4 de junho de 2026

Bolsonarismo enquanto significante vazio, nós e eles, por Davi Spilleir

O bolsonarismo é um significante vazio. O Bolsonarismo não abarca nenhum significado objetivo
Alan Santos - PR

Bolsonarismo enquanto significante vazio, nós e eles

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por Davi Spilleir

As eleições deste ano são, provavelmente, as eleições mais importantes desde 1985, quando o Brasil, por voto indireto, resolveu dar o primeiro passo ao fim do regime ditatorial que então vigorava. Marx já nos alertou há muito tempo, a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa.

Dadas todas as devidas proporções, o cenário hoje é bastante parecido ao que se desenhava há quarenta anos: i) temos uma massa reacionária no poder que aparelha e entranha os aparatos de Estado e o homogeniza à sua imagem e semelhança; ii) há uma mescla promíscua e criminosa entre o público e o privado, não havendo mais espaço para a coletividade e, portanto, o que seria de todos, passa a ser sequestrado por poucos (pior, secretamente de poucos, se é que entendem); e iii) a subtração dos debates públicos à questão moral e religiosa.

A dificuldade de entender a guinada à direita e penetração de forças intolerantes na sociedade, associada ao esforço de genuinamente contemplar o que une eles que, mesmo se deparando com a fome, com o desespero e com o escárnio perante o sofrimento e morte, veem na liderança Bolsonaro uma possibilidade de esperança e de melhora substantiva me fez refletir: O que é que une essas pessoas? Quais qualidades positivas faz com que haja identificações? Mais, o que é que faz com que a massa bolsonarista seja tão heterogênea? Isto é, que afinidades há entre o General Villas Bôas, Carluxo e a Dona Maria, evangélica de São Paulo? 

É verdade que nenhuma destas perguntas é fácil de responder e uma contestação aprofundada exigiria digressão sociológica e histórica além dos limites de uma pequena coluna, deixo algumas sugestões de leitura de pessoas que se aprofundaram muito brilhantemente sobre o tema, como Waleska Miguel, Raymundo Faoro, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, André Singer, Vladimir Safatle e Milton Santos. Cada um a sua própria maneira, inserindo cortes essenciais para a compreensão do todo da população.

Quanto a mim, o que gostaria de destacar são alguns poucos conceitos que podemos encontrar em Ernesto Laclau, leitor e intérprete de Lacan e Hegel, em seu brilhante A razão populista¸ que podem nos ajudar a melhor compreender o bolsonarismo que é, por excelência um movimento populista. Laclau foca suas considerações sobretudo em três fatores: i) discurso, ii) significantes vazios e iii) retórica.

Antes de mais nada, uma pequena articulação teórica. Da mesma forma com que Marx em O Capital inicia fazendo uma fatoração daquilo que poderia ser a menor unidade constituinte de valor, Laclau o faz do ponto de vista de coletividades e seus pleitos. Em sua digressão, Laclau notará que a demanda é o que mais chega perto à partícula indivisível da formação do grupo. As pessoas possuem necessidades, essas necessidades se convertem em demandas. Demandas por melhores condições, demandas por comidas, demandas por seja lá qual for sua questão pertinente. A impossibilidade de respostas diferenciais, isto é, respostas que tratem cada uma delas de maneira particular, fará com que, de maneira orgânica, exista no próprio sistema, uma massa de demandas insatisfeitas.

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É nesse terreno das demandas insatisfeitas que se farão presentes as articulações em torno de seus três temas chaves. O discurso, o primeiro a permear uma objetividade, iniciará a traçar termos diferenciais entre as particulas na relação. Isso é, a ação só poderá se fazer constitutiva a medida em que ela se difere de algo. A necessidade começa a surgir na forma de discurso pois se opõe ao que ela não é. A fome se opõe à fartança. A pobreza apresenta caráter distinto da abastança. O jogo de palavras começa a criar corpo por aquilo que ele não é.

Bom, somente a constituição da diferença e a ebulição de demandas de diferentes naturezas não são suficientes para que algo penetre no subjetivo coletivo e ganhe legitimidade, é necessário todo um trabalho ainda na seara do discurso para que algo parecido ocorra. A constituição  de uma identidade em oposição a algo surge por  ambivalências estruturais das identidades no espaço social, isto é, identidades e a fixação de algo no coletivo subjetivo dependem de formatações e articulações entre entes sociais que – novamente, se unem sob um signo, sob uma demanda, mas não se hipotecam a isso.

