15 de julho de 2026

A desfiguração de Ângela, por Maíra Vasconcelos

Escrito de uma maneira como já não escrevo mais, ainda acredito que seja válida a publicação e a busca pela leitura.
La rentreè, 1927 - Anita Malfatti

por Maíra Vasconcelos

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Escrevi essa pequena história de Ângela, há mais ou menos uns seis anos, publicada como crônicas aqui no Jornal GGN. Ano passado, editei todos os textos para fechar uma história e transmitir a busca de uma mulher por seu autorretrato, porém, em um ambiente onde nada acontece, efetivamente. Vale aclarar, Ângela não é pintora, é apenas uma mulher que fica em casa, escreve em seus cadernos, vai ao supermercado e, à noite, tira o lixo. Escrito de uma maneira como já não escrevo mais, ainda acredito que seja válida a publicação e a busca pela leitura. Sobre o título, em dúvida entre figuração ou desfiguração, acabei ficando com “A desfiguração de Ângela”. Segue então um fragmento.

A desfiguração de Ângela

Desde que comecei a escrever nesses cadernos é assim. Sem vinho. Sem noite. Ângela não entendia o início e o fim de um dia. Apenas em casa, sempre em casa escrevendo em seus cadernos. Era esse seu estado. Exatamente assim, ela não sabia se era quarta ou sexta, 25 ou 21 de junho. Um pouco deprimente. Um pouco comum. O dia inteiro de roupão dentro de casa. Em dez dias saiu apenas para tirar o lixo e fazer sacolão. Uma fase da qual não pude fugir, escrevia. Tinha que estar assim pois necessitava mudar um pouco a vida. Mas vai passar, pensou. E, mais uma vez, saía calmamente apenas para tirar o lixo.

Estou agora numa dessas noites quando é muito difícil estar sóbria. Vou caminhando pelas beiradas para tentar terminar um dia. E não falo de nada mais do que de um dia. Mas sem nada nas mãos. À espiar lá fora. Pois quando durmo, inconsciente e sem memória, é quando me dou ao mundo. Entregue ao desconhecido. O dia inteiro, ela fazia anotações meio fajutas, meio filosóficas em seus cadernos, as folhas de papel espalhadas pela casa. Sempre em casa. 

Num instante de distração, nos oferecemos ao mundo como se ele fosse puro e bom. É preciso estar mesmo muito distraído, ha ha ha… Às vezes, ria alto quando lia o que tinha escrito. Almejo unicamente o descanso. Mesmo ainda sem saber como será. Não falo de morte, falo de descanso. Essa parte ela grifou. Ângela passou vários dias escrevendo hermeticamente sobre a noite. Como se a noite fosse um ente divino, ou algo assim. Talvez, meio démodé. Essa coisa soturna meio brega. Apenas porque ela não podia sair de casa essa hora da noite. Tinha que ficar, tirar o lixo, escrever em seus cadernos.

Estou desperta, do jeito que a noite gosta. Com esse movimento de corpo. Realmente, para a solidão. Mas escrevo, então isso é apenas uma reflexão em pleno silêncio. Para o silêncio. A noite não se curva. Encurvada estou eu a querer tantas vezes descansos e sonhos. Sonhos, repetia, e ria alto, de novo. Ângela irá falar sobre os sonhos. Sua espera por novos sonhos que podem nunca mais voltar. Ela chegava à conclusão de que sonho e ilusão são coisas muito diferentes. Não sinto falta de sair de casa à noite. Se agora conheço aquilo que o olho no escuro não vê, mas busca treinando para estar na claridade. Alerta e viva. Como se Ângela soubesse o que é estar alerta e viva. Parece que ela ainda não sabe em qual corpo viver.

Nessa época, Ângela estava sempre muito cansada. Muito distante. Muito calada. Uma dificuldade para viver, quer dizer, viver sóbria. Mas ao menos ria e escrevia como quem prepara o roteiro de um drama. Quero o conhecimento exato da minha própria claridade, vou abrir a janela. Hummm… prefiro a penumbra. Sei que tenho em meu corpo também o seu depois, o por vir de todo escuro que não se escurece mais. Verei a claridade, obviamente. Agora, preciso sair para tirar o lixo.

Mas Ângela vivia para estar em casa. E talvez, por isso, nunca teve dúvidas de que sairia desse estado meio estranho, meio patético. Era mais ou menos isso. Com seus cadernos tentava sustentar a vida. Ou melhor, resgatá-la. A única coisa que escrevi, todos esses anos, foi o retorno a mim mesma. A mudança de vida. E isso não serve para nada, ou para ninguém além de mim mesma. Mas, olha, eu digo que funciona, a arte funciona. Depois, até teci um caderninho, bem lenta ia tecendo. Sabe quando a gente entra nessa de ser sereno, delicado, afável, bom, tudo meio mentirinha também, né. Mas é necessário. Hoje parece ridículo, era como ir à igreja, porque tinha algo de falso, mesmo que fosse um falso bom. Era parecido a um ato religioso, mas não tinha Deus. Nem santo. Espírito, sim. A gente entra nessa também, nessas horas.

