5 de junho de 2026

Cartas a uma desconhecida – parte III, por Maíra Vasconcelos

Ao escrever essas cartas, tento reconstruir alguns acontecimentos passados para que voltem a ter vida. Essa vida que só a palavra é capaz

Cartas a uma desconhecida – parte III

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por Maíra Vasconcelos

Faço silêncio como quem ama a vida sem saber aquilo que me aguarda.

Como dito nas publicações passadas, essa é, então, a terceira e penúltima parte de “Cartas a uma desconhecida”.

Boa leitura. Até semana que vem.

*

Ao escrever essas cartas, tento reconstruir alguns acontecimentos passados para que voltem a ter vida. Essa vida que só a palavra é capaz. Enquanto costuro o dia inteiro, escrevo cartas à vida.. Crio mínimos detalhes como se realmente tivessem existido dessa maneira. Um beija-flor e os rituais no Tibet. Imaginem só. Jogar com a memória é um modo de reviver como se tudo pudesse permanecer sempre perto de nós. Entendi que a feitura das minhas casas não era necessariamente uma coisa boa. Não era como um dia de sol. Era apenas o olhar cinza buscando espaço. Querendo aparecer no exterior. Esse olhar caminha comigo até hoje. Mas existe tudo que o ameniza. Hoje fico com esse amenizar das coisas. Então, é muito bom que ele me chame constantemente. 

Margot, cadê você, vou colocar a mesa do jantar.
Já vou. 

Primeiro, ele irá servir a mesa, ele adora fazer isso. Todo um prazer. Enquanto isso, guardo comigo mais alguma coisa. Essa mania de ficar guardando. E o guardado só fica bonito quando termino a costura. Tem que passar pela máquina. Cada guardado é desfeito na ponta da agulha. Aí é quando o silêncio ganha forma. Acho que meu silêncio é muito bonito. Minhas peças são extremamente bem quistas. E tudo que fica guardado uma hora explode. Igual as casas que eu tinha.

Vem, Margot.
Termino mais uma peça de roupa e vou.

Só sei o que fica e o que não fica guardado em mim por causa dele. Quando me chama, devo responder. Então paro imediatamente de guardar. Mesmo que seja um guardado na transformação. Por causa de todos os que me chamam, paro de mexer na introspecção. Todos que são os de fora. Esse exterior. O espaço comum. Eu e vocês. Essa virada do corpo ao externo que é íntimo. A plena exposição de si mesmo é algo muito íntimo. Sempre neguei os aspectos sociais demais. Sou íntima. Apesar de morar onde moro e tudo ser tão tropical e exuberante.

Busco espaços cada vez mais íntimos. Como a máquina de costura. Morar na máquina de costura. Já entendi que isso não pode ser uma casa. Morar na máquina de costura. Mas posso penetrar esse lugar como se fosse moradia. A costura. Enquanto casa é outra coisa. E se algum dia cheguei a pensar que a costura é uma casa. Bem, bem. Essa casa também é daquelas que perdi. Completamente. 

Afinal, é preciso também responder às pessoas. Não somente à beleza. E responder os amigos, isso pode trazer beleza. Faço silêncio como quem ama a vida sem saber aquilo que me aguarda. Há pessoas que merecem nossa completa mudez. Isso é terrível. Mas acontece. Depois, há certas coisas que dependem do estar em público. Falando. Gesticulando. Usando o personagem mais sincero de si mesmo. Acho que costuro por isso. Tenho preguiça de aparecer. Hoje em dia, ninguém me vê. Não falo com ninguém. Nem dou muita satisfação. Só para ele e com ele.

Margot, que silêncio é esse.
Faço silêncio como quem ama a vida sem saber aquilo que me aguarda.
Falei isso de porta fechada. Ele não escutou.
Já, vou. Estou indo.
Precisei gritar. E isso é ótimo.