É, portanto, também tributário ao contexto e ao enlace social que se faz em torno daquela demanda e daqueles entes sociais que se atribuirão significados, mormente generalistas e pouco objetivos, àquela causa, ou àquele termo. Tomemos por exemplo a pauta da proteção à família, tão cara às políticas reacionárias direitistas. É verdade, sim, que há necessidade de maior planejamento familiar no Brasil, também é notório que há um imenso déficit de segurança pública, agravado e condicionado pelas enormes disparidades sociais no país, mas o que efetivamente significaria uma pauta de proteção à família? Aliás, considerando-se que uma demanda se efetiva por seus valores negativos, ou seja, pelo que ela não é, o que seria essa coisa, ou esse ser que apresenta risco à família? Mais, qual seria de maneira ainda mais objetiva o conceito de família?

Essas perguntas são complicadas e exigem entendimento do contexto em que são feitas tais entendimentos, essas identidades e essas pautas são demasiadamente flutuantes, não apresentam um conteúdo firme, mas possuem capacidade de abarcar diferentes cenários e agentes em torno do guarda-chuva que elas representam. A esses termos que são tão abertos à porosidades e passíveis de modificações, denominamos significantes vazios.

O terreno com que se constituem significantes vazios é o terreno do debate da própria fala. E seu fortalecimento representa a criação de uma hegemonia ideológica. E é precisamente nesse momento em que se adensa o deslocamento do significado objetivo para sua substituição plena por algo figurativo, ao que nominamos de constituição retórica.

O bolsonarismo é um significante vazio. O Bolsonarismo não abarca nenhum significado objetivo, sua estruturação se dá no bojo de uma série de demandas sociais insatisfeitas, que se converteram em significantes vazios em si e que apresentam suas facetas apenas como corpos disformes. Diz-se ser contra a corrupção, mas o escárnio de suas relações privadas e patrimônios obtusos se faz ululante. Diz-se pró-família, mas sua postura é misógina, violenta e armamentista, todos temas que colocam, ao contrário, em risco a família. Diz-se pró-liberdade, mas todos seus atos são blindando qualquer tipo de transparência, impondo sigilos, coagindo a função jornalística e solicitando censura. Todas tentativas de legitimizar uma possível característica positiva acerca do bolsonarismo servem apenas para tentar disfarçar seu ódio pelo diferente, pelas minorias sexuais e étnicas e por tudo aquilo que não constitua padrão mínimo para sua pretensa superioridade.

O Bolsonarismo é, sim, uma força política consolidada, com enorme penetração social, que só se fortalece a medida que símbolos são forjados para mostrar a coesão e unidade dessa identidade. Esses símbolos, como a bandeira nacional, o símbolo das armas com as mãos e adesivos, deixam de ser apenas acessórios e passam a se converter na coisa mesma. Qualquer um desses sinais não são apenas objetos, eles representam esse conjunto intrincado de valores, crenças e atitudes, o que garante coesão deste laço unitário.

Mas isso não significa que essa tragédia apresente continuidade eterna. Afinal o ponto mais importante que Laclau nos mostra em sua obra é como a essas constituições movediças são passíveis de influência e de disputa (não apenas discursiva, mas, sobretudo, prática). É através do tensionamento da corda que difere o nós e eles e através da conversão de reforços positivos que conseguiremos modificar o estado de espírito social, ainda que isso requeira ainda mais o aprofundamento das diferenças.

Para essas eleições, em específico, também nós da esquerda (liberal, radical, centro) nos orientamos por um significante vazio, que é o de saber que não somos aquilo que eles representam. Que possuímos características negativas às que eles acreditam e atuam. Que também nós nos opomos a algo que, apesar de movediço, tem efeitos lesivos à constituição de humanidade e civilização. Que nos opomos ao proto fascismo destes que hoje tentam homogeneizar a sociedade em torno de um projeto de poder que é violento, exclusivo e desumano.

A vitória do dia 30 não representará o fim da proto fascistização na sociedade, mas tampouco esse resultado será possível sem esse marco indelével na história. Se Jodi Dean está certa ao afirmar que “qualquer um, mas não todo mundo, pode ser um camarada”, talvez possamos usar este lema com um pequeno aparte, que representa a urgência do momento: sabemos que nem todo mundo é um camarada, mas as condições objetivas nos mostram que precisamos de todo mundo para nos opormos ao fascismo.  

Davi Spilleir – Mestre em Sustentabilidade, pesquisador de Economia Solidária pelo CIRIEC e pela ABPES

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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  1. Jefferson

    12 de outubro de 2022 9:01 am

    Interessante e original a ótica de análise adotada pelo autor.

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