Ângela fala como se prestasse um depoimento, um testemunho de que é possível resgatar a vida escrevendo em cadernos. Fechada em casa, saindo apenas para fazer supermercado e tirar o lixo. Escreve em seus cadernos como se falasse a ninguém. Com essa disposição meio lenta. Meio desbotada. Meio sem apetite. Como se Ângela nunca oferecesse um reflexo. Mantinha o espelho dentro do bolso como em histórias de horror. Após a suposta transformação que Ângela afirma viver, quais seriam seus novos reflexos, isso ninguém nunca poderia prever.

II

Mesmo que tudo isso pareça ser algo impossível, continuarei a escrever. Ângela continuava em casa de roupão. Ontem, saí apenas para tirar o lixo. Deveriam decretar o fracasso de escrever sobre si mesmo. Porque esse dito “si mesmo” não está quando se escreve. Vou ali e já volto, enquanto esse “eu” fica aqui escrevendo. Ângela grifou essa oração e escreveu entre parêntesis: el yo de la extranjera de mí misma que mira la poltrona a la espera de alguien que todavía no conoce. Por isso, não me levo tão a sério. Mas falar do “eu” é como ser epitáfica. Escrever na própria lápide. Depois, ela irá tirar o lixo, voltar para casa e escrever em seus cadernos.

Queria ser mais agradável. Mas o que tenho para contar é apenas isso. Queria ser mais agradável. Mas quando era menina, minha irmã dizia: deixa de ser cara ruim. Junto à luz de uma penumbra, a janela entreaberta. A vida lá fora e eu aqui lutando para espiar o exterior sem cair dura no chão ou sem querer forjar um ataque a bomba no banco da esquina. Mas Ângela continuava de roupão. Com a certeza de que isso é o melhor que ela pode fazer. Agora, preciso sair para tirar o lixo.

A falta de arrependimento é uma questão de sabedoria. Pensava assim para se animar e seguir. Nunca tive paciência com gente arrependida. Essa lamúria que não canta. Ângela não se arrependia de nada. Pois estava sendo apenas uma pessoa que tinha nada. Uma pessoa que se desfazia de tudo sem olhar ao redor. Ainda assim, achava que tudo ficaria muito bem. Às vezes, era assim, sentada na mesa do café, só podia aquilo. Um pouco quase nada. Cada um com a sua medida. Grifou também essa parte. Marquei de te encontrar, querido, mas deu tudo errado. Fui e não pude estar presente. Apenas quando voltei para casa, percebi que não tinha saído. Tentei sair de novo, mas já era tarde, estava muito atrasada. Sempre esse atraso. Isso é a melancolia. Escrevia assim sem nem pestanejar. Desculpe o atraso. Isso é Ângela em seu estado deprimido explicado por ela mesma de um modo exato. Talvez ela consiga se reconhecer criticamente porque escreve em seus cadernos. Mesmo que isso não garanta melhorias de vida ou sabedorias, muito pelo contrário. O problema era falar com os outros. Digo, falar sóbria. No mais, comia pão com queijo, com manteiga. Às vezes, tinha até algumas batatas na geladeira, uns pacotes de lentilha na dispensa. Ângela continuava de roupão dentro de casa.

O terceiro dia se aproxima e o que vivo se parece a uma saga. Gosto de dizer assim. Estou enfurnada nesta casa há quase cinco anos. Aniversário de quê, isso poderia se chamar assim. Considero-me alguém que, mesmo fracassada, obteve uma leve vitória: estar viva sem maiores problemas de saúde. Talvez por ser jovem. 34 anos. Apesar do tom da minha fala e desse rosto já meio desfeito aparentarem idade mais avançada. O lixo, as sobras de vários dias, para isso saio de casa, escrevia.

Abri a porta do quarto, fui até a cozinha, voltei, e esse pode ser o décimo dia que não saio de casa. Sei lá quantos dias não bebo. Não me divirto. Apenas devo mudar a diversão. Devo aprender a me divertir no parque com sol e passarinhos, às 11 da manhã. Ângela confundia diversão com excessos. Por certo, deveria também dizer meu nome. Apresento-me, Ângela. Mas estou cansada e o processo de renovação é lento. Outro dia, li em um poema de Tamara Kamenszain: com pudor burguês traduziam enfermidade como cansaço. Como é custoso falar sóbria. E o dia está claro demais para meus olhos acostumados com a noite. Preciso de um óculos de sol. Ângela continuava de roupão.