*

Naquela época em que eu dizia: poderia afirmar que a vida aqui está muito dura. Que dificuldade era perceber a concretude das coisas. Por exemplo, o concreto da casa. As paredes que descascam precisam de arrumação. O azulejo trincado do banheiro. Essas coisas de todos os dias. A dureza da vida muda muito de pessoa para pessoa. De uma costureira para um mestre de obras, ou de um empresário bem sucedido para um músico. Imagine só. Mas há coisas em que a dureza da vida é a mesma. Por exemplo, na morte. Nessa hora, a dureza é bem igual ou muito parecida para todos. Mesmo que alguns chorem em enterros e outros não. Não é disso que quero falar. Dessa expressão de fora, exatamente.

Além do mais, falava da casa. A dureza da casa e de todas as casas que perdi. Um horror ser esse tipo de gente. A sorte é ser costureira. Isso que não tem nada a ver com as questões existenciais de outras épocas. E me refiz no ofício de minha mãe. Sem saber o que isso quer dizer em relação aos tempos. Foi a saída que melhor coube entre meus olhos e mãos: costurar.

Adoro essa costura ou o silêncio que ela proporciona. Menos explicações tenho que dar sobre aquilo que sou ou fui. Essas coisas que nos perguntam em todas as conversas. Aquela época em que dizia: recebi suas rosas e cheiros e permaneci imóvel. Ao menos, aparentemente. Nossa, que horror. Ainda bem que passou. Não saí de tudo isso dançando ou dando pirueta. Saí costurando, silenciosamente.

Senti o suficiente para saber que minha casa estava perdida. Toda aquela casa de 50 anos erguida no meu corpo. Na fala, indo embora. Apropriando-me de outra, de outra casa e de outra fala. Cheguei a pensar que a casa fosse isso, o que eu refletia sobre qualquer aspecto de mim mesma ou dos outros. Ficar morando naquilo que se pensa. Ou também no desejo de viver, como se isso fosse casa. E onde já se viu o gosto por estar vivo ser uma casa? Eu achava que poderia. E não era. E todas aquelas casas, que não eram mais do que muito frágeis, acho que agora já as enterrei. Ou quase.

Foi necessário matar as casas que não eram casas, pois fui ficando cada vez mais desprotegida, cada vez mais. Até o corpo avisar que estava em perigo. Mas isso agora não importa. Todas essas casas devem estar debaixo dos meus pés esperando o último adeus.

Vida, escrevo para dar adeus a tudo que, por fim, perdi. Adeus, casas da minha vida, tive que tomar outros rumos. Casas de vento não devem existir. Pois, entre o corpo e aquilo que somos nós mesmos, há diferenças. Ainda que, às vezes, pareça que não. Mas é apenas aparentemente. Somos reflexo disso que acaba logo. E acaba aos poucos. Mas é preciso ver beleza. Isso é muito importante. Em tudo há beleza. Eu e essa mania de buscar beleza em tudo. A única forma de se manter o corpo na vida é vendo beleza.

Margot, vem jantar. Abra o vinho.
Já vou. Estou indo.

*

Poderia afirmar que a vida está boa. Minha mãe dizia que costurava e rezava. Eu costuro e faço sexo. Os tempos são outros, claramente. Não só o tempo de uma costureira atarefada. Mas o tempo da vida e o que fazemos com ela. Estou muito bem-disposta aos 65 anos. Em outro século, já não estaria nem mais aqui. Antes, vivia-se menos. Mulher, então, sempre foi mais escrava da vida do que o resto.

Nessa dificuldade de ver as coisas com carinho. A essa idade o amor custa mais. O olhar cinza ganhou outras proporções e tenta se impregnar com maior frequência. Não sei, realmente, o que pesa mais do que um olhar cinza. Faço silêncio como quem ama a vida sem saber aquilo que me aguarda. Mas a busca constante pela beleza pode reverter o cinza. E, afinal, encontra-se a beleza. Porque não há outra saída. Somente a beleza justifica os dias. Coitado de quem não vê beleza nas coisas da vida.

Maíra Vasconcelos é jornalista e poeta, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2012. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Tem publicado os livros de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018), “Algumas ideias para filmes de terror” (Ed. 7 Letras, 2022), e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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