4 de junho de 2026

O grande nó das políticas de proteção à indústria, por Luís Nassif

Hoje em dia, máquinas chinesas importados custam quase metade das máquinas nacionais. Qual a saída para impasses?

Um dos grandes dilemas da defesa da produção brasileira é o paradoxo da dupla escolha: se escolho defender o consumidor de insumos, mato o fornecedor; se escolho o fornecedor, mato o consumidor.

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Não se trata de mero jogo de palavras.

Tome-se o caso da indústria siderúrgica e da indústria de máquinas. Hoje em dia, máquinas chinesas importados custam quase metade das máquinas nacionais. Um dos fatores centrais é o preço do aço.

Em 25 de janeiro de 2024, a diferença entre o preço do aço nacional e o aço chinês no Brasil é de cerca de 10%. A tonelada do aço nacional é negociada na faixa de US$ 825, enquanto o mesmo produto chinês no Brasil custa US$ 725.

A cada valorização do real o mercado comemora, comemora o governo, comemoram os investidores que trouxeram dólares. Antes, e choram os fabricantes nacionais, porque a diferença de preços aumenta.

A diferença de preços no aço da China é causada por diversos fatores, incluindo:

  • Subsídios do governo chinês: O governo chinês é o controlador da maioria das siderúrgicas do país e determina a venda do aço nestas condições, em esforço anticíclico para manter a economia aquecida. É efeito da tal política indústrial velha, como a batizam nossos sábios que criticam a nova política industrial
  • Sobreprodução: A China é o maior produtor de aço do mundo e, nos últimos anos, tem enfrentado um problema de sobreprodução, o que pressionou os preços para baixo. Em tempos mais racionais, seria mais que motivo para o Brasil impor tarifas protetivas.
  • Práticas ESG: As siderúrgicas brasileiras têm adotado práticas ESG, com maior cuidado ambiental e de sustentabilidade na produção. Isso eleva os custos de produção, tornando o aço nacional mais caro.

Por outro lado, se taxar os produtos chineses, encarecerá imediatamente a produção de máquinas e equipamentos nacionais, aumentando a diferença com os produtos chineses importados. Salva a indústria siderúrgica e mata a de máquinas e equipamentos.

Outra saída seria taxar, também, as máquinas e equipamentos chineses, mas significaria aumentar o custo de aquisição de máquinas para todas as empresas brasileiras, gerando uma perda de competitividade sistêmica.

A propósito, a Tesla, ex-maior fabricante de carros elétricos, está pedindo proteção, nos EUA, em relação aos carros chineses. Qual a saída desse tríplice impasse? Criar subsídios para a indústria nacional, diriam os anacrônicos chineses, que preferiram ouvir Deng Xiaoping, em vez da Elena Landau; os atrasados norte-americanos, que trocaram os ensinamentos de Carlos Alberto Sardenberg por Alexander Hamilton, esses alemães que ousaram trocar Demétrio Magnolli por Bismarck; Elon Musk que não leu Elio Gaspari?

Restará aos nossos bravos ideólogos fazer a cabeça dos Marx. Não do Karl, mas do Chico,  Harpo, Groucho, Gummo, Zeppo os verdadeiros precursores do modo de pensar moderno brasileiro contemporâneo.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. Roberto Soares

    26 de janeiro de 2024 3:03 pm

    Vamos valorizar o produto nacional, Nassif, prefira Didi, Dedé, Mussum e Zacarias como vítimas dos nossos “analistas” econômicos.

  2. evandro condé

    27 de janeiro de 2024 9:08 am

    Há um bom tempo, colega projetista de estruturas metálicas industrias comentou: os chineses entregam a estrutura toda por quase a metade do preço. E se der problema, entregam outra. Como concorrer?

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