolvimento de sistemas, e atrelados verticalmente às demandas e, de estruturas e serviços de empresas internacionais.

Para oferecer aplicativos nas plataformas virtuais, para monetizar via google play, ou itunnes por exemplo, as empresas pequenas ou grandes passam a ser clientes das grandes corporações para oferecer seus produtos, conforme tem downloads efetivados, para propagandear os produtos, dentre outros aspectos que expõe relação com empresas estrangeiras, e mais do que isso, expõe certa dependência de estruturas estrangeiras. Usos de linguagens de computação, ferramentas geradoras de valor e valorização para grandes corporações das tecnologias de informação, bem como ferramentas de inteligência artificial e machine learning também são matéria-prima para as empresas de inovação instaladas nos parques tecnológicos.

Assim, o que há de mais avançado em termos de estrutura construída, de acesso às mentes com formação para pensamento analítico, formação qualificada de mão de obra, e estruturas específicas para inovação se dá de maneira geral através das universidades brasileiras, e neste modelo se vincula diretamente a usos de estruturas informacionais estrangeiras.

Parece portanto, haver uma escolha, que abandona projetos vinculados à industrialização, bem como aos projetos ligados a redes horizontais para avançar em projetos vinculados a produção de produtos informacionais. Isto por si, representa um problema nacional, já que boa parte da população não acessa as universidades, bem como não acessará com qualidade o que se produz nos Parques Tecnológicos, e o solapamento das outras formas de compreensão e estímulo à organização da produção, abandona pequenos e médios produtores, que são estratégicos geradores de renda, trabalho e elementos para consumo no país.

Neste sentido, não tendo realizado uma revolução burguesa, não tendo também realizado uma revolução industrial, não tendo aprofundado a industrialização do país, e também abandonando as pequenas e médias redes produtivas horizontais, o estado brasileiro parece querer investir diretamente em setores de inovação e tecnologia sem considerar aquilo que Mao Tse Tung chamou a atenção, as necessidades básicas da organização da produção. Além disso, se somam aspectos da necessidade de independência de setores-chave da sobrevivência, segurança alimentar, bem-estar, dentre outros aspectos.

É importante refletir sobre o caso da China, pois hoje se apresenta como o país com maior número de parceiros comerciais no mundo, e próximo aos Estados Unidos em termos de produtividade e inovação. No entanto, esta revolução ocorrida em tão pouco tempo, porque iniciada como projeto formalizado a partir da década de 1970, engendrou em um processo de organização da produção abrangeu primeiramente a racionalização da produção de alimentos, posteriormente houve investimento em industrialização via produtos simples, alguns voltados à exportação, mas com perfil de baixo valor agregado e baixa qualidade, e a partir do reconhecimento das capacidades produtivas locais, regionais, nacionais é que se buscou alta racionalidade da organização da produção, com pesados investimentos em infraestrutura, para se estimular a produção industrial, em larga escala, e com alto poder de inovação.

Assim, vale questionar, será que este modelo de concentração dos investimentos e do que há de melhor na produção do conhecimento nacional em espaços organizados da produção vinculados a este modelo de “Parques Tecnológicos” é o suficiente para a sociedade? A inovação e a articulação dos centros de pesquisas parecem sim ser imprescindíveis atualmente. No entanto, se percebe que um novo conceito, termo, parece vir carregado de normatizações, instituições que vão dar suporte a sua instrumentalização, mas que por vezes parecem abandonar os anteriores.

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É possível perceber o abandono, por exemplo, por parte de ministérios que antes mantinham secretarias e projetos específicos, por exemplo, para planejar, estruturar, difundir e estimular atividades em arranjos, e passam a fazer o mesmo por parques tecnológicos.

Será que os parques tecnológicos estão ligados a um modelo neoliberal de produção, que acessa o que há de mais avançado em termos de estruturas do conhecimento no país, nossas universidades, acessa os jovens e recém-adultos com maior energia para dispender, e oferece à sociedade produtos e serviços que fazem usos de bases de conhecimento e informação de grandes corporações das tecnologias de informação? Ou seja, oferecem produtos aprisionados em sua raiz à produção de conhecimento de outros países. Destaca-se que muitos destes projetos e empreendimentos vão também estimular as novas formas de empregabilidade, via contratação por projetos, por termo determinado, e trazem consigo uma série de padrões de organização do trabalho diferente do que existia. Neste momento, não considerando que o trabalho e direitos trabalhistas fossem suficientes no país, mas se destaca que a falta de previsão do acesso ao emprego e a renda tem ligação também com o modelo neoliberal de precarização do trabalho, ao passo que o trabalho nos espaços articulados como arranjos, de maneira geral, vão apresentar ligações com registros em carteira, ou com mão de obra familiar, e obviamente se sabe que não são boas condições de trabalho, mas ainda estão ligados à situações de acesso a direitos trabalhistas, mesmo que precários. Assim, é preciso considerar a existência deste tipo de produção e organização da produção e considerar que mesmo para estas relações é preciso avançar e melhorar muito a condição das relações de trabalho e renda.