Se digo meu nome é porque apenas saberei como me chamo quando o outro disser. Ângela, Ângela, você esqueceu a roupa pendurada e choveu a noite toda. Você não viu? Não, não vi. Não posso esforçar-me para estar aqui e se estou é porque não pude fugir. Os cadernos de Ângela são de ponderação lenta. As horas custam muito a passar. Este é meu terceiro momento, ou seria o terceiro ato. Surgido da necessidade de dar visibilidade ao viver de uma noite e de uma manhã. Porque os dias são evidentemente mais ousados do que nós. E por detrás dos dias existe esta que vos fala, que é um eu-qualquer querendo existir. O mais imponente aqui é o passar dos dias, eles trazem o que se sente, supostamente. E com o que sinto, tenho passado esses poucos dias, arrastados. Ontem, Ângela foi ao supermercado e saiu para tirar o lixo.

Ela escreveu quatro vezes em seu caderno. Renascer demora. Renascer demora. Renascer demora. Renascer demora. Mas sou esperta o suficiente para viver esses dias tais como são. Os primeiros dias de uma nova vida. Às vezes, é como se lhe viesse um impulso de vida e Ângela desanuviasse. Existem condições para que isso seja assim. Devo recriar-me. Sem cair, mais uma vez. Pois devo contar que cada dia tem sido tremendamente difícil. Tirar o lixo. Ficar de roupão. Escrever em meus cadernos. Enumerava mais uma vez. Tirar o lixo. Ficar de roupão. Escrever em meus cadernos. E por isso mereço algo em troca de cada passo a cada hora. Em troca, uma nova e necessária vida. Parece que era isso o que Ângela buscava.  

Por isso existo com o direito de considerar-me quase pulsante. Esse é o pico. O estado das coisas quando nascem. Devo estar de pé. Esta é a posição de quem alcança os dias. Acabo de escrever a fala delirante de um ébrio para uma peça de teatro. Mas falta-me firmeza. Cambaleio. Devo estar erguida. Não posso ainda apresentar-me. Se digo que me chamo Ângela, amanhã posso alterar-me a tal ponto e não saber mais pronunciar meu próprio nome. Tudo aqui é muito precário. Ângela continuava de roupão. O lixo, com as sobras do dia, a esperavam.

E me pergunto o que faço agora. Se sei onde irei chegar apresentando-me de cara dura e lavada: meu nome é Ângela. Sou muito nova. Ainda vivo de roupão pela casa. Já estou chegando. Mas posso estar a enganar a mim e a todos os outros que jamais escutaram qualquer notícia de Ângela. Se fui ao teatro porque a obra era sobre política fascista. Ou se fui ao cinema apenas para estar na sala grande e não por causa do longa-metragem em si. Ainda não aprendi a premeditar-me. Isso aqui é um treino. O que se sabe sobre Ângela, afinal? Que vivi, até este momento, a escuridão de uma noite, a claridade de um dia. Sendo este o terceiro momento ainda inconcluso. Quando carrego a crucial pergunta de não saber aonde se chega porque pode chover ou fazer sol.

À medida que Ângela escreve e relê seus cadernos, ela se pergunta se está mais próxima de voltar ao convívio social ou não. Tirar o roupão. Fazer alguma outra coisa que não seja apenas tirar o lixo e ir ao supermercado. O julgamento que faz de si mesma é se sua atenção sustenta ou não uma conversa. Se ela consegue dialogar por meia-hora sem se desligar, é porque está razoavelmente bem. Por exemplo, uma amiga quis conversar e ela desligou o telefone na cara dela, disse, desculpe, não paguei a conta por seis meses e cortaram a linha.

Ângela continuava planejando uma nova vida, como se pudesse ser outra, escreve em seus cadernos. As folhas soltas pela casa. Há tempos escutei e ignorei meu próprio nome, como sendo isso a normal negação de um nascimento. Ontem, à noite, Ângela saiu para tirar o lixo. Quem não nega o próprio nascer não sabe que nasceu. Ela chegou ao ponto de não conseguir manter uma conversa de dez minutos sem saber mais o que o outro dizia. Ângela deseja outros, não mais aqueles. Questionar é como o crescimento em andamento, formando-me entre renascer ou não renascer. Esquecer as vidas passadas. Ela continua com essa mania meio filosófica e sempre um pouco brega. Escreve em seu caderno, sempre muito afirmativa. Sim, fatalmente me chamo Ângela. Recrio dias: este é o meu papel.

Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2014. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina (Paraguai, Chile, Venezuela, Uruguai). Escreve crônicas para o GGN, desde 2014. Tem publicado um livro de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018) e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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