Mas, se chama atenção aqui é sobre um possível abandono de outras formas de investimento e conhecimento de organização dos espaços produtivos vinculados a diversidade de produtos à serem consumidos local, regional e nacionalmente que passa a não receber olhares e investimentos do Estado.

Não se trata de negar o investimento do Estado à inovação, de considerar inadequado o modelo de investimento em Parques Tecnológicos, mas de considerar que os diferentes espaços organizados da produção foram propostos ao longo do tempo com agentes e interesses envolvidos em cada modelo. Analisar qual é a estrutura, qual o discurso ideológico que permeia cada tipo de espaço organizado da produção é exercício importante para subsidiar tomadas de decisão. Por que em determinado momento houve interesse e esforço em disseminar os Arranjos Produtivos Locais, de que maneira isso foi operacionalizado, a quem atendeu? Quais setores puderam ser compreendidos como arranjos? O mesmo vale para os Parques Tecnológicos?

Não se trata também de considerar o modelo de Arranjos Produtivos Locais como mais adequado e abarcador das demandas horizontais. Mas, de considerar que este projeto, com os problemas que certamente também se pode elencar, bem como relações com agentes diversos, estrangeiros ou não, na raiz do entendimento do Arranjo, estavam ligados projetos de articulação da produção do conhecimento às produções existentes, de setores diversos. Assim, modelos de tríplice hélice por exemplo, indicavam que a universidade deveria dar apoio ao setor produtivo local e regional, gerando projetos de consultoria e suporte às associações de produção de roupas, sapatos, farinha, fitoterápicos, joias, artesanatos, queijos, bebidas, dentre outros.

A tríplice hélice se apresentava portanto como um modelo de pensamento, junto ao tema dos clusters, seja via entendimento de intermediação do estado pelo pensamento influenciado pela escola italiana, seja via entendimento de menor atuação do estado pelo entendimento da escola norte-americana, colocavam as instituições de ensino superior como parcerias e consultoras para que as associações, cooperativas e órgãos de gestão dos arranjos produtivos locais pudessem acessar, buscar possibilidades de melhorias na gestão, na inovação e outros. Assim, a universidade atendia demandas locais, regionais, nacionais para dar suporte a melhorias, as pessoas, especialistas, pesquisadores e professores das instituições de ensino, pesquisa e extensão iam até a sociedade oferecer diálogo e construção coletiva. No caso dos Parques Tecnológicos o que se percebe é que as estruturas saem das localidades, são instalados equipamentos urbanos, técnicos, empresariais dentro das instituições de ensino, pesquisa e extensão, estimulados os discentes a serem protagonistas dos projetos empreendedores, e especialmente pensando produtos técnicos e inovadores. Obviamente é preciso considerar a capacidade técnica, acadêmica e inovativa dos que acessam o ensino superior, certamente é um ambiente pleno de possibilidades, mas investir neste modelo em detrimento de outros que articulavam estas mentes à produção pequena, média brasileira pode impactar significativamente no acesso aos produtos pelo mercado interno, no acesso ao trabalho e renda da população, nas melhorias da qualidade, de segurança, de gestão e inovação da indústria nascente e indústria produtora e transformadora nacional.

Por fim é preciso questionar por que há essa substituição tão violenta, que solapa os demais projetos e ideias, e faz escolhas com redes de atores ou agentes tão distintos e distantes. Cabe, portanto, como exercício continuar a questionar, se os investimentos atuais se concentram em um modelo que atende às demandas da sociedade, que traz retorno à sociedade e que não se apresenta apenas como capilaridade de acesso a investimentos públicos por parte de grandes companhias estrangeiras do setor de tecnologia.

Cintia Neves Godoi – Professora Doutora em Geografia
Sandro Luiz Bazzanella – Professor Doutor em Ciências Humanas

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